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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

MACAU

Recebi este cartão (com meu poema)
dos amigos chineses: o artista macauense Rigoberto Rosário
e Chan Lai Han (Margaret), sua esposa.  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

LIVRO ABERTO


NOITE ESTRELADA

Há uma noite no meu livro
Como também o vento que o atravessa e enche.
Amei os ventos desde menino.
“O vento sopra onde quer
– disse o meu Mestre –
Ouves o seu ruído
Mas não sabes de onde ele vem
Nem para onde vai.”
Há uma noite no meu livro
Como também o tempo
E a hora extrema
Que ultrapassa-se.
Para os mais violentos corações
Uma pérola escondida e o meu silêncio.
“Quem nasce do espírito
É como o vento”...
Há uma noite no meu livro.
Mas nela que era imensa
Fez-se o luzir intenso da verdade
A luz.
Dou-te um segredo lapidado:
A noite do meu livro
É estrelada.


INFINITO

As estrelas no céu guardam um nome,
Um segredo, um mistério em cada brilho.
Eu, com os pés descalços, o mar trilho
Da infinita Via Láctea, lume...

Pois fui rei noutros mundos em outrora...
E este céu, que ao silêncio se abisma,
Portentoso e cúmplice da cisma,
Em cada canto um pranto por mim chora.

Ao transpor das esferas o portal,
Não perdi minha glória d’ imortal...
Inda canta a minh’alma, diz em grito:

Eu sou irmão dos deuses!... De saudade
Todos os astros choram a irmandade
Partida nas distâncias do infinito!...


(FABIANO, Antonio. “Sazonadas”, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012).


ASSIM...


DELICADO

Minhas mãos teceram este poema
Com fios de tua ausência
(Solidão)
Cativas do silêncio
– Nostalgia –
Traços da mais efêmera ilusão...

De agruras me fiz
E de arredias
Tardes
Em linhas d’uma espera inacabada
Onde eu não sei saber-te mais que amor!

Vivo de mim já não lembrado!
Por teu querer tornei-me delicado!
E quando agora eu toco as coisas frias
Que a vida espalha pelo tempo e cantos
Não o faço com mais força do que a brisa
Nem com ruído mais que este do orvalho
Tombando sobre as taças!...


CARENTE

Ando carente de um amor, o que fluísse
Sobre o meu mau-humor e este sentir de
Lancinantes dardos que atormentam-me;
O que viesse sobre a minha amarga dor
E excitados lábios, muros da boca,
Feitos para o beijo,
Na cor profunda, vívida
De um não sei quê já bem suave e quase
Fugidio...

É como a chama de uma vela o meu amor,
Bem delicado...
É como um sopro que aviva o fogo... Ardor...
E dança... E brilha... E dança...

Oh, ginga abrandante, velha e ingênua ginga,
Do ritual criado pra dar trégua a meu horrível tédio!
Quero o amor que seja como as águas
Das cataratas de Iguaçu
E eu derramado, como de um vaso espedaçado,
Ao jorro de um luzir de estela
Que resplendesse ainda mais alto e intenso!

Eu quero o sopro dos alentos,
Mergulhar bem fundo
Em desmaiadas plagas,
Perder-me no azul
De uns olhos lindos
E ali morar, morrer, me afogar...
Depois boiar
Sempre à deriva do que tênue se passa
Entre o luar
E as águas deste humilde charco,
A condição humana ou, mais que tudo,
O meu silêncio
Gritado no secreto sono. 


TROPEL

Em mim, meu bem, o sagrado e o profano se misturam
com a mesma precisão enigmática
de um rio em curso
veloz
a devassar o chão molhado
de tua espera!

De dentro de mim, só para ti,
ruge um tropel
como se houvesse no meu peito e no meu corpo
mil cavalos sem asas a desejar teus prados!

Pelos cantos dos teus olhos
tu me furtas
e eu me adentro sorrateiro
sem dizer palavra alguma
dono e ladrão de delícias...

(...nossos desejos reticentes coincidem).

Por esta causa tornei-me como os braços de um rio
que em sonho sonha-se mar
soberano e doce...

E não me estanco de te abraçar!

(FABIANO, Antonio. “Sazonadas”, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012).



AMOR MAIOR

Os ipês não saem da minha cabeça.
Na verdade há uma coroa de flores amarelas
Posta em meu pensamento.
É um tormento quando há floração:
Durante vinte dias sofro
A beleza me fere e mata!
Mas não era de ipês que eu ia falar...
É de uma árvore sem folhas que eu vi e amei
E que não é ipê. Era sombria e de longos galhos
Ali como se estivesse desde a eternidade
(embora eu não saiba o que é isso).
Talvez pelo meu exaltado estado
De espírito
Fiz de ti frondosa árvore
O objeto de meu puro amor.
E o meu amor haveria de te cobrir de folhas e dar frutos
Apressando as estações
Ultrapassando-as
Superando-se a cada passo
Na crença de que amor que é amor
Não espera nada.
Por quanto tempo eu te amei não sei.
Amor apaga tempo e outras noções.
Eu quando amei parei uma ou três vezes
O sol com a mão no meio céu
Para que fosse pleno o dia e para que durasse
A eternidade (esta que eu não sei).
Mas somos tão pequenos ó árvore!
O infinito nos sufoca e humilha.
E eu que parti primeiro
Traí meu objeto de amor.
Tuas folhas cairão de novo
Como os meus cabelos.
Outros virão e te amarão
Com amor sempre novo
(pois se é amor é sempre novo)
Mas nunca como eu
Que te dei flores frutos
Ainda que humildes
E a paina espalhada pelo chão de um dia
Com beleza macia e vento a te soprar cantares.
De ver-te infindas vezes
(tão obcecadamente)
Eu me ceguei.
A medo eu nada disse
Porque era impotente o meu silêncio
De contemplação.
É maldita a sorte de quem ama árvore eterna
E desce ao fundo de sua raiz.
Mas saberá alguém amar e não descer?
Quando a minha boca ficou vazia de palavras
E mais que ela o coração
Eras ainda bela e altiva!
Eu nunca conheci amor maior
Que o de dar flores a uma árvore
E isto eu te dei.


(FABIANO, Antonio. “Sazonadas”, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012).

MAIS ALGUNS...


PONTEIROS

Um segundo
tempo-instante
adiciona-se
ao relógio virtual.

Um segundo
nome
– algarismo romano –
(re)define o outro tempo
ultra-real.

Qualquer coisa
ou outra coisa
caiu...
...foi arrastada
pelos ponteiros
primeiro e segundos
da marcação a-temporal
de nossa história da humanidade.

Relógios marcam horas,
não poesia.
Relógios marcam coisas,
não pessoas.
Relógios tocam tudo,
menos a música do tempo.

Ponteiros
...giram giram
e sempre voltam
para acariciar ou espetar os homens
com aquela verdade
que quando a entendemos
já não temos mais tempo.


ESTÁTUA DE SAL

Rua dos ursos polares tão branca e feia
Eu quis dar-te um poema para que existisses
Além da cal na pele escura dos homens
Que em ti suam e fazem do pó labuta
A vida e o fim seus.
Rua tão triste de ursos mascarados
Onde os que passam apressam o passo
E passam sem querer voltar.
Onde o meu paço de poesia ergueu-se
Ignorando carros transeuntes pés
Gente que nem te olha e só te pisa e ignora.
Rua onde eu passei com o coração flechado
E fui capaz de urgir o tempo ao olhar pra trás.
Olhei e vi figuras bípedes
Seres congelados no passado
Os que deixaram de existir há tempos
Os que não voltam mais para o presente
Que me dariam em noite de Natal.
Eram pálidas as figuras e mais pálidas
As que amei – em meu desesperado amor.
Eram estátuas de um museu de musas
E eu (porque olhei pra trás)
Tornava-me também estátua
Nua e fria.

Um silêncio delirante cobriu meu sonho
E a noite imensa.


MINHA TERRA

Minha terra!
O tempo passa e amadurecemos.
Mas envelheço e tu remoças
Na força dos que chegam
Fortes mais que eu.

Como um condenado nas galés
Hoje eu te olho.
Como forasteiro e só.
Dos porões da história
A que nunca escrevi
Hoje eu te sinto e choro.

Porque passei.
Passei e
Não me viste!
Ataviei-me de beleza
E nem sequer me olhaste.

Fiz-me teu filho por escolha e
Sem o ser degenerado
Órfão deixaste-me.
Eu de outros ventres parido...
Eu o não legitimado.

Dobra o sino. Em meu lamento?
Não era pra ser triste este poema.

Aqui perdido
Outra vez
Me tens – me tens
A sonhar teus voos
Glória mil vezes
Maior que a possível
E não me tens... me tens...
Me tens...

Minha terra! Minha terra!...
Quando dizer isso dói tão fundo
E aí deixar-te.
Onde chover é tão bonito
E a saudade não termina
Nunca.

Aí, onde as serras ganham contornos de infinito
E o rio grande que nasce pequeno
Te dá águas para o mar
E outra vez te deixa para nunca mais.

Mas porque saio de ti
Que em mim não findas
A claridade dos teus dias
Vai pelos meus passos
Vida afora.


(FABIANO, Antonio. “Sazonadas”, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012).


terça-feira, 26 de junho de 2012

LOUCURA SANTA


O santo enlouqueceu.
Invadiu o céu
Derrubou tronos e estrelas
Cortou as asas de seis anjos
Desacatou a própria Mãe de Deus
E foi-se embora.
Nada de raiar sanguínea e fresca a madrugada!
O dia apareceu de vez e sem rodeios,
Só com humanas emergências!...
(Ou era a noite
Desbotando-se em pavores
Que empalidecera?)
Voaram, meteóricos,
Pedaços de nuvens e constelações
Inteiras,
Cacos de manhãs ainda fechadas,
Prematuras,
Coisas mais do empíreo
Pela terra inteira!
(Terra. Terra.
A que já nem era azul
Vista da Lua
Mas daltonicamente
De outra cor!)
Dispersou-se, esbaforida, a corte toda
Em celestial horror!
Santos velhos, com divinos cansaços,
Prudentes virgens, com suas lamparinas,
Mártires, palmas, auréolas pendidas,
Todos para os seus nichos,
Foram se esconder!
E anjos, que ainda podiam voar,
Partiram em revoada
Pras igrejas de Minas mais barrocas!
Foi uma coisa trágica e linda de se ver!...
A santos e loucos não se imputa culpa.
Restou só Deus, ali,
Fazendo-se de grave...
Meio perplexo,
Contendo o riso (quase a não disfarçá-lo!),
Boquiaberto,
A olhar o santo, o louco,
Admirado...

(FABIANO, Antonio. SAZONADAS, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012.)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

APELO


Esta empreitada não é pra iniciantes
É pra quem já cresceu à flor do tempo
Quem sabe de palavras a delicadeza
O enigma...
Seu eco mais profundo.

Pare o poema
Contenha a mão – vento que o infla –
Se o brilho dessa luz não te comove
Se o belo não te leva ao pranto
De beatíficos gozo e aflição
Em seu mistério penetrável-
Impenetrável.

A espada que se impõe
Tem dúbios gumes
Quando pro ataque ataviamo-nos
Co’ elegâncias.

Isso te aflige?
Atire, pois, contra os muros o meu livro
Rasgue a palavra incômoda
Não sobreviva quem souber morrer!

Mas, ah!... Se
Tu chegaste
Aqui
Inteiro ou aos pedaços
– pouco importa! –
Se assim se deu
Não pares nunca, nunca
Antes do fim!...

(FABIANO, Antonio. “Sazonadas”, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012). 


quarta-feira, 16 de maio de 2012

ENTREVISTA A FERNANDO FONSECA

Antonio Fabiano em fotografia de Márcio do Carmo de Paiva


Entrevista concedida a Fernando Fonseca


"A entrevista do mês é com o poeta Antonio Fabiano, que acaba de lançar seu primeiro livro de poesia, o qual já está à venda no Café e Livraria da Praça. Ele é religioso, da Ordem dos Carmelitas Descalços. Gentilmente recebeu o Fantastic e falou sobre muita coisa boa: poesia, vida e religião. Um papo realmente que merece ser lido com atenção, pela  sabedoria que transmite." 
(http://www.fantasticgroup.com.br/daybyday/?pagina=noticias&id=2283&.html)

Abaixo o texto na íntegra (sem cortes de edição):

ENTREVISTA

Antonio, como e quando começou a escrever poesia?
Para começo de conversa, eu não gostava de poesia. Achava poesia uma coisa muito chata! Eu era leitor assíduo de outros gêneros literários, sim, mas de poesia... quase nunca. Excetuando a literatura de cordel do Nordeste, algo bem peculiar, bastante comum desde o berço em nossa terra (sou potiguar), eu não frequentava outros poetas. Li tudo que estava disponível em prosa, nas nossas bibliotecas, incluindo a extensa obra de Monteiro Lobato, o autor que mais me fascinou na infância. Li os grandes clássicos da literatura brasileira e universal... Mas ainda não tinha sido educado, se é que posso falar assim, para a poesia propriamente dita. É verdade que, com oito ou nove anos, eu escrevi dois “poemas” para as aulas de redação, mas sem muita consciência de gênero ou fazer artístico. É preciso aprender a gostar de poesia, o que pode acontecer de muitas maneiras para cada pessoa. Aconteceu para mim, definitivamente, quando eu ingressei na faculdade de Letras e tive contato com outros poetas, estudei exaustivamente a poética nos moldes clássicos etc. Descobri, então, que a poesia era um caminho, a maior paixão. Claro que eu já havia lido, antes, e até mais de uma vez, “Os Lusíadas” de Camões ou a “Divina Comédia” de Dante, por exemplo, mas sem grande noção da complexidade e da fonte inesgotável de beleza dessas obras. Foi no curso de Letras que eu comecei a gostar verdadeiramente de toda poesia e, também, a escrever compulsivamente. Eu tinha mais ou menos vinte anos de idade. Na universidade estudei as literaturas do Brasil e de Portugal, bem como as dos EUA e da Inglaterra. Estudei também a literatura potiguar, que é riquíssima. E, para além da universidade, lia e estudava alguma coisa dos poetas franceses, espanhóis... Aliás, foi aí que esbarrei na monumental obra de São João da Cruz, o grande poeta e místico do século XVI. Ingressei mais tarde em sua Ordem, como sabe. Nessa época ganhei, entre os colegas da universidade, alguma notoriedade e respeito, mas não publicava nada de poesia! Muitos dos meus amigos daquele tempo publicaram seus livros, receberam prêmios, foram adiante na educação e cultura, tornaram-se conhecidos em diversos segmentos das artes. Eu demorei um pouco mais. Fora isso, publiquei, sim, outras coisas... Sempre escrevi muito. Estive metido na política estudantil, era da direção de um jornal acadêmico bastante literário, realizava eventos culturais... Eu fui muito feliz em estar junto e aprender de uma geração nova de intelectuais potiguares, geração que gostava de literatura e felizmente está aí, dando seu contributo às letras, com dignidade. Tive ótimos professores, com os quais mantenho até hoje vínculo de amizade e gratidão. É muito importante dizer isso...


Quais os poetas que o inspiram e que aprecia?
Eu praticamente li tudo do “cânon”. E li igualmente o que não está no “cânon”. Por isso, fica difícil dizer todos os poetas que aprecio e que me inspiram. Também a identificação com este ou aquele poeta se dá em diferentes fases da vida. Houve um tempo em que li com grande entusiasmo os portugueses, desde a Cantiga de Guarvaia [Cantiga de Guarvaia ou Cantiga da Ribeirinha é o primeiro texto literário em língua galaico-portuguesa de que se tem registro, composta talvez em 1198 por Paio Soares de Taveirós], até os poetas contemporâneos. Destacaria, então, Fernando Pessoa e, mais que tudo, Florbela Espanca, uma interessante e controvertida personalidade literária do século passado. Aliás, o Brasil tem uma de suas principais estudiosas, a notável Maria Lúcia Dal Farra, também poeta. Durante muito tempo, os livros de Florbela Espanca foram minha bíblia. Está aí uma poesia que revisito com prazer. Aqui do Brasil, eu li com verdadeiro devotamento Manuel Bandeira, influência que fiz questão que aparecesse no livro [Sazonadas] através de pelo menos dois poemas. Um pouco depois, eu descobri que Minas não precisa mesmo ter mar: vocês têm uma invejável tradição cultural. Eu olho com grandíssimo respeito para o povo que deu ao mundo Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade... Estar aqui há quase dez anos me fez conhecer, com crescente admiração e zelo, os escritores mineiros. E são tantos, meu Deus! E tão bons! Eu já admirava Minas, já conhecia os poetas inconfidentes... Deleitei-me com o Arcadismo etc. Li também Alphonsus de Guimarães... tão musical, simbolista... Mas pode-se dizer que, sobretudo nos últimos tempos, eu fui mais a fundo na poesia de vocês e literatura de modo geral. Eu poderia até citar muitos nomes contemporâneos, porque há uma geração mineira bem promissora... Mas deixe-me ser previsível, com excelência: inspira-me muito, ainda agora, a poesia de Drummond, Adélia Prado... Claro, para além de Minas, o poeta Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Mário Quintana, Maria Lúcia Dal Farra, Zila Mamede (poeta potiguar). Inspira-me sempre a poesia de São João da Cruz, que é muito boa. Gregos e latinos que revisito com renovado gosto... Ainda, Federico García Lorca... E muitos outros. A literatura é uma fonte inesgotável de prazer!

Como você vê a relação entre o sagrado e o profano em sua poética?
Eu lido o tempo todo com o sagrado, pela própria forma de vida que abracei. Sou religioso, como sabem. Alimento-me de textos sagrados todos os dias. Rezo as Horas com a minha comunidade. Gasto um considerável tempo de minha vida em silêncio, oração etc. Mas também me considero uma pessoa igual às demais, a par do que se passa no mundo etc. Leio jornais, participo da vida e dos sofrimentos das pessoas. Se escrevo coisas que são lidas em mosteiros ou publicadas nos meios religiosos, também faço coisas que nada têm a ver com isso – como talvez a minha poesia. Sou parte deste tempo, com angústias e anseios iguais aos de todos deste tempo... Então, em certo sentido, não posso nem quero desvincular uma coisa da outra, isto é, o sagrado e o profano. Até escrevi que, em mim, eles se misturam com a mesma precisão enigmática de um rio em curso, veloz, a devassar o chão molhado da espera... Tá mais ou menos assim, no livro, em algum lugar... Ora, o sagrado e o profano caminham juntos, desde que o mundo é mundo. Você não precisa tornar-se carmelita descalço para fazer experiência do sagrado. Você, como qualquer pessoa, habita esta realidade. E nem eu, nem o Papa, graças a Deus, somos capazes de dizer onde começa uma coisa e termina a outra. É verdade que homens arrogantes das religiões muitas vezes tiveram essa pretensão, e pessoas até foram queimadas por causa disso. Mas devemos ser mais humildes, em face do mistério que nos ultrapassa. A poesia, mais que tudo, nos faz provar estas verdades. Gosto do Quintana, quando ele diz que a poesia, a boa poesia, até quando fala contra Deus, leva para Deus. Bem, estou citando isso de cabeça... Veja como está naquele bonito poema dele: “Se eu fosse um padre”... Finalmente respondendo: em minha poética, a relação entre o sagrado e o profano é latente. Não deixo de ser o que sou quando escrevo. E o que sou afeta a minha poesia. Mas isso é muito bom! O profano não me exaspera. Acho que o sagrado me assusta mais...


Dentro da pergunta anterior: eu gostaria de saber em que medida o fato de você ser religioso influencia sua poesia? Isso te limita ou te censura ao abordar algum tema? Quero dizer, no caso, sua consciência...
Ser um carmelita descalço influencia, sim, a minha poesia. E não apenas a poesia, mas qualquer coisa que eu fizer. Porém, não faço proselitismo quando escrevo poesia. Não quero convencer ninguém de nada. Alguns não entendem nem gostam que eu perca tempo com versos tão “profanos”; para eles, eu deveria escrever castos poemas à Virgem ou me ocupar de rezar e converter pecadores... Eu rezo. Ainda não me converti totalmente... E escrevo o que a poesia manda, quando ela vem a mim, não o que quero escrever. Não gosto de fanáticos religiosos, nem os da minha, nem os de outras religiões. O único “fanatismo” de que gosto é o de Florbela Espanca. Aliás, já ouviram o soneto dela, o poema que tem esse nome, cantado por Fagner? Então, respondendo às outras perguntas que você fez... O fato de ser religioso não me limita nem me censura. A ser assim, não escreveria o que escrevo. Estou convencido de que posso abordar qualquer tema em minha arte. E não tenho problemas com a minha consciência por causa disso. Mas ser religioso, para mim, é maior que ser poeta. Muitas vezes não posso ir aonde quero, devo estar com a minha comunidade, fazendo coisas bem simples do cotidiano. E se eu tiver um compromisso social importante, não hesito em cancelá-lo para atender a uma necessidade da minha comunidade ou do povo. As coisas que eu publico têm licença da Ordem – digo licença, não censura. Eu tenho voto de obediência, então devo abarcar as consequências do que livremente abracei. Mas aqui dentro eu sou um irmão como todos os outros, fazendo exatamente as mesmas humildes coisas... Os superiores me autorizam, certamente, mas muitos dos confrades nem sabem que tenho coisas publicadas. Isto, portanto, não é o principal de minha vida, ainda que muito importante e caro ao meu coração.

 
Queria que falasse um pouco sobre o seu trabalho na Ordem, sua vocação religiosa...

Como carmelita descalço, eu trago o peso de uma tradição de séculos na Igreja. E o Carmelo deu ao mundo alguns de seus maiores místicos. Inclusive São João da Cruz é um grande poeta, não apenas místico, mas poeta de verdade e dos bons, respeitado e admirado por qualquer pessoa séria que tenha estudado ou simplesmente conheça um pouco da literatura espanhola do século XVI. Mas por que digo isso? Porque foi através da leitura das Obras de São João da Cruz que eu conheci o Carmelo e acabei entrando nele. Um carmelita é genuinamente uma pessoa de oração. Acordamos bem cedo todos os dias para rezar em comunidade, isto é, com os irmãos do convento. Rezamos em várias horas do dia, o que chamamos de Liturgia das Horas. Cantamos os salmos e meditamos a Palavra de Deus etc. Mas também trabalhamos e estudamos muito. Temos hoje no Carmelo, mesmo entre as monjas que são de estrita clausura, pessoas capacitadas em diversas áreas. No nosso caso, os homens, saímos também para o que chamamos de pastoral, missão ou ação apostólica. Recentemente estive em missão no Amazonas. Mas quando digo missão, quero que entenda que isso hoje tem outro significado. Não fui catolicizar índio ou recrutar adeptos para as fileiras de minha Igreja. Estes trabalhos me possibilitam estar próximo das pessoas, ouvi-las, aprender delas e também dar um pouco do que recebemos de bom. Estive em diversos lugares deste país, alguns tão miseráveis quanto seja impossível apenas imaginar. A dor e o sofrimento de muitos dos nossos irmãos têm cores chocantes, quando vistos de perto, mais do que aquilo que supomos. Também aqui em Belo Horizonte realizamos trabalhos pastorais, inclusive de assistência social. Quanto à vocação religiosa, em esfera mais pessoal, posso dizer que sou uma pessoa feliz. Eu já era muito feliz antes de vir para o Carmelo. Abri mão de muitas coisas... Mas não sinto falta de nada! Hoje sou mais feliz, porque me sinto existencialmente bem situado. Quero dizer, estou no lugar certo. Sei que é difícil para alguns entenderem isso, muitas vezes eu também não entendo, mas quando você está no lugar certo... não importa o que aconteça, ou quanto você deva perder para ganhar. Eu fiz a melhor escolha de minha vida! Mas não acho que todos tenham de seguir pelo mesmo caminho, ou pensar como eu penso, ou acreditar nas coisas que eu acredito... Muitos não suportam as exigências deste estado de vida. Eu posso entendê-los. Alguns amigos nunca aceitaram a minha vocação... Mas a vida é assim mesmo, não é? O que seria das outras flores do mundo, pobrezinhas, se tudo fosse só girassóis de Van Gogh?


Você tem blog. Quais os motivos para a criação dele? Divulgar sua poesia e seu trabalho na Ordem?
Já faz algum tempo que tenho blog, é verdade. Mas não o criei para divulgar nada. Quando eu comecei com ele, tive de obter licença do provincial, principalmente porque não se tratava de um blog para divulgar coisas da Ordem ou textos de convicção religiosa. Se você reparou bem, lá está o meu nome civil. Na Ordem eu tenho outro nome. Isto se explica lá, não é dupla identidade. É um costume antigo, mantido ainda por algumas famílias religiosas da Igreja. No blog eu nunca abordo assunto de religião, com exceção de uma ou duas vezes em que a circunstância pediu. Mas não são textos piedosos os que escrevi lá. Isso não quer dizer que eu não escreva também coisas religiosas! Claro que sim, escrevo e publico em outros meios. E sou lido por irmãos e irmãs do Carmelo e de outros mosteiros e expressões de vida religiosa. Mas por que eu haveria de só falar de religião, o tempo todo, como se Deus fosse uma coisa a ser metida de goela abaixo nas pessoas? Se eu realmente sou possuído pela experiência de Deus, as pessoas que tiverem contato comigo ou lerem o que eu escrevo sentirão isso, de seu jeito e nas suas medidas, até mesmo quando eu não disser palavra alguma sobre Deus. Eu acredito no poder humanizador da poesia. A boa poesia nos torna melhores, e o mundo precisa de pessoas melhores. Pouco importa se o poeta é cristão, ateu ou agnóstico. A beleza tem o poder de nos redimir. Eu busco respeitar muito a arte alheia, ainda quando não a entendo ou não gosto dela. Eu não sou obrigado a gostar de tudo que é bom, claro. Mas respeito sempre o que é trabalho sério de artista de verdade. E aí me entenda, pelo amor de Deus: eu não acho que tudo seja arte. Há muita coisa ruim que se pretende melhor do que tudo que existiu antes. Eu prefiro não falar dessas coisas. No meu blog, falo mais do que gosto, entram ali apenas meus amigos e as pessoas da minha afinidade literária, isto é, só entrevisto ou publico pessoas e coisas de que gosto. Assim, não é um blog de utilidade pública. Talvez, de inutilidade pública. O que quero mesmo dizer é que é um blog pessoal. Não tem maiores pretensões. Por isso tem meu nome no frontispício, e não um tema literário. O blog surgiu de uma necessidade de manter viva a paixão e o zelo que aprendi a ter pela literatura de um modo geral. É um blog literário, como já disse. Também ali publico alguns poemas meus e as crônicas semanais, mas não se trata de um blog de divulgação de trabalho, como você perguntou, ainda que eu também possa fazer isso lá. É uma página de relação com pessoas que gostam do que eu gosto ou que querem dialogar, até pensando diferente, o que é ótimo! É uma forma que encontrei de estar próximo das pessoas e trocar ideias com quem também aprecia as boas letras. Para minha surpresa, gente muito competente frequenta essas páginas. Recebo mensagens até de “imortais”... Mas escrevo para pessoas comuns, como eu. E me esforço para manter as páginas em nível de excelência, com senso de responsabilidade, porque as pessoas merecem o melhor que cada um de nós pode lhes dar.


Como você definiria seu livro em termos de temática para o leitor e como foi o processo de elaboração  dele, seleção de poemas, edição  e outros aspectos?
Eu preferiria que outros o definissem... Mas creio que é um livro onde predominam poemas mais líricos. Não esperem mais do mesmo no próximo, porque sou capaz de escrever coisas muito diferentes disso, e já escrevi! Eu quis que esse livro fosse mais terno, delicado, sem frescura, claro! (risos). Eu escolhi poemas recentes e alguns mais antigos, para manifestar um pouco da influência literária que recebi ao longo destes anos. Não está tudo lá, mas pretendi mesmo explicitar algumas dessas influências, até como forma de gratidão e continuidade... Foi proposital colocar ali poemas que dialogam com outros poetas, ou que dialogam entre si. Foi proposital deixar vazar nos textos alguns traços autobiográficos. No sentido lícito da palavra, eu quis fazer um livro pessoal, mais íntimo, para os mais chegados. Não é sempre assim que procedo. Mas, livro de poesia é o meu primeiro... então, eu quis começar assim, pouco me importando com o julgamento que fizessem disso. O processo de elaboração foi um pouco demorado... Eu reduzi o livro, isto é, o número de poemas, porque, inclusive, não podia pagar por mais. Nada foi feito com dinheiro da Ordem, diga-se em tempo. A tiragem é pequeníssima... Há poucos exemplares de “Sazonadas” no mundo. Do que você perguntou, não pude acompanhar de perto todo o processo de editoração. Apenas a revisão... Tudo foi feito no Rio, pelo editor da Taba Cultural. Andei bem ocupado, nesse período, com outras coisas, especialmente da Ordem. Então, não exigi tanto, nem deles nem de mim. Mas dei-me por satisfeito ao final do trabalho e... já não me detenho nele. Ao menos como carmelita, devo me lembrar de que não me convém aportar o coração nessas coisas.

Entrevista concedida a Fernando Fonseca
Publicada em 16 de maio de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

COM LICENÇA, POÉTICA!


COM LICENÇA, POÉTICA!

Com licença, poética!
Também quero ser poeta.
Acho que antes dos quarenta
Até publico o meu livro...

Gullar tem cabelos longos
E uma fúria aguçada
De jovem, jovem, muito jovem...
Mesmo depois dos oitenta!

Haverá lugar pra mais
Nesse trem de além de além?

Ai, meu Deus!
O tempo está se acabando!
Rugi, rugi, o tempo rugi...
Esse leão é feroz!

Eu estou ficando velho.
Chego aos cento e vinte anos?
A testa está se alargando...
Mas isso pouco interessa!

Fios do Gullar à parte,
O Drummond era careca.

(FABIANO, Antonio. “Sazonadas”, Rio de Janeiro: Taba Cultural, 2012).

O poema de abertura do livro “Sazonadas” de Antonio Fabiano, intitula-se “Com licença, poética!”. É quase uma brincadeira que o poeta faz com alguns de seus principais interlocutores literários. Em primeiro lugar, o título quer explicitamente lembrar outro poema, aquele com o qual Adélia Prado em 1976 estreou em poesia e abriu o seu livro “Bagagem”. Mas em Adélia lemos “Com licença poética”, ao passo que em Antonio Fabiano é a própria poética que é interpelada de modo irreverente: “Com licença, poética!”. Curioso é que o poema de Adélia Prado refere-se, intertextualmente, ao “Poema de Sete Faces” de Carlos Drummond de Andrade, publicado por sua vez em seu primeiro livro de poesia “Alguma Poesia” (1930). Em Antonio Fabiano esta reconstituição é importante. Longe de dissimular as influências que recebeu e muito menos querer negar a poesia que veio antes da sua, filia-se a uma tradição de poetas bons, orgulha-se dessa linhagem, sem se tornar refém dela, como se verá no todo do livro e no próprio teor espirituoso dos já referidos versos. Ora, o poema escolhido para abrir seu livro é quase um poema-piada (especialmente se o compararmos aos demais do livro, de altíssimo nível e de um lirismo que toca o absoluto!), mas não tem nada de ingênuo ou casual. Funciona como importante chave de leitura para o mais. Talvez nele o poeta queira dizer que a sua obra tem vínculo real com o tempo presente e com outras vozes da literatura, que sua poesia também aprendeu dos grandes mestres das letras de seu país, e nasce já consciente da difícil tarefa que é dialogar em nível de excelência com os mesmos: “Haverá lugar pra mais / Nesse trem de além de além?”. Trem, aqui, tanto pode ser sinônimo de “coisa”, em relação à fala e aos poetas mineiros, como pode referir-se ao célebre “Poema Sujo” de Ferreira Gullar, poeta citado. O livro possui muitos pontos de verdadeira erudição, sob véus de simplicidade. Em certo sentido é preciso ter relativa cultura (histórica, literária, inclusive bíblica), para entendê-lo bem e fruí-lo. Mas a beleza, esta linguagem universal, é um de seus fortes atributos.
Gullar octogenário, com “cabelos longos” e “fúria aguçada / De jovem, jovem, muito jovem...”, contrasta com a insinuação de calvície (“Eu estou ficando velho / (...) / A testa está se alargando...”) do então jovem poeta, acomia esta que é acima de tudo indício de que ele se demorou no livro, o qual, no entanto, em via de fato, chega antes dos seus quarenta, ainda que inevitavelmente marcado pelo tempo. Talvez daí até se pudesse dizer que o título, “Sazonadas”, tenha querido sugerir uma poesia já amadurecida. Mas isso, ao que perece, está muito longe da pretensão do poeta, ou seja, é uma ideia estranha à intencionalidade do conjunto do livro, ainda que sejam, sim, versos muito bons e maduros. O poeta quis, antes, pelo que se pode inferir, referir-se com “Sazonadas” ao pomar de estrelas, que aparecerá adiante, de onde parece ter extraído o título do livro sem mais. São muitos os poemas líricos, como já se disse, e o livro consegue ser doce (como uma fruta madura), mas sem qualquer afetação. Está aí um livro de delicadeza, como reclamaria outro grande poeta, Affonso Romano de Sant’Anna, este com quem Antonio parece ter frequente relação e de quem recebe, se não na poesia, seguramente na mais ampla esfera intelectual uma notável influência.
Razão e sentimento parecem estar bem integrados no livro. Talvez valesse lembrar que seu autor é um homem da clausura, na vida real (carmelita descalço); por isso, não são estranhas à obra algumas imagens bíblicas e elementos religiosos do seu cotidiano, tanto quanto a contemplação e o silêncio que é fundamental no Carmelo. Será que poderíamos falar de alguma mística nestes poemas, ao menos como herança cultural, já que os carmelitas têm há séculos tradição de místicos?
O tempo não urge para Antonio Fabiano no poema de abertura, para ele o tempo rugi: é um leão feroz. Mas será que o tempo pode tanto assim? Não será ele, de alguma forma, domado pelo poeta? No poema, o autor diz: “O tempo está se acabando!”; isto parece ambíguo, se quisermos entender que o poeta, maliciosamente, insinua aí o fim do tempo (não o fim dele próprio!), proclamando sua vitória sobre o tempo ou seu ingresso na atemporalidade.
À medida que avançam as estrofes, dobra-se e triplica-se o primeiro e simbólico número (“quarenta”... “oitenta”... “cento e vinte anos”...), sinalizando ciclos de alguma coisa, bem como desejo de superação: “Chego aos cento e vinte anos?”. O tempo, aqui prenunciado, marcará o livro em outras partes, com progressiva reflexão existencial, ao lado de elementos como a noite, o vento etc.
O desfecho do poema é realmente surpreendente: em face de um ícone da poesia, que é o grande e jovial Gullar de oitenta anos (representado na superabundância de seus fios de “cabelos longos”), o nosso outro poeta, em sua suposta modéstia e risível presságio de velhice (coisa que na poesia de Antonio Fabiano é sempre positiva, qual marca de ouro do tempo), inesperadamente evoca, de modo analógico, o poeta maior (a exorcizar Gullar?) saindo-se justificado: “Eu estou ficando velho. / Chego aos cento e vinte anos? / A testa está se alargando... / Mas isso pouco interessa! // Fios do Gullar à parte, / O Drummond era careca.”

T. Araújo
Natal - RN

sábado, 14 de abril de 2012

SAZONADAS

Lançou-se pela TABA CULTURAL EDITORA do Rio de Janeiro no início deste ano de 2012:






SAZONADAS - poesia de Antonio Fabiano
Editor: José Maria Rodrigues
Capa: Henrique Monteiro
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