sexta-feira, 1 de maio de 2026

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "GEOGRAFIA DO ABANDONO" DE THEO G. ALVES

 

Divulgação


Dizer qualquer coisa sobre um livro de Theo G. Alves é muito difícil para mim, do mesmo modo que revelar-se-ia inútil para você, leitor!

Difícil para mim porque sou tão próximo de Theo – como amigo e irmão – que não conseguiria expressar algo isento da desmedida estima que nutro por ele e seus escritos, desde os tempos em que éramos jovens acadêmicos nos círculos intelectuais do Rio Grande do Norte dos anos 90. Inútil para você, porque não há coisa mais protelatória que texto de outrem em livro de grande escritor, como é o caso do autor deste Geografia do Abandono.

Assim, gostaria de, em poucas palavras, centrar-me naquela que é a grande figura inspiradora desta obra – não só desta, mas também de momentos sublimes da poesia de Theo – no que é dito por recriações ficcionais e licenças poéticas, em propositais silêncios, lacunas e esquecimentos. Refiro-me à pessoa não só para quem, mas por quem, o livro foi escrito: Guilhermina Alves Costa.

Seu nome deveria ser grafado em letras de ouro, mas, sendo o ouro perecível, faz-se aqui do que não se acaba: puro afeto... amor. A Guilhermina, Geografia do Abandono é muito justo e especialmente dedicado.

Esta grande mulher, quase anônima como tantas almas simples a quem devemos a sustentação do mundo, foi avó do autor e, por feliz ventura, também minha de consideração.

Quando eu fazia a faculdade de Letras, morava em outra cidade e, por isso, nem sempre podia voltar a casa todos os dias – tarefas da grade, atividades do movimento estudantil, reuniões do centro acadêmico, o jornal literário que criamos e uma infinidade de outros eventos culturais, sem contar as diversões boêmias. Nessas ocasiões, muitas vezes eu ficava hospedado na casa de Theo. E desse tempo temos uma história engraçada, quase anedótica.

Em uma das primeiras vezes, vó Guilhermina – fazendo o que era e talvez ainda seja comum no Nordeste do Brasil, puxar a árvore genealógica de alguém até onde seja possível, para saber se este ou aquele é conhecido, se é parente longínquo ou de boa família – perguntou de quem eu era filho. Disse-lhe, mas ela não conhecia meu pai. Então, perguntou de quem eu era neto. “De Antônio Amaro, filho do mestre Amaro”, respondi. Meu avô, já falecido naquela época, tinha sido um homem excêntrico, deveras conhecido, artista em amplo sentido. “Ah”, respondeu com perplexidade e sorrindo muito, “foi meu noivo!”.

Theo e eu nunca soubemos mais detalhes dessa história, pois o pudor e o respeito não nos permitiriam perguntar coisa alguma além do que ela mesma dissera. Mas dali em diante tornei-me querido e seu neto também. A história ficou para sempre em nossa memória e nos recordamos disso com muita graça.   

Eu pensei nessa efeméride, porque é uma memória suave e muito vívida, mesmo após décadas. Diz, ainda, algo da emoção pessoal que experimentei ao ler este romance.    

        Geografia do Abandono é pungente, um livro de delicadezas e socos no estômago. Tão fascinante que dificilmente alguém conseguirá parar de ler depois de, advertida ou inadvertidamente, iniciar sua incursão na obra.

O que mais eu poderia dizer?

 

Antonio Fabiano

Poeta e carmelita descalço

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

DOMINGO EM SÃO PAULO - Adélia Prado


by Pheladii

 

DOMINGO EM SÃO PAULO


Esta cidade me pesa sobre os ombros,

vacilo em caminhar neste domingo

extenuada de fadiga

por tantos e tão altos prédios,

cheios de fios, encanamentos.

Ruas, árvores,

lona, plástico, papelão e zinco,

arremedos de casas

dos que nunca foram ao parque,

pretas de fuligem e poeira,

luxo e lixo.

Tanta massa de gente

desejante e ansiosa.

A qualquer hora chove

e não tem banheiro. Horror!

Tudo é inóspito,

sem espaço para riso e sonho.

A sensação é próxima da palavra desgosto,

que por escrúpulo temo pronunciar.

A cabeça enjoa no antigo pêndulo,

medo e susto,

susto e medo,

sem discernir o que seja

a Santíssima Vontade.

Sei que sois trindade,

não porque me ensinaram,

mas porque um Deus sozinho

gera o inominável terror.

A sagrada face do Filho me protege,

sua coroa de espinhos.

À prova de sequestros,

durmo no vão de suas cinco chagas.

O domingo anoitece.

Melhoro bastante, sinto menos frio.

Não recuso o remédio

que amorosamente alguém me põe sob a língua.

Descubro que sou amada

e não apenas por vós.

Parece rude, Altíssimo,

mas é que não tenho palavras.


Adélia Prado

(O jardim das oliveiras, Rio de Janeiro: Record, 2025.) 


sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVRO CINZA: DO LUTO E DA TERRA


pixabay



À SOMBRA DE UM CAJUEIRO

 

A tarde cai sobre os cajueiros

a tarde pintada de sangue

a tarde de sombra e de lágrimas.

Como um cão de guarda

um da prole vela o corpo no chão

outro toma as providências

outro corre para o nada.

Os três – órfãos pela primeira vez.

Dói tanto em quem não morreu!

No canto da boca um risco de sangue brilha

como nenhuma estrela é capaz de brilhar.

Então é isso?

Termina assim em líquido silêncio a vida?

A mulher – dor desmedida...

– Não quero ser consolada!

Vão chegando de longe os parentes

com vozes sentidas de pêsames e comiseração.

Os velhos amigos

(do tempo em que homem não chorava)

a chorar (como se isso fosse uma licença poética)

vêm se despedir e abraçar a família.

– Tinha sessenta e dois?

– Não. Sessenta e um.

– Parece que está dormindo...

– Como aconteceu?

– Tome um pouco de café!

– Conseguiu?

 

..............................

 

Já se passaram quantos anos?

Vida... como ousou continuar?

 

TELEFONE SEM FIO

 

– Teu pai morreu!

foi o que disse a voz sentindo pena

dele e da miserável orfandade

que o adotaria dali em diante.

– Teu pai morreu!

ouviu e ficou tão pequeno

os pés e as mãos pequenas

olhos e boca de menino

um nada em carne e osso

medo e abandono.

– Agora você tem que ser homem!


FILME MUDO

 

No sonho

a palavra não é dita...

é só silêncio

um silêncio macio

e risquinhos na tela

como naqueles filmes

mudos

de antigamente.

 

Não lembro se tem cor

– acho que é só preto e branco –

a porta se abre

ele entra e

nem sequer lembramos

de nós dois

quem morreu

quem está vivo.


ALFINETE

 

Atravesso a cidade em poucos minutos –

tão pequena que nem com lupa

dá pra ver no mapa...

Mas é maior que um pensamento

e existe grande no passado.

Com passos firmes amo e deixo

nem sequer volto o rosto

(como se ódio fosse o que é amor e medo).

Ficam para trás:

a rua da infância

canteiros de hibiscos

a escola pobre e aflita

um time de futebol

um punhado de amigos

o sítio dos avós

a casa branca escondida

algodoais tão eternos

que viram ainda pequena

a avó da minha avó.

Do alto da serra

antes da última curva e reta

a visão que eu teria

se fosse de olhar para trás.

 

Deponho este canto em seu colo

que por entre névoa se insinua

cabeça de alfinete

o que hoje é perda e ganho

caminho da minha aldeia

rio sem fim... rio grande

flor de fundo de quintal

e – se não perdi as contas –

mil cajueiros de lágrimas.


SALTO

 

A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi

como o céu está sobre a terra

o que quer dizer que eu sou eu

subsiste a ilusão do cosmos

a preceituar o caos

como as coisas de cima estão sobre as de baixo

sem que haja hierarquia nisso.

 

A imagem pétrea

é reminiscência ficcional

desenho fotográfico

matéria prima sólida mineral

esfera que apanhei na via costeira

areia e vento e litoral

um sonho potiguar.

 

A ponte de Igapó projeta

a sombra de sua alma férrea 

no rio do meu amor

onde nadam camarões

e num salto acrobático perfeito

mergulha a minha alma

que não nada.


FOGÃO À LENHA

 

De repente chispa a luz

como quando Deus disse “faça-se”.

O crepitar

do fogão da minha avó

acorda o mundo.

Há alegria silenciosa em cada gesto

no cumprimento do caminho.

O abano

(este de palha que serve

para espanar brasas e apaziguar calores)

doma o fogo.

As tias velhas se juntam para opinar

falam em língua antiga

todas ao mesmo tempo e

espantosamente se entendem.

Eu sou criança nesta memória.

Nunca ninguém morreu.

Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:

mãos sujas de tisna... cheias de cinza.

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

COISAS DE POETA


pixabay


CERTAS DELICADEZAS

 

Um homem delicado

deve ser qualquer coisa

entre pingo de orvalho

e gota de suor.

Algo se faça nele

entre a rotação da terra

e um abalo sísmico.

Um homem delicado

talvez faça poemas

e – quando não – os leia

ou mande flores.

Talvez não haja homens delicados

e tudo seja uma questão de cena.

 

JUÍZO FINAL

 

O juízo virá

a esperança golpeada

se levantará

vai arribar a saia

rodar

e por último rir.

 

Com sangue nos olhos

em marcha

tomaremos a praça

e para cada segundo

roubado de nossas vidas

pediremos conta.

 

ÔNIBUS

 

Avança o ônibus

como uma lança

no coração de Jesus.

Penetra o mistério

de uma estrada sem fim –

– ainda que todas as coisas tenham fim

eu saiba disso e saiba

onde quero chegar.

As janelas são de vidro

como era de vidro o anel que

se quebrou.

Escura a via

boca de um lobo

ventre de baleia

arpoador.

A luz que me ilumina

nesta escura floresta de sentidos

é o sem sentido brilho

de uma tela...

Os meus dedos magros

mastigam teclas

pisam mundos

como quem pisasse nos astros distraída

se musa fosse ou Deus.

O que se faz nada mais é que

quebrar com as mãos

espaço e vento

até não haver tempo

de alguma coisa rimar.

Será esquecido o risco

sem deixar cisco

piscadela

farol

som de buzina

motor.

Que tudo se apague como vela!

 

ARCANO

 

De outras entranhas outra vez nasci...

 

Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!

Mas tua boca nunca eu a beijei!...”

A esta estranha dama de El-Rey

Fiz uns poemas tristes como os de Anto.

 

A minha boca cega e o que canto

Perderam-se no tempo de outra lei.

E os seios da mulher que mais amei

Murcharam de espera... luto e pranto!

 

Guarda a dolência dos veludos caros

A nívea seda e os préstimos de Paros!

Guarda bem o cinzel da nossa dor!

 

O verso lindo e raro que fizeste

Aquele mesmo de arcano celeste

Não digas nunca – nem a mim – amor!

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

REPENTINO TEMPORAL


pixabay

 

REPENTINO TEMPORAL

 

Posso escrever um poema hoje à tarde

sob a implosão do poente

– pendente o coração –

quando o sol tingir o céu

dizendo o que não cabe em palavra

ou tela...

(quando a noite adormecida

abrir seus olhos de pitomba).

A bordo o tempo se gasta

sílaba a sílaba...

O verso aporta.

Nenhum medo de morrer.

Nenhum medo de viver.

A lembrança

é uma flor de guarda-chuva

avessado pelo vento

em repentino temporal.

 

ÁS

 

Deito os lábios

sobre a fenda do tempo

que pare a poesia que me pare.

Doce é a seiva do tempo

seu fruto sumo

na língua...

Ah pélvis singularíssima

mãe de todos os superlativos

dança sensual das horas!

Quero a boca no seio

na cava

da palavra que diz a não-palavra

do silêncio

(esse estribilho que toca)

sinos e alambiques de cachaça

carne e gozoso espinho

luz

ressaca de vida.

 

Abri a carta...

A letra atávica

descosturou meus olhos.

Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada

um grão que seja de poeira

da tarde que eu quisera não findasse –

clave que me leia e não me explique

dor que não me mate e pacifique

este ás que dia e noite grita em mim!


RALO

 

A lembrança escoa e desce

como água e sabão

para o fundo do ralo

secreto – abissal.

Tão fácil ruir

em poucas palavras!

Indecifrável é

a água minguada

marulhar de espumas

pipocar de estrelas

cristais de luz e pele

medo de se afogar.

A vida rui

esvai-se e vai

desce em trago e gole

cálice e colo.

Mãos que se lavam

uma a outra.


GRAMÍNEAS

 

As ervas crescem no jardim e sobre os prados

por mais que as arranquem.

Crescem sobre o campo santo

como se tudo existisse

para findar em vida

ainda que vida não seja começo

nem fim das coisas.

Crescem como remorso

peso de consciência e culpa

com fúria e malquerença

por mais que as arranquem.

Quem disse que daninhas

não têm lugar em jardins e prados?

A morte

esta outra cínica como sua irmã

nega-se a si mesma em cada ato.

Há flores sobre a rocha

cena dura e carinhosa de se ver

uma vingança doce.

 

Este cheiro vem dos ciprestes?

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)