Antonio Fabiano
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
LIVRO CINZA: DO LUTO E DA TERRA
A tarde cai sobre os cajueiros
a tarde pintada de sangue
a tarde de sombra e de lágrimas.
Como um cão de guarda
um da prole vela o corpo no chão
outro toma as providências
outro corre para o nada.
Os três – órfãos pela primeira vez.
Dói tanto em quem não morreu!
No canto da boca um risco de sangue brilha
como nenhuma estrela é capaz de brilhar.
Então é isso?
Termina assim em líquido silêncio a vida?
A mulher – dor desmedida...
– Não quero ser consolada!
Vão chegando de longe os parentes
com vozes sentidas de pêsames e comiseração.
Os velhos amigos
(do tempo em que homem não chorava)
a chorar (como se isso fosse uma licença poética)
vêm se despedir e abraçar a família.
– Tinha sessenta e dois?
– Não. Sessenta e um.
– Parece que está dormindo...
– Como aconteceu?
– Tome um pouco de café!
– Conseguiu?
..............................
Já se passaram quantos anos?
Vida... como ousou continuar?
TELEFONE SEM FIO
– Teu pai morreu!
foi o que disse a voz sentindo pena
dele e da miserável orfandade
que o adotaria dali em diante.
– Teu pai morreu!
ouviu e ficou tão pequeno
os pés e as mãos pequenas
olhos e boca de menino
um nada em carne e osso
medo e abandono.
– Agora você tem que ser homem!
FILME MUDO
No sonho
a palavra não é dita...
é só silêncio
um silêncio macio
e risquinhos na tela
como naqueles filmes
mudos
de antigamente.
Não lembro se tem cor
– acho que é só preto e branco –
a porta se abre
ele entra e
nem sequer lembramos
de nós dois
quem morreu
quem está vivo.
ALFINETE
Atravesso a cidade em poucos minutos –
tão pequena que nem com lupa
dá pra ver no mapa...
Mas é maior que um pensamento
e existe grande no passado.
Com passos firmes amo e deixo
nem sequer volto o rosto
(como se ódio fosse o que é amor e medo).
Ficam para trás:
a rua da infância
canteiros de hibiscos
a escola pobre e aflita
um time de futebol
um punhado de amigos
o sítio dos avós
a casa branca escondida
algodoais tão eternos
que viram ainda pequena
a avó da minha avó.
Do alto da serra
antes da última curva e reta
a visão que eu teria
se fosse de olhar para trás.
Deponho este canto em seu colo
que por entre névoa se insinua
cabeça de alfinete
o que hoje é perda e ganho
caminho da minha aldeia
rio sem fim... rio grande
flor de fundo de quintal
e – se não perdi as contas –
mil cajueiros de lágrimas.
SALTO
A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi
como o céu está sobre a terra
o que quer dizer que eu sou eu
subsiste a ilusão do cosmos
a preceituar o caos
como as coisas de cima estão sobre as de baixo
sem que haja hierarquia nisso.
A imagem pétrea
é reminiscência ficcional
desenho fotográfico
matéria prima sólida mineral
esfera que apanhei na via costeira
areia e vento e litoral
um sonho potiguar.
A ponte de Igapó projeta
a sombra de sua alma férrea
no rio do meu amor
onde nadam camarões
e num salto acrobático perfeito
mergulha a minha alma
que não nada.
FOGÃO À LENHA
De repente chispa a luz
como quando Deus disse “faça-se”.
O crepitar
do fogão da minha avó
acorda o mundo.
Há alegria silenciosa em cada gesto
no cumprimento do caminho.
O abano
(este de palha que serve
para espanar brasas e apaziguar calores)
doma o fogo.
As tias velhas se juntam para opinar
falam em língua antiga
todas ao mesmo tempo e
espantosamente se entendem.
Eu sou criança nesta memória.
Nunca ninguém morreu.
Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:
mãos sujas de tisna... cheias de cinza.
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
COISAS DE POETA
CERTAS
DELICADEZAS
Um homem delicado
deve ser qualquer coisa
entre pingo de orvalho
e gota de suor.
Algo se faça nele
entre a rotação da terra
e um abalo sísmico.
Um homem delicado
talvez faça poemas
e – quando não – os leia
ou mande flores.
Talvez não haja homens delicados
e tudo seja uma questão de cena.
JUÍZO
FINAL
O juízo virá
a esperança golpeada
se levantará
vai arribar a saia
rodar
e por último rir.
Com sangue nos olhos
em marcha
tomaremos a praça
e para cada segundo
roubado de nossas vidas
pediremos conta.
ÔNIBUS
Avança o ônibus
como uma lança
no coração de Jesus.
Penetra o mistério
de uma estrada sem fim –
– ainda que todas as coisas tenham fim
eu saiba disso e saiba
onde quero chegar.
As janelas são de vidro
como era de vidro o anel que
se quebrou.
Escura a via
boca de um lobo
ventre de baleia
arpoador.
A luz que me ilumina
nesta escura floresta de sentidos
é o sem sentido brilho
de uma tela...
Os meus dedos magros
mastigam teclas
pisam mundos
como quem pisasse nos astros distraída
se musa fosse ou Deus.
O que se faz nada mais é que
quebrar com as mãos
espaço e vento
até não haver tempo
de alguma coisa rimar.
Será esquecido o risco
sem deixar cisco
piscadela
farol
som de buzina
motor.
Que tudo se apague como vela!
ARCANO
De
outras entranhas outra vez nasci...
Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!
Mas tua boca nunca eu a beijei!...”
A esta estranha dama de El-Rey
Fiz uns poemas tristes como os de Anto.
A minha boca cega e o que canto
Perderam-se no tempo de outra lei.
E os seios da mulher que mais amei
Murcharam de espera... luto e pranto!
Guarda a dolência dos veludos caros
A nívea seda e os préstimos de Paros!
Guarda bem o cinzel da nossa dor!
O verso lindo e raro que fizeste
Aquele mesmo de arcano celeste
Não digas nunca – nem a mim – amor!
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
REPENTINO TEMPORAL
REPENTINO
TEMPORAL
Posso escrever um poema hoje à tarde
sob a implosão do poente
– pendente o coração –
quando o sol tingir o céu
dizendo o que não cabe em palavra
ou tela...
(quando a noite adormecida
abrir seus olhos de pitomba).
A bordo o tempo se gasta
sílaba a sílaba...
O verso aporta.
Nenhum medo de morrer.
Nenhum medo de viver.
A lembrança
é uma flor de guarda-chuva
avessado pelo vento
em repentino temporal.
ÁS
Deito os lábios
sobre a fenda do tempo
que pare a poesia que me pare.
Doce é a seiva do tempo
seu fruto sumo
na língua...
Ah pélvis singularíssima
mãe de todos os superlativos
dança sensual das horas!
Quero a boca no seio
na cava
da palavra que diz a não-palavra
do silêncio
(esse estribilho que toca)
sinos e alambiques de cachaça
carne e gozoso espinho
luz
ressaca de vida.
Abri a carta...
A letra atávica
descosturou meus olhos.
Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada
um grão que seja de poeira
da tarde que eu quisera não findasse –
clave que me leia e não me explique
dor que não me mate e pacifique
este ás que dia e noite grita em mim!
RALO
A lembrança escoa e desce
como água e sabão
para o fundo do ralo
secreto – abissal.
Tão fácil ruir
em poucas palavras!
Indecifrável é
a água minguada
marulhar de espumas
pipocar de estrelas
cristais de luz e pele
medo de se afogar.
A vida rui
esvai-se e vai
desce em trago e gole
cálice e colo.
Mãos que se lavam
uma a outra.
GRAMÍNEAS
As ervas crescem no jardim e sobre os prados
por mais que as arranquem.
Crescem sobre o campo santo
como se tudo existisse
para findar em vida
ainda que vida não seja começo
nem fim das coisas.
Crescem como remorso
peso de consciência e culpa
com fúria e malquerença
por mais que as arranquem.
Quem disse que daninhas
não têm lugar em jardins e prados?
A morte
esta outra cínica como sua irmã
nega-se a si mesma em cada ato.
Há flores sobre a rocha
cena dura e carinhosa de se ver
uma vingança doce.
Este cheiro vem dos ciprestes?
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
TREMOR DE MÃOS - por Maria Lúcia Dal Farra
Este
é um livro de interiores. De alguém que, por dentro de seus versos, não se
identifica – diferentemente de como procedemos todos nós e com a maior
desenvoltura. Não, suas digitais estão em outra parte, quem sabe se mercê da
sua formação religiosa e haicaísta, em que a cultura do ego não tem presença.
No entanto, sua
emissão isenta não é em exato a executada mercê dessas duas místicas neste
Poeta harmonizadas, pois que sua voz filtra, com delicadeza, respeito e pudor
(faculdades desaparecidas do nosso tempo) tudo o que contempla, depositando
indelével, mas com a maior discrição, a sua presença volátil no mundo. E esse
sinal comedido é o da muita simplicidade, porque temos aqui um Poeta descalço:
ele permanece para sempre despojado e humilde diante da magnitude da vida, da
natureza, da presença divina esparramada pelo universo, diante de si próprio e
dos outros. Creio saber explicar por quê.
Dissolvendo
a sua energia na palavra, ela o interioriza a ponto de transubstanciá-lo
naquilo que ele escreve, sem denunciá-lo, entretanto, como persona, tornando-o
quase etéreo: é quando o foco de atenção se desloca para aquilo que as palavras
erguem e não para o seu emissor. Porque, quanto mais não seja, se, de fato,
alguma coisa ele realmente “quer” é apenas uma “clave que me leia e não me
explique” – essa a sua divisa, o seu brasão.
Alguém me dirá,
certeiro, que esse processo de metamorfose da palavra é componente intrínseco a
todo ato de escrita poética, ou melhor, que é mesmo o seu ponto de partida. No
entanto, no caso de Fabiano, quero destacar que esse é o seu ponto de chegada,
depuração obtida com árdua dedicação e imenso amor. Que, nele, esse estágio é a
própria virtualidade do ato, no sentido de que o nosso Poeta produz um recatado
enxugamento de pessoa ou de quaisquer outros atributos que possam comportar
normalmente esse proceder. E, embora possa proferir “eu”, ele só sabe
volatilizar-se e reunir-se ao Um.
Fabiano trabalha o
núcleo mesmo do que se considera um poema, o nervo das palavras e das coisas,
num impressionante despojamento (carmelita?) que descerra um mundo ainda virgem
de significados, que comove qualquer leitor e provoca em nós esse “tremor de
mãos” e lágrimas nos olhos.
Daí que eu
considere, de novo, que é feito de interiores este livro. Neste caso, porque se
trata do cerne mesmo do conceito de poesia. Depois, porque os interiores
potiguares e os mineiros, suas duas expressivas vivências, se deixam vislumbrar
aqui, compondo uma imagem de frescura de paisagens, de ambientes caseiros, de hábitos
interioranos esquecidos, de natureza solta.
Lugares que
comportam, por exemplo, um sol que, acobertado pela penumbra do crepúsculo,
torna-se o “olho de pitomba” da noite. Camaradagem rústica que acolhe o
bamboleio de um homem, cuja comicidade transforma seu corpo em “um carro bípede
/ desgovernado”, tal qual nos gracejos de Chaplin. O ar parado dos sítios, tão
repletos de gramíneas, exprime a sensação de que é “como se tudo existisse /
para findar em vida / ainda que vida não seja começo / nem fim das coisas”.
Há, em Fabiano,
povoados em que o “trem / rasga o rascunho do poema”; campos onde “um enxame de
abelhas corta / meu pensamento”; pomar onde se pode ouvir e usufruir de como
“canta a flor avoante”, a “florzinha alada” que é o “sabiá”.
Tudo isso, porque
é com “p” de “pedra” que se faz o “poeta” – o enfrentamento da rudeza do
Indecifrável – e é só por isso que “os peixes” podem saltar “contra a corrente”
numa “piracema dos sentidos”.
Cavando essa rocha
empedernida, já caberá ao Poeta perguntar, por exemplo, “quantos tons tem / a
cor do luto”. Ou, já então, “à sombra de um cajueiro”, permitir-se considerar
pacificamente se “termina assim em líquido silêncio a vida”.
Pode-se ouvir, em
seus poemas, o crepitar do fogão de lenha da avó, que “acorda o mundo”,
enquanto abarrota “de eternidade o vazio da cozinha”, sobretudo depois que se
partiu a velha “cristaleira”, que, malgrado tudo, não pôde suportar “o peso de
tanta vida”.
Para além disso, a
“ponte de Igapó (...) / num salto acrobático perfeito / mergulha a minha alma /
que não nada”, de maneira que a terra de origem acaba por ficar tão distante
até “tão mais que nem mãos nem sonho alcançam...” De modo que há “uma solidão
tão sozinha que nem se sabe dizer em divã”.
No entanto, a
“lembrança / é uma flor de guarda-chuva / avessado pelo vento / em repentino
temporal”, e quando o pica-pau “rompe o silêncio de anos / na árvore antiga”, o
“mundo estala no jardim de casa. / É a natureza e sou eu / no coração desta
árvore a bater / – toc... toc... toc... / Ó flama viva! / A noite cai pequena /
sobre os meus bonsais.”
Portanto, o Poeta
se torna capacitado para ler e conhecer os “semitons” que tecem a vida. E livre
para constatar que é impossível “dizer em palavras / o ranger dos bambus”, a
“beleza” que dança “sobre as mãos erguidas / do bambuzal”; o “verde” que é o
“aplauso das palmeiras”; o “arvoredo” que “estremece e requebra-se / debaixo
dos pés de Deus”; as “carpas” que se misturam “às folhas que caem” sobre o
lago.
Então – e esta é a grande questão metafísica que esse “tremor” nos depõe: – como “dizer em palavras” e “sem macular a Presença” todos estes poemas, sobretudo quando a natureza inteira, “de um canto do orbe a outro / em sustenidos e bemóis / faz-se tapete e escolta / para Ele passar”?!
Maria Lúcia Dal Farra
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
"TREMOR DE MÃOS": TEMPO E CONTEMPLAÇÃO
theo g. alves
"Tremor
de Mãos": tempo e contemplação
– por Theo G. Alves
Convenhamos, caro leitor
ou leitora, todo posfácio é uma injustiça com quem o escreve. Explico: tu, que
acabaste de ler este livro, saberá de parte importante do que me passou ao
lê-lo; eu, injustamente, não saberei o que passou a ti. À parte esta injustiça,
sigamos em nossos caminhos já esclarecidos e sob o tácito acordo de que
escreverei sobre o que já sabes, por isso mereço o perdão por ser redundante.
Começo, então, com uma
pergunta: de quem são as mãos que tremem neste livro e por que tremem? Minha
primeira pergunta são duas, aliás. Cinismo.
Tremem as mãos do poeta,
tremem as mãos do leitor: porque o tempo singra pelos corpos de ambos, sem
piedade alguma, e ao tempo não cabe ter piedade ou misericórdia de ninguém.
Urge ao tempo passar, o que ele faz inexoravelmente. E este livro que acabamos de
ler é, sobretudo, acerca do tempo.
E o tempo é também uma
medida de vida e de morte. É a mensuração do cansaço e da memória diante da
vida.
O poeta Antonio Fabiano
parece ter compreendido esse tempo em largura e profundidade ao escrever os
poemas deste “Tremor de Mãos”. Talvez não saibas, leitor ou leitora, mas vão
aqui cerca de dez anos do primeiro ao último poema deste livro, que passeia
pela quase comicidade de sua segunda parte e pisa com pés muito pesados na tensão
da primeira e da última. E, convém dizer, que os dez anos usados para compor
“Tremor de Mãos” foram muito bem utilizados, encontrando o poeta o corte
milimétrico e necessário para um bom livro de poesia. Os poemas estão
maturados, a voz afinada em tom preciso, a unidade encontrada: tudo o que exige
um livro bem escrito.
Entretanto deves ter
percebido que a observação do mundo, a contemplação das coisas, das pessoas e
das sensações são o alimento fundamental desses versos. O poeta olha para o
mundo como um “monge calmo a Cristo”, verso que roubo de Fernando Pessoa, por
óbvio.
A contemplação – e tudo o
que brota dela – compõe a argamassa que sustenta os poemas de “Tremor de Mãos”.
Não é demais lembrar que contemplar é também uma maneira de dizer sobre o
tempo.
É bonito para quem lê
este livro surpreender o olhar contemplativo do poeta a ver um “repentino
temporal” misturar-se com a magia dos velhos guarda-chuvas onde a poesia se
esconde. Assim como é comovente vê-lo abrir, meditativo, o livro de um escritor
que não está mais entre nós, senão por seu autógrafo e por suas ideias, o que –
Fabiano sabe – é tudo o que precisava ser deixado.
O poeta, sei que
percebeste, ousa mover-se de seu estado contemplativo para agir sobre a poesia,
sobre a magia imagética e sonora de escrever poesia, invadida por pica-paus,
bonsais e notícias de jornal. Tu deves ter visto como se move o olhar do poeta
entre o passado e o presente diante do fingimento quanto ao álbum de retratos,
que desnuda as famílias de uma maneira debochada, cômica e precisa:
“Aquela do canto
tentou suicídio uma ou
duas vezes.
Este do meio trai a
mulher
com quem está abraçado
como se fossem felizes
para sempre...
(...)
Esta aqui é a mais
infeliz de todas
embora não pareça!
É irmã daquela...
A outra se deu bem na
vida...
Esta também... Já é avó!
Este ficou rico e mora
fora.
Está no segundo
casamento.
E aí está o poeta!”
Como já leste o livro,
não vou me pôr a copiar muitos mais versos aqui. Quero antes cochichar
impressões, leitor e leitora.
Que livro de poesias estaria
completo sem um momento reservado para a perda, para o luto, estes dois animais
apascentados pelo tempo? Afinal, desde que nascemos, é a partir da perda que
nos construímos, seja a perda do seio materno, seja a perda da avó e do pai
mortos, como enseja a natureza dos ritos: seguir-se uma geleira depois de um
pôr-do-sol, uma geleira que é penhasco, é o caminho que o poeta escolhe e nos
leva com ele até indagar: “– A esperança não se afogou?”
O ardiloso poeta tira seu
leitor para brincar, para dançar: ri, rodopia, move-se rapidamente entre a
graça e a dor. Ri de seu próprio sofrimento e nos convida a rir também, a olhar
para o mundo, a contemplar as coisas miúdas e rir.
É assim que ele nos
entrega o caminho para suas coisas de poeta.
Entre essas coisas,
sobretudo o amor, cuja letra é aparentemente simples, quase cômica, capaz de
ser leve ainda que profunda, como acontece aos que amam um poeta na extensão de
seus versos. Está lá:
“vai me ler outras vezes
– todo –
tantas que se o amor
durar
vai me amar de verdade
...para
sempre.”
O amor prometido,
cúmplice, partilhado quase em segredo, como deve ser.
Os poemas da segunda sessão
do livro, diga-se, reafirmam que este é um livro de olhares, de contemplação.
Assim como deita olhos ao amor entre o leitor e seu poeta (ou seria entre o
poeta e seu leitor), Fabiano compõe cenas curiosas, bonitas e bem-humoradas,
seja através de um beijo roubado na chuva ou da gravidez acidental que faz
parir um bebê não planejado. As brincadeiras também contemplam a letra P de Pedro
e Paulo, além de “pedra” que se escreve como “poeta”, cujos maquinários
constroem um alerta que nós, leitores, não podemos ignorar:
“Não confie muito em
coisas de poeta.”
Sobre a terceira e última
parte do livro, confesso, é a que melhor me toma de assalto e, por isso, da que
menos falarei. A melancolia delicada dos poemas desta sessão eleva o
poeta/livro a outros e mais altos patamares. É o sofrimento do poeta que melhor
o enriquece: seu olhar marejado para si mesmo, para o mundo, para o tempo e para
a própria poesia.
Por isso me parece que
este “Tremor de Mãos” não poderia terminar de maneira mais afiada, o que também
demonstra claramente a expertise de Fabiano enquanto escritor, que se põe a
compor um livro que é também trilha, conduzindo seu leitor e leitora para uma
experiência a ser vivida lentamente, a fazer voltar ao livro tantas vezes, como
se fosse a escrita de seu livro uma espécie de feitiço do tempo.
Por isso, ao fim,
retornemos à lição maior do poeta, que repete singularíssimo, a lição que
permeia todo o livro, toda a contemplação e todo o tempo:
“amo
amo”
E que assim seja.



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