quinta-feira, 15 de outubro de 2015
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Olívia e o Oceano | Wescley J Gama | Campos Grandes Reunidos
Clipe feito com trecho do filme "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos. Composição: Wescley J. Gama e Iara Maria Carvalho. Músicos: Alan Kleiber (bateria); Tiago Felipe (guitarra solo); Wescley (violão de aço e voz); Márcio Pinheiro (baixo); Saulo (teclados, guitarra Lap Steel). Disco "Campos Grandes Reunidos" (2016).
Olívia e o
oceano
ao seu sono
fluvial retorna
uma sereia
desativada
para peixes e
homens
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
SARAIVADA: poesia de Iara Maria Carvalho
Capa: João Antônio de Medeiros Neto
Quem resistirá à sedução, ao
canto e encanto desta poesia de Iara Maria Carvalho? A mão que a escreve é
resoluta. Ou, talvez, devamos dizer: a voz que aí canta sabe o que canta e como
cantar. Iara, esta pessoa linda, encanta pela afinação de sua lírica; seduz,
porque toda poesia verdadeira traz em seu bojo uma irresistível sedução. Que
voem os mundos, a beleza triunfa nesta obra, ainda quando o poema é dor e dói até
transfigurar! Eis uma mulher desfeita em versos, a brindar-nos com seu timbre
afiado, a fazer vibrar as cordas de seu poderoso instrumento com o que há de
melhor. Afinadíssima está Iara. Erótica, selvática, santa... Não é apenas a “ursa
bipolar” que aí urra, é uma mulher infinita, ou todas as mulheres que cabem
dentro de uma só e revela-se mistério, para nosso enlevo e perplexidade. É a
graça de Maria, a cultuada milenar teimosia do carvalho, o que espoca nestes
versos. Ninguém mais que Iara merece o nome que tem, do começo ao fim. Parece-me
ser este o seu mais belo livro, de todas as coisas inéditas e publicadas que dela
eu li, em quase duas décadas de amizade e interlocução literária.
Antonio Fabiano
[texto publicado no livro]
URSA BIPOLAR
já fui mais intensa
mais humana
nem saudade tenho de ser aquela outra
que pulula nas lembranças.
– hiberno porque ouso –
nem todos entendem a beleza de ocultar-se
e saber-se desaparecida
entre os moídos do dia
e as coisas miúdas das gentes.
um dia,
tive um sonho de escrever,
mas os oceanos me roubaram o ócio e o desejo
e, mesmo que meus ainda fossem,
eu só estaria viva pra contar
que está vazia metade do meu coração
e, a metade cheia que dizem me caber,
desconheço:
embora, mesmo sem querer,
procure.
Iara Maria Carvalho
Saraivada, Sarau das Letras, 2015.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
MONTE FUJI 富士山
MONTE FUJI 富士山
Vou a
Fuji-san
Mas então detenho
o passo.
Fuji-san vem
ao meu encontro
Por sobre as
águas do lago Kawaguchi.
Eu não me
movo
Nem ele se
move.
Estamos
sentados
Sentados
como flor de lótus
A olhar um
para o outro.
Fuji-san
branco e azul
Em seu
quimono de festa
Me conta um
segredo antigo.
Flutuamos no
silêncio.
Quantas
flores de cerejeira
Eu levaria a
Fuji-san!
Antonio Fabiano
アントニオ・ファビアーノ
BIBLIOGRAFIA: Revista Brasil Nikkei Bungaku, nº 50. Edição bilíngue: português/japonês. São Paulo: Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil, 2015, p. 06.
NOTAS (não presentes à edição):
Fuji-san é como em japonês podemos nos referir ao Monte Fuji.
Kawaguchi é um dos Cinco Lagos de Fuji, ao redor da vertente norte
do monte.
Flor de lótus no oriente significa pureza espiritual; sentar-se na
posição que recebe este nome indica meditação. Não se pode ignorar, todavia,
que um dos nomes em desuso e de origem poética, utilizado para referir-se ao
Fuji, é Pico de lótus.
As cores branca e azul que no poema vestem Fuji-san são a neve e o
céu que o adornam. A ideia de transitoriedade e estabilidade, esta paradoxal
oscilação, perpassa todo o poema. É transitório ou possui caráter de movimento:
vou, vem, olhar, branco (neve), festa, contar, flutuar etc. Sugere estabilização:
detenho o passo, não me movo, não se move, sentados, azul (límpido céu),
segredo antigo, silêncio etc. As cores citadas têm forte conotação na cultura
tradicional japonesa. A cor branca possui desde a antiguidade uma natureza
sagrada e auspiciosa, dentre outras coisas é vista como abençoada, símbolo de
pureza. O azul, além de pureza e limpidez, traduz estabilidade e calma, lembra
não apenas o céu, como no poema, mas, consequentemente, o Mar do Japão, que
quase não tem ondas, e o Oceano Pacífico.
A flor de cerejeira simboliza, dentre outras coisas: amor,
felicidade, renovação, esperança. É a flor nacional do Japão. A floração das
cerejeiras caracteriza o fim do inverno e o começo da primavera. Há festas no
Japão para a contemplação deste espetáculo da natureza: hanami. A flor de cerejeira foi também apreciada pelos samurais e
associada ao seu código, o bushido; ligava-se
a sua existência efêmera à fugacidade da vida e ao lema dos antigos guerreiros
japoneses, de viver o presente, de modo intenso e com absoluta coragem.
Eu levaria... Ao término do poema, o poeta decide
não escalar o Monte Fuji. Isto se deduz pelo tempo verbal do último verso.
Fuji-san, em seu encanto supremo, foi considerado belo e sagrado demais para que
ele o pisasse.

Capa Divulgação
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
CONVIVÊNCIA CRÍTICA - Hildeberto Barbosa Filho
Hildeberto Barbosa
Filho [*]
De olho na estante (7)
Segundo Ferreira Gullar, “Nas pontas
dos pés” (Mossoró: Sarau das Letras, 2015), de Antonio Fabiano, possui
“linguagem fluente, sem ênfase”, alçando-se, portanto, “acima da banalidade da
vida”. Antonio Carlos Secchin, por sua vez, em breve texto de apresentação,
releva o tom recatado e delicado de sua dicção lírica, “despojada de toda
pompa, e, por isso mesmo, cúmplice das pequenas maravilhas de que se tece o
cotidiano”.
Temos, assim, ressaltados pelos
poetas/críticos elementos de forma e fundo peculiares à poética desse paraibano
de Patos, que cresceu e viveu em Cerro Corá (RN) até 2004, ano em que ingressou
na Ordem do Carmelo Descalço.
À sutileza e à limpidez da linguagem
corresponde uma temática voltada para as experiências do dia a dia, aquilo que
poderíamos denominar de o complexo da “vida simples”, para lembrar uma
expressão de Jurandy Moura, transfigurado, no entanto, pelo poder das palavras,
em suas possibilidades imagéticas, rítmicas e ideativas.
Frei Antonio Fabiano não teme o apelo
silencioso, mas urgente, das coisas comuns e das circunstâncias banais que o
circundam no plano existencial, para, com os utensílios idiomáticos, utilizados
com parcimônia e sabedoria poéticas, transcender o imediatismo pragmático das
vivências que a realidade nos impõe, desvelando seus aspectos essenciais e
imperceptíveis.
Em “O bailarino”, diz que “voava / Por
sobre a copa das árvores / Enchia de nada a noite”; em “A luz bruxuleante”,
acerca-se de sua “nudez / Tangida pelo dedo de um demônio”, assegurando, mais à
frente do poema, que “Por entre bicicletas / Moinhos e tímidos
sorrisos / Existimos”; em “Grão milagre”, descobre que “não se pode
interromper / Com as mãos a dança de um rio... / A gente é e para isso nasce. / O
pulso às vezes dói mas é sublime e / – mesmo que eu não quisesse – / Morava e
ainda mora e há de morar / Nas veias como em ostra o grão milagre!...”.
Motivos como a casa, o pai, a
infância, o corpo, a poesia, o palhaço, a velhice, entre tantos outros, são
contemplados pelo olhar lírico desse poeta que, como poucos, sabe unir a
dimensão lúdica do texto (ver, sobretudo, “Poema nuvem”, à página 31) a seu
viés reflexivo, onde, em particular, impõe-se a força do pensamento poético. Um
poema como “Estridência” ilustra bem o que quero dizer. Vejamos: “Há dias de
sagrado ócio / Em que a vontade é de / Não fazer mais nada // Só beber a estridência
de estar aqui / Como quem bebe o canto / De cigarras e grilos // Brindar sua
canção / Às vezes tão incômoda / Como a vida // Esta vidinha / Que não trocamos por
nenhuma / Das eternidades”.
O mesmo se pode afirmar de “Isto não
é um haicai”, em seu recorte autoirônico: “Um dia não haverá / Lembrança disto
que fomos / (Por mais belos que sejamos)”.
Além dessa coletânea, o autor
publicou, em 2012, “Sazonadas” e “Girassóis noturnos”, e, em 2014,”Cancioneiro
da terra”. Sua poesia tem sido reconhecida, em seu valor intrínseco, por
professores e poetas, como Maria Lúcia Dal Farra e Paulo de Tarso Correia de
Melo.
***
[*] – Hildeberto Barbosa Filho é professor universitário, escritor, crítico literário, poeta e jornalista. Ocupa a Cadeira nº 06 da ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS.
Bibliografia atualizada deste artigo: Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Nº 45. Natal, outubro-dezembro de 2015 (páginas 14-15).
terça-feira, 21 de julho de 2015
NOS BICOS DOS PÉS por António Salvado
NOS BICOS
DOS PÉS [*] se viabiliza um título de livro,
substancia, por outro lado, toda uma ‘arte poética’ materializada, nos seus
enunciados, ao longo dos textos que o formam. Mas mais ainda: a... ‘posição
corporal’, sugerida pela expressão, acentua propósito, intenção, que o poeta estratifica
nos seus versos – visionar o mais além, atmosferas longínquas ou próximas,
horizontes nítidos e palpáveis ou desvanecidos: ao alcance da ‘vista interior’.
Aliás, nesse propósito se inscreve também a consciência do ‘ilimitado’ que é
tecer um poema. E que poema? “Um poema que tivesse toda a poesia do mundo”,
mesmo que esse poema fosse afinal sinal de aniquilamento: “o poema me consome.
Mija no poeta”.
“Vestido de
lua e vento”, e eis o poeta-criador a aclarar, pela palavra, o seu itinerário
de vivências e de experiências, guiado por uma “luz (embora) bruxuleante” mas
que poderá iluminar a sua solidão: “um ser estranho a mim / é o que sou”.
Curiosa duplicidade: porque se “escrever doi”, a firmeza de uma vontade perante
o acto de escrever (de comunicar) articula-se amplamente como força de
determinado (e pessoal) destino – esse de ser poeta.
E daí, então
que os próprios sonhos familiares (“papai queria que eu fosse Doutor / me fiz
poeta”; que as ‘realezas’ em vivências da infância; que o “ser-se palhaço” no
percurso do quotidiano; que a atenção a pertinentes situações sociais (“o meu
Brasil é lindo”, mas é lugar de corrupção; que este plurívoco registo de afloramentos
se direccione, enfim, para uma certeza redentora: “É santa toda obra de amor”.
E o “galo canta na noite”, como no admirável hino de Prudência.
António
Salvado
Castelo
Branco
Portugal
Julho de
2015
[*] Tradução em Portugal de NAS PONTAS DOS PÉS
O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (2001) regista em duas formas: «em/nos bicos dos pés» (assim como o Dicionário Estrutural Estilístico e Sintáctico da Língua Portuguesa, Porto, Lello & Irmão, de Énio Ramalho) e «em bicos de pés», significando «sem assentar os calcanhares no chão, apoiando-se nos dedos, na ponta do pé», «sem ruído, sem que se ouçam os passos».
ANTÓNIO SALVADO – poeta e escritor português
Natural de Castelo Branco, nasceu em 20 de fevereiro de 1936. Licenciou-se em Filologia Românica na Universidade de Lisboa. Em Coimbra e em Paris frequentou outros cursos superiores. Além de museólogo e de poeta, tem-se dedicado a outras tarefas, tais como tradução, ensaio, ensino e direção de publicações. Está traduzido para o francês, inglês, italiano e castelhano. Foi premiado várias vezes em seu país e no exterior. Em 1980 ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia de Personalidade Cultural, da União Brasileira de Escritores. Em 1986 foi galardoado com a Medalha de Mérito da Universidade Pontifícia de Salamanca. Em 06 de Fevereiro de 2010 foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada. Autor de uma extensa e respeitada obra literária, sobretudo poética, seu nome figura no panteão das grandes letras ibéricas e é um dos poetas mais originais da contemporaneidade.
* * *
Afirma AUGUSTO PAIVA, artista brasileiro responsável pelo projeto gráfico e capa do livro:
“(...) estive observando a parte tipográfica da capa.
Numa observação semiótica, fiz duas associações interpretativas.
1 - NA DOS (NADAR, VIAJAR COM A FORÇA DOS BRAÇOS) por conta da uniformidade da cor rósea;
2 - PONTAS PÉS ([PONTAPÉS], RISPIDEZ, RUDEZA OU UM DESPERTAR) do padrão preto [das letras sobrepostas].
Eu pretendi [na capa] expor razoalidade interativa entre esses dois vértices.”
sábado, 4 de julho de 2015
SAKURA MATSURI de 2015
Fotografias de Antonio Fabiano
19º Sakura Matsuri - Festival das Cerejeiras Bunkyos 2015
São Roque / SP
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