Mostrando postagens com marcador Antonio Fabiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antonio Fabiano. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO - Clauder Arcanjo

 

Pílulas para o Silêncio

(Parte CCCLXXXIII)

 

Clauder Arcanjo

Editor, escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

clauderarcanjo@gmail.com 



Cristo na Tempestade no Mar da Galileia, de Rembrandt.


O sal da fé

 

Deito os lábios

sobre a fenda do tempo

que pare a poesia que me pare.

(Poema “Ás”, de Antonio Fabiano.)

 

A fé não tem raiz, tem asas, pluma no vento mais brando.

A fé não se submete ao tempo, é filha da eternidade, coito de luz que inspira a luta contra os arautos das trevas.

A poesia é prima-irmã da fé; enraizada no éter, quanto mais vazia, mais profunda. Afeita ao átimo de um instante pressentido, eterniza-se quando alumia o que antes era tão somente vácuo, escuro silêncio.

Que a poesia que nos pare pare o carro de fogo das horas que nos consome.

 

& & &

 

— Arcanjo?!

Alguém me chama; busco-o, mas só me resta o eco daquele chamado na nave principal.

Ajoelho-me diante do altar. Os santos não me dizem nada.

Deixo a igreja e saio pelas curvas. Observo, logo na esquina primeira, as marcas de um pedinte na coxia agora vazia: andrajos, duas mantas puídas, uma vasilha antiga.

Paro e faço uma prece àquele irmão que se foi.

— Provinciano de Licânia, só rende préstimos aos mortos?!

Volto-me e não dou pela presença de ninguém. Mesmo assim, interrogo o vento:

— Companheiro Acácio?!

O silêncio, cortado de vez em quando pelo vagar das folhas levadas pela brisa da tarde.

— “Um pica-pau rompe o silêncio de anos/ na árvore antiga...”

Acácio, a ler Tremor de mãos, de Antonio Fabiano, à sombra de um cipreste.

 

& & &

 

Cativo das promessas do tempo presente, tento abraçar-me com as certezas de uma infância distante; e, então, choro: profunda tristeza pelos momentos evitados e não vividos.

A pior herança advém do patrimônio da omissão.

— “A noite cai pequena/ sobre os meus bonsais.”

A poesia arrasta mais uma lágrima para a face aflita, único refrigério em minha agonia.

“A lua desta noite/ parece um anjo de asas esgarçadas/ sobre a cidade.”

 

& & &

 

Aviões cortam os céus

e lá não há poeira

ao menos a vulgar não há.

Há a poeira da gente

o que toda gente é.

 

Talvez eu nem devesse dizer, muito menos aqui registrar, mas a ilusão da escrita nasce da utopia da permanência.

Ousaria anunciar que a poeira do verbo, pouco importa se oriundo daquele mais vulgar, há de rolar pelos séculos, como pó advindo dos viventes, e se juntará às poeiras das mentes brilhantes e dos corpos pulsantes, gerando o barro, quem sabe, espólio para aqueles que jamais renunciaram ao narrar.

Nesse momento — pouco importa se pó, ou se ao pó um dia há de voltar — inquieta-me uma vontade indescritível de rabiscar (e eternizar?) um quê de incipiente fantasia.

 

Estou em Minas Gerais outra vez.

Da cela escuto o trem que passa

vem veloz d’algum lugar... vai...

Toca a matraca...

Toca a matraca...

Eu caio ainda mais fundo no silêncio.

 

&


Fonte: Tremor de mãos de Antonio Fabiano (Mossoró: Sarau das Letras Editora Ltda., 2025).

Publicado no Jornal O MOSSOROENSE em 09 de agosto de 2026.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "GEOGRAFIA DO ABANDONO" DE THEO G. ALVES

 

Divulgação


Dizer qualquer coisa sobre um livro de Theo G. Alves é muito difícil para mim, do mesmo modo que revelar-se-ia inútil para você, leitor!

Difícil para mim porque sou tão próximo de Theo – como amigo e irmão – que não conseguiria expressar algo isento da desmedida estima que nutro por ele e seus escritos, desde os tempos em que éramos jovens acadêmicos nos círculos intelectuais do Rio Grande do Norte dos anos 90. Inútil para você, porque não há coisa mais protelatória que texto de outrem em livro de grande escritor, como é o caso do autor deste Geografia do Abandono.

Assim, gostaria de, em poucas palavras, centrar-me naquela que é a grande figura inspiradora desta obra – não só desta, mas também de momentos sublimes da poesia de Theo – no que é dito por recriações ficcionais e licenças poéticas, em propositais silêncios, lacunas e esquecimentos. Refiro-me à pessoa não só para quem, mas por quem, o livro foi escrito: Guilhermina Alves Costa.

Seu nome deveria ser grafado em letras de ouro, mas, sendo o ouro perecível, faz-se aqui do que não se acaba: puro afeto... amor. A Guilhermina, Geografia do Abandono é muito justo e especialmente dedicado.

Esta grande mulher, quase anônima como tantas almas simples a quem devemos a sustentação do mundo, foi avó do autor e, por feliz ventura, também minha de consideração.

Quando eu fazia a faculdade de Letras, morava em outra cidade e, por isso, nem sempre podia voltar a casa todos os dias – tarefas da grade, atividades do movimento estudantil, reuniões do centro acadêmico, o jornal literário que criamos e uma infinidade de outros eventos culturais, sem contar as diversões boêmias. Nessas ocasiões, muitas vezes eu ficava hospedado na casa de Theo. E desse tempo temos uma história engraçada, quase anedótica.

Em uma das primeiras vezes, vó Guilhermina – fazendo o que era e talvez ainda seja comum no Nordeste do Brasil, puxar a árvore genealógica de alguém até onde seja possível, para saber se este ou aquele é conhecido, se é parente longínquo ou de boa família – perguntou de quem eu era filho. Disse-lhe, mas ela não conhecia meu pai. Então, perguntou de quem eu era neto. “De Antônio Amaro, filho do mestre Amaro”, respondi. Meu avô, já falecido naquela época, tinha sido um homem excêntrico, deveras conhecido, artista em amplo sentido. “Ah”, respondeu com perplexidade e sorrindo muito, “foi meu noivo!”.

Theo e eu nunca soubemos mais detalhes dessa história, pois o pudor e o respeito não nos permitiriam perguntar coisa alguma além do que ela mesma dissera. Mas dali em diante tornei-me querido e seu neto também. A história ficou para sempre em nossa memória e nos recordamos disso com muita graça.   

Eu pensei nessa efeméride, porque é uma memória suave e muito vívida, mesmo após décadas. Diz, ainda, algo da emoção pessoal que experimentei ao ler este romance.    

        Geografia do Abandono é pungente, um livro de delicadezas e socos no estômago. Tão fascinante que dificilmente alguém conseguirá parar de ler depois de, advertida ou inadvertidamente, iniciar sua incursão na obra.

O que mais eu poderia dizer?

 

Antonio Fabiano

Poeta e carmelita descalço

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVRO CINZA: DO LUTO E DA TERRA


pixabay



À SOMBRA DE UM CAJUEIRO

 

A tarde cai sobre os cajueiros

a tarde pintada de sangue

a tarde de sombra e de lágrimas.

Como um cão de guarda

um da prole vela o corpo no chão

outro toma as providências

outro corre para o nada.

Os três – órfãos pela primeira vez.

Dói tanto em quem não morreu!

No canto da boca um risco de sangue brilha

como nenhuma estrela é capaz de brilhar.

Então é isso?

Termina assim em líquido silêncio a vida?

A mulher – dor desmedida...

– Não quero ser consolada!

Vão chegando de longe os parentes

com vozes sentidas de pêsames e comiseração.

Os velhos amigos

(do tempo em que homem não chorava)

a chorar (como se isso fosse uma licença poética)

vêm se despedir e abraçar a família.

– Tinha sessenta e dois?

– Não. Sessenta e um.

– Parece que está dormindo...

– Como aconteceu?

– Tome um pouco de café!

– Conseguiu?

 

..............................

 

Já se passaram quantos anos?

Vida... como ousou continuar?

 

TELEFONE SEM FIO

 

– Teu pai morreu!

foi o que disse a voz sentindo pena

dele e da miserável orfandade

que o adotaria dali em diante.

– Teu pai morreu!

ouviu e ficou tão pequeno

os pés e as mãos pequenas

olhos e boca de menino

um nada em carne e osso

medo e abandono.

– Agora você tem que ser homem!


FILME MUDO

 

No sonho

a palavra não é dita...

é só silêncio

um silêncio macio

e risquinhos na tela

como naqueles filmes

mudos

de antigamente.

 

Não lembro se tem cor

– acho que é só preto e branco –

a porta se abre

ele entra e

nem sequer lembramos

de nós dois

quem morreu

quem está vivo.


ALFINETE

 

Atravesso a cidade em poucos minutos –

tão pequena que nem com lupa

dá pra ver no mapa...

Mas é maior que um pensamento

e existe grande no passado.

Com passos firmes amo e deixo

nem sequer volto o rosto

(como se ódio fosse o que é amor e medo).

Ficam para trás:

a rua da infância

canteiros de hibiscos

a escola pobre e aflita

um time de futebol

um punhado de amigos

o sítio dos avós

a casa branca escondida

algodoais tão eternos

que viram ainda pequena

a avó da minha avó.

Do alto da serra

antes da última curva e reta

a visão que eu teria

se fosse de olhar para trás.

 

Deponho este canto em seu colo

que por entre névoa se insinua

cabeça de alfinete

o que hoje é perda e ganho

caminho da minha aldeia

rio sem fim... rio grande

flor de fundo de quintal

e – se não perdi as contas –

mil cajueiros de lágrimas.


SALTO

 

A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi

como o céu está sobre a terra

o que quer dizer que eu sou eu

subsiste a ilusão do cosmos

a preceituar o caos

como as coisas de cima estão sobre as de baixo

sem que haja hierarquia nisso.

 

A imagem pétrea

é reminiscência ficcional

desenho fotográfico

matéria prima sólida mineral

esfera que apanhei na via costeira

areia e vento e litoral

um sonho potiguar.

 

A ponte de Igapó projeta

a sombra de sua alma férrea 

no rio do meu amor

onde nadam camarões

e num salto acrobático perfeito

mergulha a minha alma

que não nada.


FOGÃO À LENHA

 

De repente chispa a luz

como quando Deus disse “faça-se”.

O crepitar

do fogão da minha avó

acorda o mundo.

Há alegria silenciosa em cada gesto

no cumprimento do caminho.

O abano

(este de palha que serve

para espanar brasas e apaziguar calores)

doma o fogo.

As tias velhas se juntam para opinar

falam em língua antiga

todas ao mesmo tempo e

espantosamente se entendem.

Eu sou criança nesta memória.

Nunca ninguém morreu.

Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:

mãos sujas de tisna... cheias de cinza.

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

COISAS DE POETA


pixabay


CERTAS DELICADEZAS

 

Um homem delicado

deve ser qualquer coisa

entre pingo de orvalho

e gota de suor.

Algo se faça nele

entre a rotação da terra

e um abalo sísmico.

Um homem delicado

talvez faça poemas

e – quando não – os leia

ou mande flores.

Talvez não haja homens delicados

e tudo seja uma questão de cena.

 

JUÍZO FINAL

 

O juízo virá

a esperança golpeada

se levantará

vai arribar a saia

rodar

e por último rir.

 

Com sangue nos olhos

em marcha

tomaremos a praça

e para cada segundo

roubado de nossas vidas

pediremos conta.

 

ÔNIBUS

 

Avança o ônibus

como uma lança

no coração de Jesus.

Penetra o mistério

de uma estrada sem fim –

– ainda que todas as coisas tenham fim

eu saiba disso e saiba

onde quero chegar.

As janelas são de vidro

como era de vidro o anel que

se quebrou.

Escura a via

boca de um lobo

ventre de baleia

arpoador.

A luz que me ilumina

nesta escura floresta de sentidos

é o sem sentido brilho

de uma tela...

Os meus dedos magros

mastigam teclas

pisam mundos

como quem pisasse nos astros distraída

se musa fosse ou Deus.

O que se faz nada mais é que

quebrar com as mãos

espaço e vento

até não haver tempo

de alguma coisa rimar.

Será esquecido o risco

sem deixar cisco

piscadela

farol

som de buzina

motor.

Que tudo se apague como vela!

 

ARCANO

 

De outras entranhas outra vez nasci...

 

Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!

Mas tua boca nunca eu a beijei!...”

A esta estranha dama de El-Rey

Fiz uns poemas tristes como os de Anto.

 

A minha boca cega e o que canto

Perderam-se no tempo de outra lei.

E os seios da mulher que mais amei

Murcharam de espera... luto e pranto!

 

Guarda a dolência dos veludos caros

A nívea seda e os préstimos de Paros!

Guarda bem o cinzel da nossa dor!

 

O verso lindo e raro que fizeste

Aquele mesmo de arcano celeste

Não digas nunca – nem a mim – amor!

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

REPENTINO TEMPORAL


pixabay

 

REPENTINO TEMPORAL

 

Posso escrever um poema hoje à tarde

sob a implosão do poente

– pendente o coração –

quando o sol tingir o céu

dizendo o que não cabe em palavra

ou tela...

(quando a noite adormecida

abrir seus olhos de pitomba).

A bordo o tempo se gasta

sílaba a sílaba...

O verso aporta.

Nenhum medo de morrer.

Nenhum medo de viver.

A lembrança

é uma flor de guarda-chuva

avessado pelo vento

em repentino temporal.

 

ÁS

 

Deito os lábios

sobre a fenda do tempo

que pare a poesia que me pare.

Doce é a seiva do tempo

seu fruto sumo

na língua...

Ah pélvis singularíssima

mãe de todos os superlativos

dança sensual das horas!

Quero a boca no seio

na cava

da palavra que diz a não-palavra

do silêncio

(esse estribilho que toca)

sinos e alambiques de cachaça

carne e gozoso espinho

luz

ressaca de vida.

 

Abri a carta...

A letra atávica

descosturou meus olhos.

Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada

um grão que seja de poeira

da tarde que eu quisera não findasse –

clave que me leia e não me explique

dor que não me mate e pacifique

este ás que dia e noite grita em mim!


RALO

 

A lembrança escoa e desce

como água e sabão

para o fundo do ralo

secreto – abissal.

Tão fácil ruir

em poucas palavras!

Indecifrável é

a água minguada

marulhar de espumas

pipocar de estrelas

cristais de luz e pele

medo de se afogar.

A vida rui

esvai-se e vai

desce em trago e gole

cálice e colo.

Mãos que se lavam

uma a outra.


GRAMÍNEAS

 

As ervas crescem no jardim e sobre os prados

por mais que as arranquem.

Crescem sobre o campo santo

como se tudo existisse

para findar em vida

ainda que vida não seja começo

nem fim das coisas.

Crescem como remorso

peso de consciência e culpa

com fúria e malquerença

por mais que as arranquem.

Quem disse que daninhas

não têm lugar em jardins e prados?

A morte

esta outra cínica como sua irmã

nega-se a si mesma em cada ato.

Há flores sobre a rocha

cena dura e carinhosa de se ver

uma vingança doce.

 

Este cheiro vem dos ciprestes?

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

TREMOR DE MÃOS - por Maria Lúcia Dal Farra

 

divulgação

 

        Este é um livro de interiores. De alguém que, por dentro de seus versos, não se identifica – diferentemente de como procedemos todos nós e com a maior desenvoltura. Não, suas digitais estão em outra parte, quem sabe se mercê da sua formação religiosa e haicaísta, em que a cultura do ego não tem presença.

No entanto, sua emissão isenta não é em exato a executada mercê dessas duas místicas neste Poeta harmonizadas, pois que sua voz filtra, com delicadeza, respeito e pudor (faculdades desaparecidas do nosso tempo) tudo o que contempla, depositando indelével, mas com a maior discrição, a sua presença volátil no mundo. E esse sinal comedido é o da muita simplicidade, porque temos aqui um Poeta descalço: ele permanece para sempre despojado e humilde diante da magnitude da vida, da natureza, da presença divina esparramada pelo universo, diante de si próprio e dos outros. Creio saber explicar por quê.

         Dissolvendo a sua energia na palavra, ela o interioriza a ponto de transubstanciá-lo naquilo que ele escreve, sem denunciá-lo, entretanto, como persona, tornando-o quase etéreo: é quando o foco de atenção se desloca para aquilo que as palavras erguem e não para o seu emissor. Porque, quanto mais não seja, se, de fato, alguma coisa ele realmente “quer” é apenas uma “clave que me leia e não me explique” – essa a sua divisa, o seu brasão.

Alguém me dirá, certeiro, que esse processo de metamorfose da palavra é componente intrínseco a todo ato de escrita poética, ou melhor, que é mesmo o seu ponto de partida. No entanto, no caso de Fabiano, quero destacar que esse é o seu ponto de chegada, depuração obtida com árdua dedicação e imenso amor. Que, nele, esse estágio é a própria virtualidade do ato, no sentido de que o nosso Poeta produz um recatado enxugamento de pessoa ou de quaisquer outros atributos que possam comportar normalmente esse proceder. E, embora possa proferir “eu”, ele só sabe volatilizar-se e reunir-se ao Um. 

Fabiano trabalha o núcleo mesmo do que se considera um poema, o nervo das palavras e das coisas, num impressionante despojamento (carmelita?) que descerra um mundo ainda virgem de significados, que comove qualquer leitor e provoca em nós esse “tremor de mãos” e lágrimas nos olhos.

Daí que eu considere, de novo, que é feito de interiores este livro. Neste caso, porque se trata do cerne mesmo do conceito de poesia. Depois, porque os interiores potiguares e os mineiros, suas duas expressivas vivências, se deixam vislumbrar aqui, compondo uma imagem de frescura de paisagens, de ambientes caseiros, de hábitos interioranos esquecidos, de natureza solta.

Lugares que comportam, por exemplo, um sol que, acobertado pela penumbra do crepúsculo, torna-se o “olho de pitomba” da noite. Camaradagem rústica que acolhe o bamboleio de um homem, cuja comicidade transforma seu corpo em “um carro bípede / desgovernado”, tal qual nos gracejos de Chaplin. O ar parado dos sítios, tão repletos de gramíneas, exprime a sensação de que é “como se tudo existisse / para findar em vida / ainda que vida não seja começo / nem fim das coisas”.

Há, em Fabiano, povoados em que o “trem / rasga o rascunho do poema”; campos onde “um enxame de abelhas corta / meu pensamento”; pomar onde se pode ouvir e usufruir de como “canta a flor avoante”, a “florzinha alada” que é o “sabiá”.

Tudo isso, porque é com “p” de “pedra” que se faz o “poeta” – o enfrentamento da rudeza do Indecifrável – e é só por isso que “os peixes” podem saltar “contra a corrente” numa “piracema dos sentidos”.

Cavando essa rocha empedernida, já caberá ao Poeta perguntar, por exemplo, “quantos tons tem / a cor do luto”. Ou, já então, “à sombra de um cajueiro”, permitir-se considerar pacificamente se “termina assim em líquido silêncio a vida”.

Pode-se ouvir, em seus poemas, o crepitar do fogão de lenha da avó, que “acorda o mundo”, enquanto abarrota “de eternidade o vazio da cozinha”, sobretudo depois que se partiu a velha “cristaleira”, que, malgrado tudo, não pôde suportar “o peso de tanta vida”.

Para além disso, a “ponte de Igapó (...) / num salto acrobático perfeito / mergulha a minha alma / que não nada”, de maneira que a terra de origem acaba por ficar tão distante até “tão mais que nem mãos nem sonho alcançam...” De modo que há “uma solidão tão sozinha que nem se sabe dizer em divã”.

No entanto, a “lembrança / é uma flor de guarda-chuva / avessado pelo vento / em repentino temporal”, e quando o pica-pau “rompe o silêncio de anos / na árvore antiga”, o “mundo estala no jardim de casa. / É a natureza e sou eu / no coração desta árvore a bater / – toc... toc... toc... / Ó flama viva! / A noite cai pequena / sobre os meus bonsais.”

Portanto, o Poeta se torna capacitado para ler e conhecer os “semitons” que tecem a vida. E livre para constatar que é impossível “dizer em palavras / o ranger dos bambus”, a “beleza” que dança “sobre as mãos erguidas / do bambuzal”; o “verde” que é o “aplauso das palmeiras”; o “arvoredo” que “estremece e requebra-se / debaixo dos pés de Deus”; as “carpas” que se misturam “às folhas que caem” sobre o lago.

Então – e esta é a grande questão metafísica que esse “tremor” nos depõe: – como “dizer em palavras” e “sem macular a Presença” todos estes poemas, sobretudo quando a natureza inteira, “de um canto do orbe a outro / em sustenidos e bemóis / faz-se tapete e escolta / para Ele passar”?!

 

Maria Lúcia Dal Farra



(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"TREMOR DE MÃOS": TEMPO E CONTEMPLAÇÃO

 

theo g. alves


"Tremor de Mãos": tempo e contemplação

 

– por Theo G. Alves

 

Convenhamos, caro leitor ou leitora, todo posfácio é uma injustiça com quem o escreve. Explico: tu, que acabaste de ler este livro, saberá de parte importante do que me passou ao lê-lo; eu, injustamente, não saberei o que passou a ti. À parte esta injustiça, sigamos em nossos caminhos já esclarecidos e sob o tácito acordo de que escreverei sobre o que já sabes, por isso mereço o perdão por ser redundante.

Começo, então, com uma pergunta: de quem são as mãos que tremem neste livro e por que tremem? Minha primeira pergunta são duas, aliás. Cinismo.

Tremem as mãos do poeta, tremem as mãos do leitor: porque o tempo singra pelos corpos de ambos, sem piedade alguma, e ao tempo não cabe ter piedade ou misericórdia de ninguém. Urge ao tempo passar, o que ele faz inexoravelmente. E este livro que acabamos de ler é, sobretudo, acerca do tempo.

E o tempo é também uma medida de vida e de morte. É a mensuração do cansaço e da memória diante da vida.

O poeta Antonio Fabiano parece ter compreendido esse tempo em largura e profundidade ao escrever os poemas deste “Tremor de Mãos”. Talvez não saibas, leitor ou leitora, mas vão aqui cerca de dez anos do primeiro ao último poema deste livro, que passeia pela quase comicidade de sua segunda parte e pisa com pés muito pesados na tensão da primeira e da última. E, convém dizer, que os dez anos usados para compor “Tremor de Mãos” foram muito bem utilizados, encontrando o poeta o corte milimétrico e necessário para um bom livro de poesia. Os poemas estão maturados, a voz afinada em tom preciso, a unidade encontrada: tudo o que exige um livro bem escrito.

Entretanto deves ter percebido que a observação do mundo, a contemplação das coisas, das pessoas e das sensações são o alimento fundamental desses versos. O poeta olha para o mundo como um “monge calmo a Cristo”, verso que roubo de Fernando Pessoa, por óbvio.

A contemplação – e tudo o que brota dela – compõe a argamassa que sustenta os poemas de “Tremor de Mãos”. Não é demais lembrar que contemplar é também uma maneira de dizer sobre o tempo.

É bonito para quem lê este livro surpreender o olhar contemplativo do poeta a ver um “repentino temporal” misturar-se com a magia dos velhos guarda-chuvas onde a poesia se esconde. Assim como é comovente vê-lo abrir, meditativo, o livro de um escritor que não está mais entre nós, senão por seu autógrafo e por suas ideias, o que – Fabiano sabe – é tudo o que precisava ser deixado.

O poeta, sei que percebeste, ousa mover-se de seu estado contemplativo para agir sobre a poesia, sobre a magia imagética e sonora de escrever poesia, invadida por pica-paus, bonsais e notícias de jornal. Tu deves ter visto como se move o olhar do poeta entre o passado e o presente diante do fingimento quanto ao álbum de retratos, que desnuda as famílias de uma maneira debochada, cômica e precisa:


“Aquela do canto

tentou suicídio uma ou duas vezes.

Este do meio trai a mulher

com quem está abraçado

como se fossem felizes para sempre...

(...)

Esta aqui é a mais infeliz de todas

embora não pareça!

É irmã daquela...

A outra se deu bem na vida...

Esta também... Já é avó!

Este ficou rico e mora fora.

Está no segundo casamento.

E aí está o poeta!”


Como já leste o livro, não vou me pôr a copiar muitos mais versos aqui. Quero antes cochichar impressões, leitor e leitora.

Que livro de poesias estaria completo sem um momento reservado para a perda, para o luto, estes dois animais apascentados pelo tempo? Afinal, desde que nascemos, é a partir da perda que nos construímos, seja a perda do seio materno, seja a perda da avó e do pai mortos, como enseja a natureza dos ritos: seguir-se uma geleira depois de um pôr-do-sol, uma geleira que é penhasco, é o caminho que o poeta escolhe e nos leva com ele até indagar: “– A esperança não se afogou?”

O ardiloso poeta tira seu leitor para brincar, para dançar: ri, rodopia, move-se rapidamente entre a graça e a dor. Ri de seu próprio sofrimento e nos convida a rir também, a olhar para o mundo, a contemplar as coisas miúdas e rir.

É assim que ele nos entrega o caminho para suas coisas de poeta.

Entre essas coisas, sobretudo o amor, cuja letra é aparentemente simples, quase cômica, capaz de ser leve ainda que profunda, como acontece aos que amam um poeta na extensão de seus versos. Está lá:


“vai me ler outras vezes – todo –

tantas que se o amor durar

vai me amar de verdade

...para sempre.”


O amor prometido, cúmplice, partilhado quase em segredo, como deve ser.

Os poemas da segunda sessão do livro, diga-se, reafirmam que este é um livro de olhares, de contemplação. Assim como deita olhos ao amor entre o leitor e seu poeta (ou seria entre o poeta e seu leitor), Fabiano compõe cenas curiosas, bonitas e bem-humoradas, seja através de um beijo roubado na chuva ou da gravidez acidental que faz parir um bebê não planejado. As brincadeiras também contemplam a letra P de Pedro e Paulo, além de “pedra” que se escreve como “poeta”, cujos maquinários constroem um alerta que nós, leitores, não podemos ignorar:


“Não confie muito em

coisas de poeta.”


Sobre a terceira e última parte do livro, confesso, é a que melhor me toma de assalto e, por isso, da que menos falarei. A melancolia delicada dos poemas desta sessão eleva o poeta/livro a outros e mais altos patamares. É o sofrimento do poeta que melhor o enriquece: seu olhar marejado para si mesmo, para o mundo, para o tempo e para a própria poesia.

Por isso me parece que este “Tremor de Mãos” não poderia terminar de maneira mais afiada, o que também demonstra claramente a expertise de Fabiano enquanto escritor, que se põe a compor um livro que é também trilha, conduzindo seu leitor e leitora para uma experiência a ser vivida lentamente, a fazer voltar ao livro tantas vezes, como se fosse a escrita de seu livro uma espécie de feitiço do tempo.

Por isso, ao fim, retornemos à lição maior do poeta, que repete singularíssimo, a lição que permeia todo o livro, toda a contemplação e todo o tempo:


“amo

amo”


E que assim seja.



(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)