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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

TREMOR DE MÃOS - por Maria Lúcia Dal Farra

 

divulgação

 

        Este é um livro de interiores. De alguém que, por dentro de seus versos, não se identifica – diferentemente de como procedemos todos nós e com a maior desenvoltura. Não, suas digitais estão em outra parte, quem sabe se mercê da sua formação religiosa e haicaísta, em que a cultura do ego não tem presença.

No entanto, sua emissão isenta não é em exato a executada mercê dessas duas místicas neste Poeta harmonizadas, pois que sua voz filtra, com delicadeza, respeito e pudor (faculdades desaparecidas do nosso tempo) tudo o que contempla, depositando indelével, mas com a maior discrição, a sua presença volátil no mundo. E esse sinal comedido é o da muita simplicidade, porque temos aqui um Poeta descalço: ele permanece para sempre despojado e humilde diante da magnitude da vida, da natureza, da presença divina esparramada pelo universo, diante de si próprio e dos outros. Creio saber explicar por quê.

         Dissolvendo a sua energia na palavra, ela o interioriza a ponto de transubstanciá-lo naquilo que ele escreve, sem denunciá-lo, entretanto, como persona, tornando-o quase etéreo: é quando o foco de atenção se desloca para aquilo que as palavras erguem e não para o seu emissor. Porque, quanto mais não seja, se, de fato, alguma coisa ele realmente “quer” é apenas uma “clave que me leia e não me explique” – essa a sua divisa, o seu brasão.

Alguém me dirá, certeiro, que esse processo de metamorfose da palavra é componente intrínseco a todo ato de escrita poética, ou melhor, que é mesmo o seu ponto de partida. No entanto, no caso de Fabiano, quero destacar que esse é o seu ponto de chegada, depuração obtida com árdua dedicação e imenso amor. Que, nele, esse estágio é a própria virtualidade do ato, no sentido de que o nosso Poeta produz um recatado enxugamento de pessoa ou de quaisquer outros atributos que possam comportar normalmente esse proceder. E, embora possa proferir “eu”, ele só sabe volatilizar-se e reunir-se ao Um. 

Fabiano trabalha o núcleo mesmo do que se considera um poema, o nervo das palavras e das coisas, num impressionante despojamento (carmelita?) que descerra um mundo ainda virgem de significados, que comove qualquer leitor e provoca em nós esse “tremor de mãos” e lágrimas nos olhos.

Daí que eu considere, de novo, que é feito de interiores este livro. Neste caso, porque se trata do cerne mesmo do conceito de poesia. Depois, porque os interiores potiguares e os mineiros, suas duas expressivas vivências, se deixam vislumbrar aqui, compondo uma imagem de frescura de paisagens, de ambientes caseiros, de hábitos interioranos esquecidos, de natureza solta.

Lugares que comportam, por exemplo, um sol que, acobertado pela penumbra do crepúsculo, torna-se o “olho de pitomba” da noite. Camaradagem rústica que acolhe o bamboleio de um homem, cuja comicidade transforma seu corpo em “um carro bípede / desgovernado”, tal qual nos gracejos de Chaplin. O ar parado dos sítios, tão repletos de gramíneas, exprime a sensação de que é “como se tudo existisse / para findar em vida / ainda que vida não seja começo / nem fim das coisas”.

Há, em Fabiano, povoados em que o “trem / rasga o rascunho do poema”; campos onde “um enxame de abelhas corta / meu pensamento”; pomar onde se pode ouvir e usufruir de como “canta a flor avoante”, a “florzinha alada” que é o “sabiá”.

Tudo isso, porque é com “p” de “pedra” que se faz o “poeta” – o enfrentamento da rudeza do Indecifrável – e é só por isso que “os peixes” podem saltar “contra a corrente” numa “piracema dos sentidos”.

Cavando essa rocha empedernida, já caberá ao Poeta perguntar, por exemplo, “quantos tons tem / a cor do luto”. Ou, já então, “à sombra de um cajueiro”, permitir-se considerar pacificamente se “termina assim em líquido silêncio a vida”.

Pode-se ouvir, em seus poemas, o crepitar do fogão de lenha da avó, que “acorda o mundo”, enquanto abarrota “de eternidade o vazio da cozinha”, sobretudo depois que se partiu a velha “cristaleira”, que, malgrado tudo, não pôde suportar “o peso de tanta vida”.

Para além disso, a “ponte de Igapó (...) / num salto acrobático perfeito / mergulha a minha alma / que não nada”, de maneira que a terra de origem acaba por ficar tão distante até “tão mais que nem mãos nem sonho alcançam...” De modo que há “uma solidão tão sozinha que nem se sabe dizer em divã”.

No entanto, a “lembrança / é uma flor de guarda-chuva / avessado pelo vento / em repentino temporal”, e quando o pica-pau “rompe o silêncio de anos / na árvore antiga”, o “mundo estala no jardim de casa. / É a natureza e sou eu / no coração desta árvore a bater / – toc... toc... toc... / Ó flama viva! / A noite cai pequena / sobre os meus bonsais.”

Portanto, o Poeta se torna capacitado para ler e conhecer os “semitons” que tecem a vida. E livre para constatar que é impossível “dizer em palavras / o ranger dos bambus”, a “beleza” que dança “sobre as mãos erguidas / do bambuzal”; o “verde” que é o “aplauso das palmeiras”; o “arvoredo” que “estremece e requebra-se / debaixo dos pés de Deus”; as “carpas” que se misturam “às folhas que caem” sobre o lago.

Então – e esta é a grande questão metafísica que esse “tremor” nos depõe: – como “dizer em palavras” e “sem macular a Presença” todos estes poemas, sobretudo quando a natureza inteira, “de um canto do orbe a outro / em sustenidos e bemóis / faz-se tapete e escolta / para Ele passar”?!

 

Maria Lúcia Dal Farra



(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

MARIA LÚCIA DAL FARRA


Divulgação


SOBREVIDA


Matéria ardente que o fogo

arrebata para si

assim a mariposa.


Venho clamar por clemência:


por que deve fenecer

quem se acumula de luz?


Canto

(portanto)


às escuras.



MORADA


Nesta casa incerta

os dias são longos, abandonados pelo

tempo

que desistiu e desertou dos seus.


Crescer ou morrer já é igual:

ambos tocados pelo mesmo fogo do que não se sabe

tangidos por sílabas frias

nos ecos corridos da minha voz.


Abrir as torneiras para ver fluir

o que não se retém.

Olhar no espelho para conferir os pontos

cegos.


Erigir aqui o mausoléu.



O GALO


Me confundo

supondo se este galo é o mesmo

daquela madrugada –

o do canto repetido, o da crista abrolhada do sangue

de Cristo.

O mesmo que canta no vizinho

e que ilustra (aos sonolentos) sua grande solidão.

O que bica escorpiões e limpa os quintais – 

ofício que lhe depura ainda mais a plumagem

as notas

a amplidão.


Galo feito a golpes na madeira silenciosa

– só o canivete esculpe-lhe o pé forcado.


Por causa do ambíguo parentesco 

não sei se o escultor o sangra

ou se lhe bota asas de 

Mercúrio.


Carteiro dos altos

envia mensagens a quem repousa

e muito traduz

(aos de insone feitio)

do quanto retalha a noite


cada cacarejo seu.


Maria Lúcia Dal Farra


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

MARIA LÚCIA DAL FARRA

“eu, mulher plena, prenhe de plurais”...
“mulher de extremos”...

Maria Lúcia Dal Farra

Trechos de poemas do Livro de Auras, Iluminuras, 1994.
Fotografia disponível em álbuns da Web.
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MARIA LÚCIA DAL FARRA é uma das vozes mais límpidas, sublimes da atual poesia brasileira. Paulista de Botucatu, nascida em 14 de outubro de 1944, estudou em sua terra natal, em São Paulo, Lisboa, Paris. Lecionou e deu conferências em diversas outras partes do mundo. Integrou a equipe de Antonio Candido, responsável pela fundação do Departamento de Teoria Literária, em 1975. Daí ausentou-se apenas quando passou a morar no Nordeste do Brasil. É casada com o escritor Francisco Dantas. No recanto do Sergipe onde atualmente vive, tem infinitos gatos e um piano incrível. Maria Lúcia Dal Farra publicou muitas obras sobre narrativa e poesia, aqui e no exterior. É exímia crítica literária. Publicou alguns dos melhores trabalhos e edições críticas que há no mundo sobre a poetisa portuguesa Florbela Espanca. É musicista, “mulher plena, prenhe de plurais”, “mulher de extremos”... e muito mais.

CASA – Maria Lúcia Dal Farra

Redonda, uma mesa cogita
sua memória de árvore
enquanto o nó central se amplia
pela luz vertical que a retira
da morte.

Esse arbusto cresce
e engole a lâmpada elétrica:
os galhos já resplandecem
filtrados de sol.

Do chão
o assoalho estremece
e revive
(através da cera recém-acumulada)
os momentos íntimos das coisas da casa
no seu tempo de floresta.

Dal Farra, Maria Lúcia. “Livro de Auras”. São Paulo: Iluminuras, 1994.

O GATO – Maria Lúcia Dal Farra

Uma palavra para o gato: ágil.
Também unha, preguiça, pupila.
O resto
é o que ele
(entre uma e outra delas)
preenche de charme delgado –
enigmático.

Adoraria poder nele apalpar o pelo
e saber de que abstração é feito.
Mas (felino) ele se enrosca incisivo
no vão do meu pensamento
e dependura-se
(em telepática acrobacia)
nas suas prerrogativas.
Só me permite escrevê-lo
a contrapelo.

Dal Farra, Maria Lúcia. “Livro de Auras”. São Paulo: Iluminuras, 1994.

LIÇÃO DE MÚSICA – Maria Lúcia Dal Farra

Na noite em que meu pai morreu
ele e eu lembramos tangos até tarde –
sem bandoneón, sem violão
de puro improviso:
como se assim entretidos
distraíssemos de seu fito aquilo que nos rondava
ou como uno
(los cumparsitos)
e já numa língua estrangeira
cavássemos um caminito para volver a um país permanente
– lá para os lados do Barrio
ou para os lados do Sur.

Na greve de 39 quando Gardel
galvanizava os gramofones do meu pequeno arrabalde,
papai foi preso.
Detrás das grades
(irreverente)
ele cantou horas a honrar a espera dos estudantes que
(de fora)
forçavam a volta do seu líder
– porque (ele me disse)
a música me dá vida se a vida falta.

Por isso cantamos tanto naquela noite.
Por isso canto tanto agora.

Dal Farra, Maria Lúcia. “Livro de Auras”. São Paulo: Iluminuras, 1994.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Palavras, 1 Piano e 20 Gatos

Palavras, 1 Piano e 20 Gatos - Parte 1


Palavras, 1 Piano e 20 Gatos - Parte 2


Direção, Fotografia e Montagem:
Tatiana Lohmann

Textos:
Francisco J. C. Dantas
Maria Lúcia Dal Farra

Licença Padrão do YouTube

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

MARIA LÚCIA DAL FARRA - ela, sim, exuberante!

Maria Lúcia Dal Farra - Imagem disponível na Web

Faz aniversário hoje MARIA LÚCIA DAL FARRA. Uma das pessoas mais autênticas que já conheci! Paulista de Botucatu, onde nasceu em 1944, vive atualmente em uma fazenda do Sergipe – ali tem criatório de infindáveis gatos... É das mais brilhantes intelectuais deste país. Lecionou em universidades nacionais e internacionais. Foi professora na USP e na UNICAMP – nesta integrou a equipe do grande Antonio Candido, responsável pela fundação do Departamento de Teoria Literária, em 1975. Esta exuberante mulher tem centenas de trabalhos sobre narrativa e poesia, publicados no Brasil e no exterior, em português e outras línguas. Escreveu alguns dos mais sérios estudos sobre Florbela Espanca, poetisa portuguesa, além do antológico estudo sobre o foco narrativo em Vergílio Ferreira, “O narrador ensimesmado” (São Paulo, Ática, 1978), e “A alquimia da linguagem”, leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder (Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986). Lança-se em poesia no ano de 1994, com seu “Livro de Auras” (São Paulo, Editora Iluminuras). Mais tarde surge seu belo “Livro de Possuídos” (São Paulo, Iluminuras, 2002). E, em seguida, “Inquilina do Intervalo”, livro de contos (São Paulo, Editora Iluminuras, 2005). A revista Veja chegou mesmo a publicar em 2002 – por ocasião do lançamento do “Livro de Possuídos” – que “ninguém no Brasil é melhor poeta do que ela”... Minhas felicitações a Maria Lúcia, por quem nutro de longas datas amizade e especialíssimo carinho.
Segue-se um poema seu, como poucos há na língua portuguesa, de extremada delicadeza, beleza ímpar, requinte, perfeição...

VERGILIANA

Descansa comigo
sobre a folhagem nova!
Tenho frutas maduras, castanhas assadas,
fartura de queijo.
Ao longe um telhado fumega.

Nem de arbustos e tamarindos
os poemas se fazem.
É certo que assim verdejam
mas também em cinza se convertem.
Elevemos o canto: falemos da grande ordem,
da totalidade das coisas,
dos anéis de Saturno
do menino que há pouco nasceu.

Os meses correm:
úmido mel destilam as mangueiras,
heras vicejam sobre o mato,
vermelhos pendem dos espinhais incultos.

As Parcas os seus fusos correm
e a lã não mais imitará a cor:
o próprio carneiro, no prado,
vai transformar seu velo em púrpura
ou dourado açafrão;
já dispensam foices as videiras.

Alcêmo-nos para as grandes honrarias!
Um século há de vir em que o alento
torne o mundo poesia.

Maria Lúcia Dal Farra
(Do “Livro de Possuídos”, São Paulo, Editora Iluminuras, 2002, pp. 49-50).

Homenagem a Maria Lúcia Dal Farra, por ocasião de seu aniversário.
14 de outubro de 2010