Pílulas
para o Silêncio
(Parte
CCCLXXXIII)
Clauder Arcanjo
Editor, escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.
clauderarcanjo@gmail.com
O
sal da fé
Deito
os lábios
sobre
a fenda do tempo
que
pare a poesia que me pare.
(Poema “Ás”, de Antonio Fabiano.)
A fé não tem raiz, tem asas, pluma no
vento mais brando.
A fé não se submete ao tempo, é filha da
eternidade, coito de luz que inspira a luta contra os arautos das trevas.
A poesia é prima-irmã da fé; enraizada
no éter, quanto mais vazia, mais profunda. Afeita ao átimo de um instante pressentido,
eterniza-se quando alumia o que antes era tão somente vácuo, escuro silêncio.
Que a poesia que nos pare pare o carro
de fogo das horas que nos consome.
& & &
— Arcanjo?!
Alguém me chama; busco-o, mas só me
resta o eco daquele chamado na nave principal.
Ajoelho-me diante do altar. Os santos
não me dizem nada.
Deixo a igreja e saio pelas curvas.
Observo, logo na esquina primeira, as marcas de um pedinte na coxia agora
vazia: andrajos, duas mantas puídas, uma vasilha antiga.
Paro e faço uma prece àquele irmão que
se foi.
— Provinciano de Licânia, só rende
préstimos aos mortos?!
Volto-me e não dou pela presença de
ninguém. Mesmo assim, interrogo o vento:
— Companheiro Acácio?!
O silêncio, cortado de vez em quando
pelo vagar das folhas levadas pela brisa da tarde.
— “Um pica-pau rompe o silêncio de anos/
na árvore antiga...”
Acácio, a ler Tremor de mãos, de
Antonio Fabiano, à sombra de um cipreste.
& & &
Cativo das promessas do tempo presente,
tento abraçar-me com as certezas de uma infância distante; e, então, choro:
profunda tristeza pelos momentos evitados e não vividos.
A pior herança advém do patrimônio da
omissão.
— “A noite cai pequena/ sobre os meus
bonsais.”
A poesia arrasta mais uma lágrima para a
face aflita, único refrigério em minha agonia.
“A lua desta noite/ parece um anjo de
asas esgarçadas/ sobre a cidade.”
& & &
Aviões
cortam os céus
e
lá não há poeira
ao
menos a vulgar não há.
Há
a poeira da gente
o
que toda gente é.”
Talvez eu nem devesse dizer, muito menos
aqui registrar, mas a ilusão da escrita nasce da utopia da permanência.
Ousaria anunciar que a poeira do verbo, pouco
importa se oriundo daquele mais vulgar, há de rolar pelos séculos, como pó
advindo dos viventes, e se juntará às poeiras das mentes brilhantes e dos
corpos pulsantes, gerando o barro, quem sabe, espólio para aqueles que jamais
renunciaram ao narrar.
Nesse momento — pouco importa se pó, ou
se ao pó um dia há de voltar — inquieta-me uma vontade indescritível de
rabiscar (e eternizar?) um quê de incipiente fantasia.
Estou
em Minas Gerais outra vez.
Da
cela escuto o trem que passa
vem
veloz d’algum lugar... vai...
Toca
a matraca...
Toca
a matraca...
Eu
caio ainda mais fundo no silêncio.
Fonte:
Tremor de mãos, de Antonio Fabiano (Mossoró: Sarau das Letras
Editora Ltda., 2025.)

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