quinta-feira, 13 de agosto de 2026

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO - Clauder Arcanjo

 

Pílulas para o Silêncio

(Parte CCCLXXXIII)

 

Clauder Arcanjo

Editor, escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

clauderarcanjo@gmail.com 



Cristo na Tempestade no Mar da Galileia, de Rembrandt.


O sal da fé

 

Deito os lábios

sobre a fenda do tempo

que pare a poesia que me pare.

(Poema “Ás”, de Antonio Fabiano.)

 

A fé não tem raiz, tem asas, pluma no vento mais brando.

A fé não se submete ao tempo, é filha da eternidade, coito de luz que inspira a luta contra os arautos das trevas.

A poesia é prima-irmã da fé; enraizada no éter, quanto mais vazia, mais profunda. Afeita ao átimo de um instante pressentido, eterniza-se quando alumia o que antes era tão somente vácuo, escuro silêncio.

Que a poesia que nos pare pare o carro de fogo das horas que nos consome.

 

& & &

 

— Arcanjo?!

Alguém me chama; busco-o, mas só me resta o eco daquele chamado na nave principal.

Ajoelho-me diante do altar. Os santos não me dizem nada.

Deixo a igreja e saio pelas curvas. Observo, logo na esquina primeira, as marcas de um pedinte na coxia agora vazia: andrajos, duas mantas puídas, uma vasilha antiga.

Paro e faço uma prece àquele irmão que se foi.

— Provinciano de Licânia, só rende préstimos aos mortos?!

Volto-me e não dou pela presença de ninguém. Mesmo assim, interrogo o vento:

— Companheiro Acácio?!

O silêncio, cortado de vez em quando pelo vagar das folhas levadas pela brisa da tarde.

— “Um pica-pau rompe o silêncio de anos/ na árvore antiga...”

Acácio, a ler Tremor de mãos, de Antonio Fabiano, à sombra de um cipreste.

 

& & &

 

Cativo das promessas do tempo presente, tento abraçar-me com as certezas de uma infância distante; e, então, choro: profunda tristeza pelos momentos evitados e não vividos.

A pior herança advém do patrimônio da omissão.

— “A noite cai pequena/ sobre os meus bonsais.”

A poesia arrasta mais uma lágrima para a face aflita, único refrigério em minha agonia.

“A lua desta noite/ parece um anjo de asas esgarçadas/ sobre a cidade.”

 

& & &

 

Aviões cortam os céus

e lá não há poeira

ao menos a vulgar não há.

Há a poeira da gente

o que toda gente é.”

 

Talvez eu nem devesse dizer, muito menos aqui registrar, mas a ilusão da escrita nasce da utopia da permanência.

Ousaria anunciar que a poeira do verbo, pouco importa se oriundo daquele mais vulgar, há de rolar pelos séculos, como pó advindo dos viventes, e se juntará às poeiras das mentes brilhantes e dos corpos pulsantes, gerando o barro, quem sabe, espólio para aqueles que jamais renunciaram ao narrar.

Nesse momento — pouco importa se pó, ou se ao pó um dia há de voltar — inquieta-me uma vontade indescritível de rabiscar (e eternizar?) um quê de incipiente fantasia.

 

Estou em Minas Gerais outra vez.

Da cela escuto o trem que passa

vem veloz d’algum lugar... vai...

Toca a matraca...

Toca a matraca...

Eu caio ainda mais fundo no silêncio.

 

Fonte: Tremor de mãos, de Antonio Fabiano (Mossoró: Sarau das Letras Editora Ltda., 2025.)


Nenhum comentário:

Postar um comentário