terça-feira, 30 de junho de 2026
sábado, 16 de maio de 2026
SOB O INFINITO QUE ÀS VEZES INVENTA-SE PÁLIO ABERTO
botas pesadas
anunciam o viajante —
toc-toc-toc!
Entrego Meu Coração aos Pinheiros é o novo livro de Márcio Grings. Nele pulsa seu coração de poeta do mundo, amante da natureza e da expressão humana em vasto sentido. Perpassado de reminiscências, alusões a clássicos literários do Oriente e do Ocidente, este é um livro de experimentação e síntese do que o autor apreende pelo caminho a partir de sua própria incursão e estudo das várias correntes do haicai.
Diz-nos:
Em meio à avalanche de telas, redes, algoritmos, automatizações e abduções pelos atalhos da IA — olhando através da perspectiva de um país que não lê — o haicai ressurge como resistência memorial da sensibilidade humana.
E aqui faz-se o convite para que nossos pés calçados ou descalços avancem na trilha/aventura, nesta senda incerta que é a vida, sob o infinito que às vezes inventa-se pálio aberto...
cerro o zíper
hotel sob as estrelas —
cricri... cricri...
Seishin
________________
Entrego meu coração aos pinheiros / Márcio Grings; ilustrações Vitor Cesar B. Vareiro. – Santa Maria, RS: Grings Memorabilia e Tours: Elmo Köhn, 2026.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
APRESENTAÇÃO DO LIVRO "GEOGRAFIA DO ABANDONO" DE THEO G. ALVES
Dizer
qualquer coisa sobre um livro de Theo G. Alves é muito difícil para mim, do
mesmo modo que revelar-se-ia inútil para você, leitor!
Difícil para
mim porque sou tão próximo de Theo – como amigo e irmão – que não conseguiria
expressar algo isento da desmedida estima que nutro por ele e seus escritos,
desde os tempos em que éramos jovens acadêmicos nos círculos intelectuais do
Rio Grande do Norte dos anos 90. Inútil para você, porque não há coisa mais
protelatória que texto de outrem em livro de grande escritor, como é o caso do
autor deste Geografia do Abandono.
Assim, gostaria de, em poucas palavras, centrar-me naquela que é a
grande figura inspiradora desta obra – não só desta, mas também de momentos
sublimes da poesia de Theo – no que é dito por recriações ficcionais e licenças
poéticas, em propositais silêncios, lacunas e esquecimentos. Refiro-me à pessoa
não só para quem, mas por quem,
o livro foi escrito: Guilhermina Alves Costa.
Seu nome
deveria ser grafado em letras de ouro, mas, sendo o ouro perecível, faz-se aqui
do que não se acaba: puro afeto... amor. A Guilhermina, Geografia do
Abandono é muito justo e especialmente dedicado.
Esta grande
mulher, quase anônima como tantas almas simples a quem devemos a sustentação do
mundo, foi avó do autor e, por feliz ventura, também minha de consideração.
Quando eu
fazia a faculdade de Letras, morava em outra cidade e, por isso, nem sempre
podia voltar a casa todos os dias – tarefas da grade, atividades do movimento
estudantil, reuniões do centro acadêmico, o jornal literário que criamos e uma
infinidade de outros eventos culturais, sem contar as diversões boêmias. Nessas
ocasiões, muitas vezes eu ficava hospedado na casa de Theo. E desse tempo temos
uma história engraçada, quase anedótica.
Em uma das
primeiras vezes, vó Guilhermina – fazendo o que era e talvez ainda seja comum
no Nordeste do Brasil, puxar a árvore genealógica de alguém até onde seja
possível, para saber se este ou aquele é conhecido, se é parente longínquo ou
de boa família – perguntou de quem eu era filho. Disse-lhe, mas ela não
conhecia meu pai. Então, perguntou de quem eu era neto. “De Antônio Amaro,
filho do mestre Amaro”, respondi. Meu avô, já falecido naquela época, tinha
sido um homem excêntrico, deveras conhecido, artista em amplo sentido. “Ah”,
respondeu com perplexidade e sorrindo muito, “foi meu noivo!”.
Theo e eu
nunca soubemos mais detalhes dessa história, pois o pudor e o respeito não nos
permitiriam perguntar coisa alguma além do que ela mesma dissera. Mas dali em
diante tornei-me querido e seu neto também. A história ficou para sempre em
nossa memória e nos recordamos disso com muita graça.
Eu pensei
nessa efeméride, porque é uma memória suave e muito vívida, mesmo após décadas.
Diz, ainda, algo da emoção pessoal que experimentei ao ler este romance.
Geografia do Abandono é pungente,
um livro de delicadezas e socos no estômago. Tão fascinante que dificilmente
alguém conseguirá parar de ler depois de, advertida ou inadvertidamente,
iniciar sua incursão na obra.
O que mais eu
poderia dizer?
Antonio
Fabiano
Poeta e carmelita descalço
segunda-feira, 30 de março de 2026
domingo, 22 de fevereiro de 2026
DOMINGO EM SÃO PAULO - Adélia Prado
DOMINGO EM SÃO PAULO
Esta cidade me pesa sobre os ombros,
vacilo em caminhar neste domingo
extenuada de fadiga
por tantos e tão altos prédios,
cheios de fios, encanamentos.
Ruas, árvores,
lona, plástico, papelão e zinco,
arremedos de casas
dos que nunca foram ao parque,
pretas de fuligem e poeira,
luxo e lixo.
Tanta massa de gente
desejante e ansiosa.
A qualquer hora chove
e não tem banheiro. Horror!
Tudo é inóspito,
sem espaço para riso e sonho.
A sensação é próxima da palavra desgosto,
que por escrúpulo temo pronunciar.
A cabeça enjoa no antigo pêndulo,
medo e susto,
susto e medo,
sem discernir o que seja
a Santíssima Vontade.
Sei que sois trindade,
não porque me ensinaram,
mas porque um Deus sozinho
gera o inominável terror.
A sagrada face do Filho me protege,
sua coroa de espinhos.
À prova de sequestros,
durmo no vão de suas cinco chagas.
O domingo anoitece.
Melhoro bastante, sinto menos frio.
Não recuso o remédio
que amorosamente alguém me põe sob a língua.
Descubro que sou amada
e não apenas por vós.
Parece rude, Altíssimo,
mas é que não tenho palavras.
Adélia Prado
(O jardim das oliveiras, Rio de Janeiro: Record, 2025.)
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
LIVRO CINZA: DO LUTO E DA TERRA
A tarde cai sobre os cajueiros
a tarde pintada de sangue
a tarde de sombra e de lágrimas.
Como um cão de guarda
um da prole vela o corpo no chão
outro toma as providências
outro corre para o nada.
Os três – órfãos pela primeira vez.
Dói tanto em quem não morreu!
No canto da boca um risco de sangue brilha
como nenhuma estrela é capaz de brilhar.
Então é isso?
Termina assim em líquido silêncio a vida?
A mulher – dor desmedida...
– Não quero ser consolada!
Vão chegando de longe os parentes
com vozes sentidas de pêsames e comiseração.
Os velhos amigos
(do tempo em que homem não chorava)
a chorar (como se isso fosse uma licença poética)
vêm se despedir e abraçar a família.
– Tinha sessenta e dois?
– Não. Sessenta e um.
– Parece que está dormindo...
– Como aconteceu?
– Tome um pouco de café!
– Conseguiu?
..............................
Já se passaram quantos anos?
Vida... como ousou continuar?
TELEFONE SEM FIO
– Teu pai morreu!
foi o que disse a voz sentindo pena
dele e da miserável orfandade
que o adotaria dali em diante.
– Teu pai morreu!
ouviu e ficou tão pequeno
os pés e as mãos pequenas
olhos e boca de menino
um nada em carne e osso
medo e abandono.
– Agora você tem que ser homem!
FILME MUDO
No sonho
a palavra não é dita...
é só silêncio
um silêncio macio
e risquinhos na tela
como naqueles filmes
mudos
de antigamente.
Não lembro se tem cor
– acho que é só preto e branco –
a porta se abre
ele entra e
nem sequer lembramos
de nós dois
quem morreu
quem está vivo.
ALFINETE
Atravesso a cidade em poucos minutos –
tão pequena que nem com lupa
dá pra ver no mapa...
Mas é maior que um pensamento
e existe grande no passado.
Com passos firmes amo e deixo
nem sequer volto o rosto
(como se ódio fosse o que é amor e medo).
Ficam para trás:
a rua da infância
canteiros de hibiscos
a escola pobre e aflita
um time de futebol
um punhado de amigos
o sítio dos avós
a casa branca escondida
algodoais tão eternos
que viram ainda pequena
a avó da minha avó.
Do alto da serra
antes da última curva e reta
a visão que eu teria
se fosse de olhar para trás.
Deponho este canto em seu colo
que por entre névoa se insinua
cabeça de alfinete
o que hoje é perda e ganho
caminho da minha aldeia
rio sem fim... rio grande
flor de fundo de quintal
e – se não perdi as contas –
mil cajueiros de lágrimas.
SALTO
A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi
como o céu está sobre a terra
o que quer dizer que eu sou eu
subsiste a ilusão do cosmos
a preceituar o caos
como as coisas de cima estão sobre as de baixo
sem que haja hierarquia nisso.
A imagem pétrea
é reminiscência ficcional
desenho fotográfico
matéria prima sólida mineral
esfera que apanhei na via costeira
areia e vento e litoral
um sonho potiguar.
A ponte de Igapó projeta
a sombra de sua alma férrea
no rio do meu amor
onde nadam camarões
e num salto acrobático perfeito
mergulha a minha alma
que não nada.
FOGÃO À LENHA
De repente chispa a luz
como quando Deus disse “faça-se”.
O crepitar
do fogão da minha avó
acorda o mundo.
Há alegria silenciosa em cada gesto
no cumprimento do caminho.
O abano
(este de palha que serve
para espanar brasas e apaziguar calores)
doma o fogo.
As tias velhas se juntam para opinar
falam em língua antiga
todas ao mesmo tempo e
espantosamente se entendem.
Eu sou criança nesta memória.
Nunca ninguém morreu.
Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:
mãos sujas de tisna... cheias de cinza.
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
COISAS DE POETA
CERTAS
DELICADEZAS
Um homem delicado
deve ser qualquer coisa
entre pingo de orvalho
e gota de suor.
Algo se faça nele
entre a rotação da terra
e um abalo sísmico.
Um homem delicado
talvez faça poemas
e – quando não – os leia
ou mande flores.
Talvez não haja homens delicados
e tudo seja uma questão de cena.
JUÍZO
FINAL
O juízo virá
a esperança golpeada
se levantará
vai arribar a saia
rodar
e por último rir.
Com sangue nos olhos
em marcha
tomaremos a praça
e para cada segundo
roubado de nossas vidas
pediremos conta.
ÔNIBUS
Avança o ônibus
como uma lança
no coração de Jesus.
Penetra o mistério
de uma estrada sem fim –
– ainda que todas as coisas tenham fim
eu saiba disso e saiba
onde quero chegar.
As janelas são de vidro
como era de vidro o anel que
se quebrou.
Escura a via
boca de um lobo
ventre de baleia
arpoador.
A luz que me ilumina
nesta escura floresta de sentidos
é o sem sentido brilho
de uma tela...
Os meus dedos magros
mastigam teclas
pisam mundos
como quem pisasse nos astros distraída
se musa fosse ou Deus.
O que se faz nada mais é que
quebrar com as mãos
espaço e vento
até não haver tempo
de alguma coisa rimar.
Será esquecido o risco
sem deixar cisco
piscadela
farol
som de buzina
motor.
Que tudo se apague como vela!
ARCANO
De
outras entranhas outra vez nasci...
Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!
Mas tua boca nunca eu a beijei!...”
A esta estranha dama de El-Rey
Fiz uns poemas tristes como os de Anto.
A minha boca cega e o que canto
Perderam-se no tempo de outra lei.
E os seios da mulher que mais amei
Murcharam de espera... luto e pranto!
Guarda a dolência dos veludos caros
A nívea seda e os préstimos de Paros!
Guarda bem o cinzel da nossa dor!
O verso lindo e raro que fizeste
Aquele mesmo de arcano celeste
Não digas nunca – nem a mim – amor!
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
REPENTINO TEMPORAL
REPENTINO
TEMPORAL
Posso escrever um poema hoje à tarde
sob a implosão do poente
– pendente o coração –
quando o sol tingir o céu
dizendo o que não cabe em palavra
ou tela...
(quando a noite adormecida
abrir seus olhos de pitomba).
A bordo o tempo se gasta
sílaba a sílaba...
O verso aporta.
Nenhum medo de morrer.
Nenhum medo de viver.
A lembrança
é uma flor de guarda-chuva
avessado pelo vento
em repentino temporal.
ÁS
Deito os lábios
sobre a fenda do tempo
que pare a poesia que me pare.
Doce é a seiva do tempo
seu fruto sumo
na língua...
Ah pélvis singularíssima
mãe de todos os superlativos
dança sensual das horas!
Quero a boca no seio
na cava
da palavra que diz a não-palavra
do silêncio
(esse estribilho que toca)
sinos e alambiques de cachaça
carne e gozoso espinho
luz
ressaca de vida.
Abri a carta...
A letra atávica
descosturou meus olhos.
Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada
um grão que seja de poeira
da tarde que eu quisera não findasse –
clave que me leia e não me explique
dor que não me mate e pacifique
este ás que dia e noite grita em mim!
RALO
A lembrança escoa e desce
como água e sabão
para o fundo do ralo
secreto – abissal.
Tão fácil ruir
em poucas palavras!
Indecifrável é
a água minguada
marulhar de espumas
pipocar de estrelas
cristais de luz e pele
medo de se afogar.
A vida rui
esvai-se e vai
desce em trago e gole
cálice e colo.
Mãos que se lavam
uma a outra.
GRAMÍNEAS
As ervas crescem no jardim e sobre os prados
por mais que as arranquem.
Crescem sobre o campo santo
como se tudo existisse
para findar em vida
ainda que vida não seja começo
nem fim das coisas.
Crescem como remorso
peso de consciência e culpa
com fúria e malquerença
por mais que as arranquem.
Quem disse que daninhas
não têm lugar em jardins e prados?
A morte
esta outra cínica como sua irmã
nega-se a si mesma em cada ato.
Há flores sobre a rocha
cena dura e carinhosa de se ver
uma vingança doce.
Este cheiro vem dos ciprestes?
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)






