DOMINGO EM SÃO PAULO
Esta cidade me pesa sobre os ombros,
vacilo em caminhar neste domingo
extenuada de fadiga
por tantos e tão altos prédios,
cheios de fios, encanamentos.
Ruas, árvores,
lona, plástico, papelão e zinco,
arremedos de casas
dos que nunca foram ao parque,
pretas de fuligem e poeira,
luxo e lixo.
Tanta massa de gente
desejante e ansiosa.
A qualquer hora chove
e não tem banheiro. Horror!
Tudo é inóspito,
sem espaço para riso e sonho.
A sensação é próxima da palavra desgosto,
que por escrúpulo temo pronunciar.
A cabeça enjoa no antigo pêndulo,
medo e susto,
susto e medo,
sem discernir o que seja
a Santíssima Vontade.
Sei que sois trindade,
não porque me ensinaram,
mas porque um Deus sozinho
gera o inominável terror.
A sagrada face do Filho me protege,
sua coroa de espinhos.
À prova de sequestros,
durmo no vão de suas cinco chagas.
O domingo anoitece.
Melhoro bastante, sinto menos frio.
Não recuso o remédio
que amorosamente alguém me põe sob a língua.
Descubro que sou amada
e não apenas por vós.
Parece rude, Altíssimo,
mas é que não tenho palavras.
Adélia Prado
(O jardim das oliveiras, Rio de Janeiro: Record, 2025.)

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