A tarde cai sobre os cajueiros
a tarde pintada de sangue
a tarde de sombra e de lágrimas.
Como um cão de guarda
um da prole vela o corpo no chão
outro toma as providências
outro corre para o nada.
Os três – órfãos pela primeira vez.
Dói tanto em quem não morreu!
No canto da boca um risco de sangue brilha
como nenhuma estrela é capaz de brilhar.
Então é isso?
Termina assim em líquido silêncio a vida?
A mulher – dor desmedida...
– Não quero ser consolada!
Vão chegando de longe os parentes
com vozes sentidas de pêsames e comiseração.
Os velhos amigos
(do tempo em que homem não chorava)
a chorar (como se isso fosse uma licença poética)
vêm se despedir e abraçar a família.
– Tinha sessenta e dois?
– Não. Sessenta e um.
– Parece que está dormindo...
– Como aconteceu?
– Tome um pouco de café!
– Conseguiu?
..............................
Já se passaram quantos anos?
Vida... como ousou continuar?
TELEFONE SEM FIO
– Teu pai morreu!
foi o que disse a voz sentindo pena
dele e da miserável orfandade
que o adotaria dali em diante.
– Teu pai morreu!
ouviu e ficou tão pequeno
os pés e as mãos pequenas
olhos e boca de menino
um nada em carne e osso
medo e abandono.
– Agora você tem que ser homem!
FILME MUDO
No sonho
a palavra não é dita...
é só silêncio
um silêncio macio
e risquinhos na tela
como naqueles filmes
mudos
de antigamente.
Não lembro se tem cor
– acho que é só preto e branco –
a porta se abre
ele entra e
nem sequer lembramos
de nós dois
quem morreu
quem está vivo.
ALFINETE
Atravesso a cidade em poucos minutos –
tão pequena que nem com lupa
dá pra ver no mapa...
Mas é maior que um pensamento
e existe grande no passado.
Com passos firmes amo e deixo
nem sequer volto o rosto
(como se ódio fosse o que é amor e medo).
Ficam para trás:
a rua da infância
canteiros de hibiscos
a escola pobre e aflita
um time de futebol
um punhado de amigos
o sítio dos avós
a casa branca escondida
algodoais tão eternos
que viram ainda pequena
a avó da minha avó.
Do alto da serra
antes da última curva e reta
a visão que eu teria
se fosse de olhar para trás.
Deponho este canto em seu colo
que por entre névoa se insinua
cabeça de alfinete
o que hoje é perda e ganho
caminho da minha aldeia
rio sem fim... rio grande
flor de fundo de quintal
e – se não perdi as contas –
mil cajueiros de lágrimas.
SALTO
A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi
como o céu está sobre a terra
o que quer dizer que eu sou eu
subsiste a ilusão do cosmos
a preceituar o caos
como as coisas de cima estão sobre as de baixo
sem que haja hierarquia nisso.
A imagem pétrea
é reminiscência ficcional
desenho fotográfico
matéria prima sólida mineral
esfera que apanhei na via costeira
areia e vento e litoral
um sonho potiguar.
A ponte de Igapó projeta
a sombra de sua alma férrea
no rio do meu amor
onde nadam camarões
e num salto acrobático perfeito
mergulha a minha alma
que não nada.
FOGÃO À LENHA
De repente chispa a luz
como quando Deus disse “faça-se”.
O crepitar
do fogão da minha avó
acorda o mundo.
Há alegria silenciosa em cada gesto
no cumprimento do caminho.
O abano
(este de palha que serve
para espanar brasas e apaziguar calores)
doma o fogo.
As tias velhas se juntam para opinar
falam em língua antiga
todas ao mesmo tempo e
espantosamente se entendem.
Eu sou criança nesta memória.
Nunca ninguém morreu.
Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:
mãos sujas de tisna... cheias de cinza.
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)

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