CERTAS
DELICADEZAS
Um homem delicado
deve ser qualquer coisa
entre pingo de orvalho
e gota de suor.
Algo se faça nele
entre a rotação da terra
e um abalo sísmico.
Um homem delicado
talvez faça poemas
e – quando não – os leia
ou mande flores.
Talvez não haja homens delicados
e tudo seja uma questão de cena.
JUÍZO
FINAL
O juízo virá
a esperança golpeada
se levantará
vai arribar a saia
rodar
e por último rir.
Com sangue nos olhos
em marcha
tomaremos a praça
e para cada segundo
roubado de nossas vidas
pediremos conta.
ÔNIBUS
Avança o ônibus
como uma lança
no coração de Jesus.
Penetra o mistério
de uma estrada sem fim –
– ainda que todas as coisas tenham fim
eu saiba disso e saiba
onde quero chegar.
As janelas são de vidro
como era de vidro o anel que
se quebrou.
Escura a via
boca de um lobo
ventre de baleia
arpoador.
A luz que me ilumina
nesta escura floresta de sentidos
é o sem sentido brilho
de uma tela...
Os meus dedos magros
mastigam teclas
pisam mundos
como quem pisasse nos astros distraída
se musa fosse ou Deus.
O que se faz nada mais é que
quebrar com as mãos
espaço e vento
até não haver tempo
de alguma coisa rimar.
Será esquecido o risco
sem deixar cisco
piscadela
farol
som de buzina
motor.
Que tudo se apague como vela!
ARCANO
De
outras entranhas outra vez nasci...
Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!
Mas tua boca nunca eu a beijei!...”
A esta estranha dama de El-Rey
Fiz uns poemas tristes como os de Anto.
A minha boca cega e o que canto
Perderam-se no tempo de outra lei.
E os seios da mulher que mais amei
Murcharam de espera... luto e pranto!
Guarda a dolência dos veludos caros
A nívea seda e os préstimos de Paros!
Guarda bem o cinzel da nossa dor!
O verso lindo e raro que fizeste
Aquele mesmo de arcano celeste
Não digas nunca – nem a mim – amor!
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)

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