sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

COISAS DE POETA


pixabay


CERTAS DELICADEZAS

 

Um homem delicado

deve ser qualquer coisa

entre pingo de orvalho

e gota de suor.

Algo se faça nele

entre a rotação da terra

e um abalo sísmico.

Um homem delicado

talvez faça poemas

e – quando não – os leia

ou mande flores.

Talvez não haja homens delicados

e tudo seja uma questão de cena.

 

JUÍZO FINAL

 

O juízo virá

a esperança golpeada

se levantará

vai arribar a saia

rodar

e por último rir.

 

Com sangue nos olhos

em marcha

tomaremos a praça

e para cada segundo

roubado de nossas vidas

pediremos conta.

 

ÔNIBUS

 

Avança o ônibus

como uma lança

no coração de Jesus.

Penetra o mistério

de uma estrada sem fim –

– ainda que todas as coisas tenham fim

eu saiba disso e saiba

onde quero chegar.

As janelas são de vidro

como era de vidro o anel que

se quebrou.

Escura a via

boca de um lobo

ventre de baleia

arpoador.

A luz que me ilumina

nesta escura floresta de sentidos

é o sem sentido brilho

de uma tela...

Os meus dedos magros

mastigam teclas

pisam mundos

como quem pisasse nos astros distraída

se musa fosse ou Deus.

O que se faz nada mais é que

quebrar com as mãos

espaço e vento

até não haver tempo

de alguma coisa rimar.

Será esquecido o risco

sem deixar cisco

piscadela

farol

som de buzina

motor.

Que tudo se apague como vela!

 

ARCANO

 

De outras entranhas outra vez nasci...

 

Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!

Mas tua boca nunca eu a beijei!...”

A esta estranha dama de El-Rey

Fiz uns poemas tristes como os de Anto.

 

A minha boca cega e o que canto

Perderam-se no tempo de outra lei.

E os seios da mulher que mais amei

Murcharam de espera... luto e pranto!

 

Guarda a dolência dos veludos caros

A nívea seda e os préstimos de Paros!

Guarda bem o cinzel da nossa dor!

 

O verso lindo e raro que fizeste

Aquele mesmo de arcano celeste

Não digas nunca – nem a mim – amor!

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

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