quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

REPENTINO TEMPORAL


pixabay

 

REPENTINO TEMPORAL

 

Posso escrever um poema hoje à tarde

sob a implosão do poente

– pendente o coração –

quando o sol tingir o céu

dizendo o que não cabe em palavra

ou tela...

(quando a noite adormecida

abrir seus olhos de pitomba).

A bordo o tempo se gasta

sílaba a sílaba...

O verso aporta.

Nenhum medo de morrer.

Nenhum medo de viver.

A lembrança

é uma flor de guarda-chuva

avessado pelo vento

em repentino temporal.

 

ÁS

 

Deito os lábios

sobre a fenda do tempo

que pare a poesia que me pare.

Doce é a seiva do tempo

seu fruto sumo

na língua...

Ah pélvis singularíssima

mãe de todos os superlativos

dança sensual das horas!

Quero a boca no seio

na cava

da palavra que diz a não-palavra

do silêncio

(esse estribilho que toca)

sinos e alambiques de cachaça

carne e gozoso espinho

luz

ressaca de vida.

 

Abri a carta...

A letra atávica

descosturou meus olhos.

Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada

um grão que seja de poeira

da tarde que eu quisera não findasse –

clave que me leia e não me explique

dor que não me mate e pacifique

este ás que dia e noite grita em mim!


RALO

 

A lembrança escoa e desce

como água e sabão

para o fundo do ralo

secreto – abissal.

Tão fácil ruir

em poucas palavras!

Indecifrável é

a água minguada

marulhar de espumas

pipocar de estrelas

cristais de luz e pele

medo de se afogar.

A vida rui

esvai-se e vai

desce em trago e gole

cálice e colo.

Mãos que se lavam

uma a outra.


GRAMÍNEAS

 

As ervas crescem no jardim e sobre os prados

por mais que as arranquem.

Crescem sobre o campo santo

como se tudo existisse

para findar em vida

ainda que vida não seja começo

nem fim das coisas.

Crescem como remorso

peso de consciência e culpa

com fúria e malquerença

por mais que as arranquem.

Quem disse que daninhas

não têm lugar em jardins e prados?

A morte

esta outra cínica como sua irmã

nega-se a si mesma em cada ato.

Há flores sobre a rocha

cena dura e carinhosa de se ver

uma vingança doce.

 

Este cheiro vem dos ciprestes?

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)

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