Dizer
qualquer coisa sobre um livro de Theo G. Alves é muito difícil para mim, do
mesmo modo que revelar-se-ia inútil para você, leitor!
Difícil para
mim porque sou tão próximo de Theo – como amigo e irmão – que não conseguiria
expressar algo isento da desmedida estima que nutro por ele e seus escritos,
desde os tempos em que éramos jovens acadêmicos nos círculos intelectuais do
Rio Grande do Norte dos anos 90. Inútil para você, porque não há coisa mais
protelatória que texto de outrem em livro de grande escritor, como é o caso do
autor deste Geografia do Abandono.
Assim, gostaria de, em poucas palavras, centrar-me naquela que é a
grande figura inspiradora desta obra – não só desta, mas também de momentos
sublimes da poesia de Theo – no que é dito por recriações ficcionais e licenças
poéticas, em propositais silêncios, lacunas e esquecimentos. Refiro-me à pessoa
não só para quem, mas por quem,
o livro foi escrito: Guilhermina Alves Costa.
Seu nome
deveria ser grafado em letras de ouro, mas, sendo o ouro perecível, faz-se aqui
do que não se acaba: puro afeto... amor. A Guilhermina, Geografia do
Abandono é muito justo e especialmente dedicado.
Esta grande
mulher, quase anônima como tantas almas simples a quem devemos a sustentação do
mundo, foi avó do autor e, por feliz ventura, também minha de consideração.
Quando eu
fazia a faculdade de Letras, morava em outra cidade e, por isso, nem sempre
podia voltar a casa todos os dias – tarefas da grade, atividades do movimento
estudantil, reuniões do centro acadêmico, o jornal literário que criamos e uma
infinidade de outros eventos culturais, sem contar as diversões boêmias. Nessas
ocasiões, muitas vezes eu ficava hospedado na casa de Theo. E desse tempo temos
uma história engraçada, quase anedótica.
Em uma das
primeiras vezes, vó Guilhermina – fazendo o que era e talvez ainda seja comum
no Nordeste do Brasil, puxar a árvore genealógica de alguém até onde seja
possível, para saber se este ou aquele é conhecido, se é parente longínquo ou
de boa família – perguntou de quem eu era filho. Disse-lhe, mas ela não
conhecia meu pai. Então, perguntou de quem eu era neto. “De Antônio Amaro,
filho do mestre Amaro”, respondi. Meu avô, já falecido naquela época, tinha
sido um homem excêntrico, deveras conhecido, artista em amplo sentido. “Ah”,
respondeu com perplexidade e sorrindo muito, “foi meu noivo!”.
Theo e eu
nunca soubemos mais detalhes dessa história, pois o pudor e o respeito não nos
permitiriam perguntar coisa alguma além do que ela mesma dissera. Mas dali em
diante tornei-me querido e seu neto também. A história ficou para sempre em
nossa memória e nos recordamos disso com muita graça.
Eu pensei
nessa efeméride, porque é uma memória suave e muito vívida, mesmo após décadas.
Diz, ainda, algo da emoção pessoal que experimentei ao ler este romance.
Geografia do Abandono é pungente,
um livro de delicadezas e socos no estômago. Tão fascinante que dificilmente
alguém conseguirá parar de ler depois de, advertida ou inadvertidamente,
iniciar sua incursão na obra.
O que mais eu
poderia dizer?
Antonio
Fabiano
Poeta e carmelita descalço

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