quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"TREMOR DE MÃOS": TEMPO E CONTEMPLAÇÃO

 

theo g. alves


"Tremor de Mãos": tempo e contemplação

 

– por Theo G. Alves

 

Convenhamos, caro leitor ou leitora, todo posfácio é uma injustiça com quem o escreve. Explico: tu, que acabaste de ler este livro, saberá de parte importante do que me passou ao lê-lo; eu, injustamente, não saberei o que passou a ti. À parte esta injustiça, sigamos em nossos caminhos já esclarecidos e sob o tácito acordo de que escreverei sobre o que já sabes, por isso mereço o perdão por ser redundante.

Começo, então, com uma pergunta: de quem são as mãos que tremem neste livro e por que tremem? Minha primeira pergunta são duas, aliás. Cinismo.

Tremem as mãos do poeta, tremem as mãos do leitor: porque o tempo singra pelos corpos de ambos, sem piedade alguma, e ao tempo não cabe ter piedade ou misericórdia de ninguém. Urge ao tempo passar, o que ele faz inexoravelmente. E este livro que acabamos de ler é, sobretudo, acerca do tempo.

E o tempo é também uma medida de vida e de morte. É a mensuração do cansaço e da memória diante da vida.

O poeta Antonio Fabiano parece ter compreendido esse tempo em largura e profundidade ao escrever os poemas deste “Tremor de Mãos”. Talvez não saibas, leitor ou leitora, mas vão aqui cerca de dez anos do primeiro ao último poema deste livro, que passeia pela quase comicidade de sua segunda parte e pisa com pés muito pesados na tensão da primeira e da última. E, convém dizer, que os dez anos usados para compor “Tremor de Mãos” foram muito bem utilizados, encontrando o poeta o corte milimétrico e necessário para um bom livro de poesia. Os poemas estão maturados, a voz afinada em tom preciso, a unidade encontrada: tudo o que exige um livro bem escrito.

Entretanto deves ter percebido que a observação do mundo, a contemplação das coisas, das pessoas e das sensações são o alimento fundamental desses versos. O poeta olha para o mundo como um “monge calmo a Cristo”, verso que roubo de Fernando Pessoa, por óbvio.

A contemplação – e tudo o que brota dela – compõe a argamassa que sustenta os poemas de “Tremor de Mãos”. Não é demais lembrar que contemplar é também uma maneira de dizer sobre o tempo.

É bonito para quem lê este livro surpreender o olhar contemplativo do poeta a ver um “repentino temporal” misturar-se com a magia dos velhos guarda-chuvas onde a poesia se esconde. Assim como é comovente vê-lo abrir, meditativo, o livro de um escritor que não está mais entre nós, senão por seu autógrafo e por suas ideias, o que – Fabiano sabe – é tudo o que precisava ser deixado.

O poeta, sei que percebeste, ousa mover-se de seu estado contemplativo para agir sobre a poesia, sobre a magia imagética e sonora de escrever poesia, invadida por pica-paus, bonsais e notícias de jornal. Tu deves ter visto como se move o olhar do poeta entre o passado e o presente diante do fingimento quanto ao álbum de retratos, que desnuda as famílias de uma maneira debochada, cômica e precisa:


“Aquela do canto

tentou suicídio uma ou duas vezes.

Este do meio trai a mulher

com quem está abraçado

como se fossem felizes para sempre...

(...)

Esta aqui é a mais infeliz de todas

embora não pareça!

É irmã daquela...

A outra se deu bem na vida...

Esta também... Já é avó!

Este ficou rico e mora fora.

Está no segundo casamento.

E aí está o poeta!”


Como já leste o livro, não vou me pôr a copiar muitos mais versos aqui. Quero antes cochichar impressões, leitor e leitora.

Que livro de poesias estaria completo sem um momento reservado para a perda, para o luto, estes dois animais apascentados pelo tempo? Afinal, desde que nascemos, é a partir da perda que nos construímos, seja a perda do seio materno, seja a perda da avó e do pai mortos, como enseja a natureza dos ritos: seguir-se uma geleira depois de um pôr-do-sol, uma geleira que é penhasco, é o caminho que o poeta escolhe e nos leva com ele até indagar: “– A esperança não se afogou?”

O ardiloso poeta tira seu leitor para brincar, para dançar: ri, rodopia, move-se rapidamente entre a graça e a dor. Ri de seu próprio sofrimento e nos convida a rir também, a olhar para o mundo, a contemplar as coisas miúdas e rir.

É assim que ele nos entrega o caminho para suas coisas de poeta.

Entre essas coisas, sobretudo o amor, cuja letra é aparentemente simples, quase cômica, capaz de ser leve ainda que profunda, como acontece aos que amam um poeta na extensão de seus versos. Está lá:


“vai me ler outras vezes – todo –

tantas que se o amor durar

vai me amar de verdade

...para sempre.”


O amor prometido, cúmplice, partilhado quase em segredo, como deve ser.

Os poemas da segunda sessão do livro, diga-se, reafirmam que este é um livro de olhares, de contemplação. Assim como deita olhos ao amor entre o leitor e seu poeta (ou seria entre o poeta e seu leitor), Fabiano compõe cenas curiosas, bonitas e bem-humoradas, seja através de um beijo roubado na chuva ou da gravidez acidental que faz parir um bebê não planejado. As brincadeiras também contemplam a letra P de Pedro e Paulo, além de “pedra” que se escreve como “poeta”, cujos maquinários constroem um alerta que nós, leitores, não podemos ignorar:


“Não confie muito em

coisas de poeta.”


Sobre a terceira e última parte do livro, confesso, é a que melhor me toma de assalto e, por isso, da que menos falarei. A melancolia delicada dos poemas desta sessão eleva o poeta/livro a outros e mais altos patamares. É o sofrimento do poeta que melhor o enriquece: seu olhar marejado para si mesmo, para o mundo, para o tempo e para a própria poesia.

Por isso me parece que este “Tremor de Mãos” não poderia terminar de maneira mais afiada, o que também demonstra claramente a expertise de Fabiano enquanto escritor, que se põe a compor um livro que é também trilha, conduzindo seu leitor e leitora para uma experiência a ser vivida lentamente, a fazer voltar ao livro tantas vezes, como se fosse a escrita de seu livro uma espécie de feitiço do tempo.

Por isso, ao fim, retornemos à lição maior do poeta, que repete singularíssimo, a lição que permeia todo o livro, toda a contemplação e todo o tempo:


“amo

amo”


E que assim seja.



(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)


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