theo g. alves
"Tremor
de Mãos": tempo e contemplação
– por Theo G. Alves
Convenhamos, caro leitor
ou leitora, todo posfácio é uma injustiça com quem o escreve. Explico: tu, que
acabaste de ler este livro, saberá de parte importante do que me passou ao
lê-lo; eu, injustamente, não saberei o que passou a ti. À parte esta injustiça,
sigamos em nossos caminhos já esclarecidos e sob o tácito acordo de que
escreverei sobre o que já sabes, por isso mereço o perdão por ser redundante.
Começo, então, com uma
pergunta: de quem são as mãos que tremem neste livro e por que tremem? Minha
primeira pergunta são duas, aliás. Cinismo.
Tremem as mãos do poeta,
tremem as mãos do leitor: porque o tempo singra pelos corpos de ambos, sem
piedade alguma, e ao tempo não cabe ter piedade ou misericórdia de ninguém.
Urge ao tempo passar, o que ele faz inexoravelmente. E este livro que acabamos de
ler é, sobretudo, acerca do tempo.
E o tempo é também uma
medida de vida e de morte. É a mensuração do cansaço e da memória diante da
vida.
O poeta Antonio Fabiano
parece ter compreendido esse tempo em largura e profundidade ao escrever os
poemas deste “Tremor de Mãos”. Talvez não saibas, leitor ou leitora, mas vão
aqui cerca de dez anos do primeiro ao último poema deste livro, que passeia
pela quase comicidade de sua segunda parte e pisa com pés muito pesados na tensão
da primeira e da última. E, convém dizer, que os dez anos usados para compor
“Tremor de Mãos” foram muito bem utilizados, encontrando o poeta o corte
milimétrico e necessário para um bom livro de poesia. Os poemas estão
maturados, a voz afinada em tom preciso, a unidade encontrada: tudo o que exige
um livro bem escrito.
Entretanto deves ter
percebido que a observação do mundo, a contemplação das coisas, das pessoas e
das sensações são o alimento fundamental desses versos. O poeta olha para o
mundo como um “monge calmo a Cristo”, verso que roubo de Fernando Pessoa, por
óbvio.
A contemplação – e tudo o
que brota dela – compõe a argamassa que sustenta os poemas de “Tremor de Mãos”.
Não é demais lembrar que contemplar é também uma maneira de dizer sobre o
tempo.
É bonito para quem lê
este livro surpreender o olhar contemplativo do poeta a ver um “repentino
temporal” misturar-se com a magia dos velhos guarda-chuvas onde a poesia se
esconde. Assim como é comovente vê-lo abrir, meditativo, o livro de um escritor
que não está mais entre nós, senão por seu autógrafo e por suas ideias, o que –
Fabiano sabe – é tudo o que precisava ser deixado.
O poeta, sei que
percebeste, ousa mover-se de seu estado contemplativo para agir sobre a poesia,
sobre a magia imagética e sonora de escrever poesia, invadida por pica-paus,
bonsais e notícias de jornal. Tu deves ter visto como se move o olhar do poeta
entre o passado e o presente diante do fingimento quanto ao álbum de retratos,
que desnuda as famílias de uma maneira debochada, cômica e precisa:
“Aquela do canto
tentou suicídio uma ou
duas vezes.
Este do meio trai a
mulher
com quem está abraçado
como se fossem felizes
para sempre...
(...)
Esta aqui é a mais
infeliz de todas
embora não pareça!
É irmã daquela...
A outra se deu bem na
vida...
Esta também... Já é avó!
Este ficou rico e mora
fora.
Está no segundo
casamento.
E aí está o poeta!”
Como já leste o livro,
não vou me pôr a copiar muitos mais versos aqui. Quero antes cochichar
impressões, leitor e leitora.
Que livro de poesias estaria
completo sem um momento reservado para a perda, para o luto, estes dois animais
apascentados pelo tempo? Afinal, desde que nascemos, é a partir da perda que
nos construímos, seja a perda do seio materno, seja a perda da avó e do pai
mortos, como enseja a natureza dos ritos: seguir-se uma geleira depois de um
pôr-do-sol, uma geleira que é penhasco, é o caminho que o poeta escolhe e nos
leva com ele até indagar: “– A esperança não se afogou?”
O ardiloso poeta tira seu
leitor para brincar, para dançar: ri, rodopia, move-se rapidamente entre a
graça e a dor. Ri de seu próprio sofrimento e nos convida a rir também, a olhar
para o mundo, a contemplar as coisas miúdas e rir.
É assim que ele nos
entrega o caminho para suas coisas de poeta.
Entre essas coisas,
sobretudo o amor, cuja letra é aparentemente simples, quase cômica, capaz de
ser leve ainda que profunda, como acontece aos que amam um poeta na extensão de
seus versos. Está lá:
“vai me ler outras vezes
– todo –
tantas que se o amor
durar
vai me amar de verdade
...para
sempre.”
O amor prometido,
cúmplice, partilhado quase em segredo, como deve ser.
Os poemas da segunda sessão
do livro, diga-se, reafirmam que este é um livro de olhares, de contemplação.
Assim como deita olhos ao amor entre o leitor e seu poeta (ou seria entre o
poeta e seu leitor), Fabiano compõe cenas curiosas, bonitas e bem-humoradas,
seja através de um beijo roubado na chuva ou da gravidez acidental que faz
parir um bebê não planejado. As brincadeiras também contemplam a letra P de Pedro
e Paulo, além de “pedra” que se escreve como “poeta”, cujos maquinários
constroem um alerta que nós, leitores, não podemos ignorar:
“Não confie muito em
coisas de poeta.”
Sobre a terceira e última
parte do livro, confesso, é a que melhor me toma de assalto e, por isso, da que
menos falarei. A melancolia delicada dos poemas desta sessão eleva o
poeta/livro a outros e mais altos patamares. É o sofrimento do poeta que melhor
o enriquece: seu olhar marejado para si mesmo, para o mundo, para o tempo e para
a própria poesia.
Por isso me parece que
este “Tremor de Mãos” não poderia terminar de maneira mais afiada, o que também
demonstra claramente a expertise de Fabiano enquanto escritor, que se põe a
compor um livro que é também trilha, conduzindo seu leitor e leitora para uma
experiência a ser vivida lentamente, a fazer voltar ao livro tantas vezes, como
se fosse a escrita de seu livro uma espécie de feitiço do tempo.
Por isso, ao fim,
retornemos à lição maior do poeta, que repete singularíssimo, a lição que
permeia todo o livro, toda a contemplação e todo o tempo:
“amo
amo”
E que assim seja.

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