Mostrando postagens com marcador Jardim das Oliveiras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jardim das Oliveiras. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de fevereiro de 2026

DOMINGO EM SÃO PAULO - Adélia Prado


by Pheladii

 

DOMINGO EM SÃO PAULO


Esta cidade me pesa sobre os ombros,

vacilo em caminhar neste domingo

extenuada de fadiga

por tantos e tão altos prédios,

cheios de fios, encanamentos.

Ruas, árvores,

lona, plástico, papelão e zinco,

arremedos de casas

dos que nunca foram ao parque,

pretas de fuligem e poeira,

luxo e lixo.

Tanta massa de gente

desejante e ansiosa.

A qualquer hora chove

e não tem banheiro. Horror!

Tudo é inóspito,

sem espaço para riso e sonho.

A sensação é próxima da palavra desgosto,

que por escrúpulo temo pronunciar.

A cabeça enjoa no antigo pêndulo,

medo e susto,

susto e medo,

sem discernir o que seja

a Santíssima Vontade.

Sei que sois trindade,

não porque me ensinaram,

mas porque um Deus sozinho

gera o inominável terror.

A sagrada face do Filho me protege,

sua coroa de espinhos.

À prova de sequestros,

durmo no vão de suas cinco chagas.

O domingo anoitece.

Melhoro bastante, sinto menos frio.

Não recuso o remédio

que amorosamente alguém me põe sob a língua.

Descubro que sou amada

e não apenas por vós.

Parece rude, Altíssimo,

mas é que não tenho palavras.


Adélia Prado

(O jardim das oliveiras, Rio de Janeiro: Record, 2025.)