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segunda-feira, 30 de maio de 2011

O ASSUNTO É EDUCAÇÃO...

Na semana passada escrevi a respeito da polêmica, que se levantou em todo o Brasil, em torno de um livro aprovado pelo MEC e impresso com dinheiro público para cerca de meio milhão de pessoas, onde se diz que é claro que você pode falar “Nós pega o peixe”, “Os menino pega o peixe”, “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, etc. O assunto, quando eu estudei linguística na década de noventa, já era lugar-comum. Nada original... Mas, agora, onde e como isso foi posto, ainda que tenha suas razões de ser para um grupo de linguistas (e fora eles não sei de mais ninguém sério que pense assim), mostrou-se bem “inadequado”. Especialistas, além de grandes nomes das nossas letras e inteligências nada pequenas, manifestaram legítima aversão. Se a polêmica em parte foi fabricada pela mídia, ninguém pode negar que a discussão é oportuna, apesar das afetações dos extremos de ambas as partes. O debate continua, mas não é dessa pérola – mais uma da gestão do ministro Haddad – que eu quero falar. O assunto agora é Educação...
Vocês ouviram falar de Amanda Gurgel? Sem nenhuma relação direta com o caso acima citado difundiu-se, pelo milagre da Internet, um vídeo em que a professorinha potiguar faz seu desabafo em nome dos educadores do Rio Grande do Norte, e que retrata bem a situação da Educação em quase todo o país. Não vou repetir a fala do vídeo, porque como esteve no topo dos mais acessados da semana e se tornou uma espécie de febre entre os internautas, presumo que meu leitor já o tenha visto pelo menos uma vez. É interessante o teor da discussão, além de musicalmente lindo o sotaque da minha conterrânea. Amanda Gurgel se exprime sem qualquer pretensão de se tornar a heroína de uma classe já por demais massacrada. Não quer chamar a atenção para si. Parece ser, realmente, uma pessoa séria. E o assunto, como eu já disse, também é sério. Seu discurso é coerente e totalmente centrado na realidade. Daí por que foi capaz de desmantelar a egrégia mesa que compunha a audiência pública do último dia dez de maio, na Assembleia Legislativa de Natal-RN. Amanda não traz, igualmente, novidade. Por isso, talvez, o impacto de nem mesmo ela entender a repercussão do protesto, ao cair na rede mundial. É o que todos sabem e muitos fingem que não está ali, nos espreitando: a triste e velha realidade de milhares de profissionais idôneos, que dão a vida pela melhor Educação possível, mas que recebem em troca baixos salários e péssimas condições de trabalho por parte dos governos que não lhes levam a sério nem lhes dão ouvido.
O discurso de Amanda me comoveu, pelo que tem de verdadeiro. Quase me fez chorar, porque é assim que sobrevivem muitos em nosso país de abissais desigualdades, demagógicas hipocrisias. Quando a Educação será prioridade, é o que nos perguntamos ao término de sua fala, partícipes de uma real indignação. E embora já tenhamos ouvido alguém chamar de heróis a big brothers do Brasil, no reality show da vida heróis para mim são pessoas como ela, como tantos outros professores que sofrem a deterioração de um sistema escolar que os desmoraliza, mas mesmo assim resistem de pé, com dignidade, e atuam no zelo de sua vocação.
O protesto de Amanda Gurgel se disseminou no mesmo momento em que intelectuais de gabinete fizeram coro – como Os Sapos de Manuel Bandeira – em torno daquele famigerado livro que põe em questão o verdadeiro papel da escola. Ela, porém, nos falou da nua e crua vida... Eu creio que cada grande homem ou mulher que há, também eu e você, nos tornamos possíveis pela ação de profissionais muitas vezes anônimos, que passaram pelas nossas vidas e dentro dos próprios limites fizeram o melhor possível. Pense hoje nos bons educadores. Envie-lhes gratidão, porque a merecem!


Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 30 de maio de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
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Para Maria da Apresentação

segunda-feira, 23 de maio de 2011

POR UMA VIDA MELHOR?

Vivemos num tempo de oximoros aberrantes. O certo é também errado, ou o errado é certo e tanto faz. Cada dia eu me sinto mais imbecil e ignorante. Agora, também, analfabeto. Ou não, já que tanto faz. O MEC acaba de lançar um livro em que diz que não precisamos necessariamente seguir as regras da gramática para falar de forma correta. Uma das autoras explica que a intenção é substituir o conceito de correto e incorreto (certo e errado) pela ideia de uso adequado ou inadequado. Não digo que quem procede assim está agindo de má fé. Até creio que há boa intenção nisso tudo, mas parte-se de um princípio equivocado – insustentável se posto à prova lógica, de um raciocínio mais acurado – que em longo prazo nos fará pagar um preço altíssimo.
Em nosso tempo nada pode ser “errado”, pautamo-nos pelas ideologias vigentes ou da moda dos últimos decênios, optamos por seguir a lei do menor esforço ou a não-lei. Não podemos dizer não, é proibido proibir (sentença esta que traz em si mesma a própria negação), cada um é sua lei, seu deus e juiz absoluto. O relativismo que já foi entronizado na moral, na ética de nossa sociedade, na filosofia, na política, em quase todas as ciências, bem como na estética, nas artes – confira os impasses artísticos e a crítica contemporânea, e note que a quase toda “coisa” produzida nos últimos tempos é não poucas vezes conferido o status de arte com louvor – não poderia deixar de entrar também na língua. Na língua dos brasileiros, obviamente. Assim, algo horrível como a gramática normativa (a que estabelece normas, o padrão linguístico, a sua sistematização), não haveria de passar impunemente por toda essa borrasca, sendo antes tida como caso intolerável ao nosso gosto subjetivista e à nossa preguiça de aprender ou ensinar, isto é, de dar educação de qualidade, um direito de todos. A transgressão presente em diversos níveis da sociedade e até encorajada por instituições outrora norteadoras (neste mesmo mundo onde a futilidade é ovacionada e valores são copernicanamente invertidos), levada às últimas consequências, acabaria por também legitimar coisas execráveis para nós como a impunidade e a violência. Mas não se percebe isso com facilidade, nem é o que queremos ver, ainda quando adotamos atos incongruentes, cujas consequências até somos incapazes de mensurar. Não está na moda pensar, mas de quem fala por e sobre muitos, exigimos o dever da responsabilidade.
O livro referido pertence à coleção Viver, Aprender... e intitula-se “Por uma vida melhor”. Assim seja. Mas, curiosamente, isso se difundiu e se difundirá em escolas da rede pública. E não creio que em algum concurso ou vestibular tal falácia vá ser levada a sério.
Sabemos que em qualquer língua ou cultura do mundo há discrepâncias entre a oralidade e sua escrita, isso é comum e até viável. Mas reconhecer que há diferentes formas de falar, e ter em relação a tal fato a devida flexibilidade, inclusive abolindo todo preconceito e buscando compreender os mais variados fenômenos linguísticos, não nos dá o direito de endossar a institucionalização do que é visível deficiência educacional – esta, sim, injusta – tão patente em nosso país, onde governos se vangloriam do crescimento estatístico da escolarização e progressiva erradicação do analfabetismo, e nos deparamos mesmo no ensino superior com pessoas que sequer sabem conjugar os verbos mais elementares ou escrever um texto legível em sua própria língua.
É sofístico acreditar que está certo falar uma língua de qualquer jeito, desde que a comunicação se torne possível, e que proceder dessa forma é promover a inclusão social etc. Esse critério absurdo, além de ameaçar a unidade linguística de um povo de dimensão continental que miraculosamente fala o mesmo idioma (com sotaques e expressões próprias, o que é enriquecedor, natural e bonito), promove o que já chamaram de “apartheid” no campo semântico. Diminuir as diferenças sociais, abolir preconceitos, não se faz pelo caminho da irresponsabilidade de quem tem o dever de dar escola e educação de qualidade a todos. Não sei de nenhum lugar do mundo onde tenha ocorrido algo semelhante a essa procedência tristemente abonada pelo MEC.
A veiculação deste livrinho poderia parecer irrelevante, e a fúria de alguns intelectuais desproporcional. Não. Seu conteúdo demagógico – também denunciado pela Academia Brasileira de Letras – quer de fato validar o erro, como se dissesse que para ricos e bem formados três vezes três é nove, mas para pobres tanto faz. O desdobramento de tal relativização nos afronta e fere a própria razão de ser do idioma. Mas é um bom álibi para justificar nossa incompetência educacional, o fracasso da Educação em diversas instâncias, sobretudo no ensino da língua pátria onde, atualmente, se aprende mais a odiar clássicos da literatura, através de mutilados textos, que propriamente gramática.

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 23 de maio de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com