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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

TRIBUNA DE PETRÓPOLIS - CANCIONEIRO DA TERRA por FERNANDO PY



TRIBUNA DE PETRÓPOLIS
Sexta-feira, 1 de julho de 2016

LITERATURA

FERNANDO PY

CANCIONEIRO DA TERRA

Cancioneiro da terra, de Antonio Fabiano (Mossoró: Sarau das Letras, 2014). Terceiro livro de poesia do autor, celebra, principalmente, a terra em que nasceu (Paraíba) e aquela em que cresceu e vive (Rio Grande do Norte). O livro se divide em sete partes, nas quais o poeta demonstra notável domínio do verso e da arte poética. A parte inicial (em línguas de pedra e fogo ou em línguas de anjos) é toda erguida em sonetos decassílabos, alguns de esplêndida fatura, como “Alma Poti”, “Senhora da manhã” e “Alma do vaqueiro”. Pode parecer ao leitor que o poeta se contente com seus versos metrificados, porém esta impressão é errônea, não só pelos versos livres bem construídos, mas também por um belo exemplo de poema fixo, o canto real, ao fim da sexta parte. A segunda parte (Em línguas de rios) é composta apenas de dois poemas: “Águas do Potengi” e “Acauã”. Potengi e Acauã são rios que pertencem ao Rio Grande do Norte, e o poeta os revive com amor e saudade, em versos basicamente de redondilha menor. Os doze poemas da terceira parte (em línguas de asas ou aves de arribação) são escritos em versos livres. É interessante observar que, em geral, os poemas de Fabiano se reportam ao passado, mas um passado cuja recriação traz ao conjunto do cancioneiro um travo de melancolia, visto que, além de serem cântico de exaltação à terra, marcam fundamente as recordações do poeta, sobretudo em tom saudoso. Nas quatro partes finais do cancioneiro podemos enxergar com clareza esse tom melancólico. Tentando recompor as tradições dos antepassados, o poeta percebe que ele próprio é um desterrado, conforme se vê nos poemas da última parte (Em línguas avoengas), especialmente em “Rito ancestral” e “Talvez os mortos voltem”. E o poeta realiza enfim seu cancioneiro apoiando-se em outra tradição, a tradição poética, por exemplo, quando intertextualiza Drummond no primeiro verso de “Perfeição”: “A lembrança de minha terra dói”. Pelo que podemos avaliar, este Cancioneiro da terra indica um poeta de obra cada vez mais importante, uma obra poética que há de ocupar uma posição de destaque na literatura brasileira contemporânea.
Recebemos e agradecemos: Jornal da ANE Brasília, ano XI, nº 69, abril 2016; ano XI, nº 70, maio 2016.

_______________
FERNANDO PY
Poeta, colunista e crítico literário, redator e tradutor brasileiro. Traduziu, dentre outros títulos importantes, a monumental obra proustiana “Em Busca do Tempo Perdido”.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

AUTORES & LIVROS

Nhesu Ha
Nhesu, tendotá Guarani, oñorãiróva pe i hente, hekó
ha ijyvy rehe hápe, petei tenondeté ojokó vaekue pytã kuera pe
pe ymã XVII Sa pe, ko ágã pea Ojapova kuera rendá - RS
_______________

Autores & Livros
Inês Hoffmann e Nelson Hoffmann

Antonio Fabiano é uma revelação. Poética. Para nós. Recebemos Cancioneiro da terra, poemas. Lemos, guardamos, tornamos a ler. Pouco depois, ainda degustando o livro, recebemos Nas pontas dos pés, novos poemas. Este com o aval de Ferreira Gullar. Da leitura de ambos, ficamos com uma estranha inquietude de ligação Terra-Céu, num mundo estranho de calcinação e sofrimento. Até William Blake, com seu The marriage of heaven and hell, nos passou pela cabeça. Antonio Fabiano é poeta de essência, o acidente é invólucro. Atente-se, de verdade, para esse nome. Quem tiver um mínimo de chance de ler algum poema dele, não perca a chance, leia, medite, releia.

Nhesu Ha / O Nheçuano

Ano 6 - Número 27 - Roque Golzales, RS - Agosto/Setembro 2015  

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

BURILADA LIRA

"Da poesia de Antonio Fabiano, dedilhei versos esparsos. E me parece, pelo que espreitei, poeta senhor do ofício, de uma talhada, burilada lira. Ou melhor, de uma “lira luminar de três mil sóis” [no poema “Lira e toada”]. Que coisa bela!"
Dércio Braúna
Jornal O Mossoroense
22 de Fevereiro de 2015

sexta-feira, 6 de março de 2015

TERRA, RIO, POESIAS E CANÇÕES - Chumbo Pinheiro


TOQUE - LIVROS E CULTURA

Hoje abro espaço para uma resenha do crítico Chumbo Pinheiro, o pseudônimo de Luís Pereira da Silva, que é ensaísta, Bacharel em História pela UFRN, cursa Ciências Sociais na mesma Universidade. Autor de Alguns Livros Potiguares (ensaios) e coautor do livro Nei Leandro de Castro - 50 anos de Atividades Literárias.

Carlos de Souza 
[fcarlos@tribunadonorte.com.br]

Publicação: 04/03/15

Terra, rio, poesias e canções
Chumbo Pinheiro

As divisas geográficas da Paraíba e do Rio Grande do Norte mostram-nos que entre estes dois estados brasileiros existe uma interterritorialidade. O Rio Grande do Norte adentra a Paraíba e a Paraíba o Rio Grande do Norte. A terra se irmana num entrelaçamento geográfico aproximando-se além do físico relevo, do clima, da hidrografia, mas também na arte e na cultura fortalecendo suas relações fraternais.
A terra potiguar se orgulha de ter registrado entre seus poetas a paraibana Zila Mamede. Aqui Zila se encantou e encantou-se. Conjugou solidão, amor, terra e mar em versos que navegam pelo Brasil inteiro. Zila sertão, agreste, mas, sobretudo mar. Mar natalense.
Chega-nos a poesia de outro paraibano de coração potiguar. Este traz em suas mãos, por entre os dedos, os grãos da areia, o pó da terra que compõe o chão sertanejo de onde nascem suas canções como raízes que se fortalecem e crescem sob o sol abrasador e o clamor pela chuva. Ei-lo inteiro, no soneto ALMA POTI: “Em chãos da Paraíba eu nasci / Mas cedo vim morar no Rio Grande. / Minh’alma fez-se então monja poti, / Aberta a toda sina que Deus mande.” Terra de chuva escassa, mas berço onde nasce o rio que dá nome ao estado. Nasce em Cerro Corá, terra que acolheu o poeta, e cortando cidades segue seu rumo, abriga o porto de Natal que recebe navios que vão e vêm, além-mar, deixando saudades e levando lembranças. O olhar do poeta traz uma perspectiva nova aos que cantam o Potengi já desaguando e encantando com o seu pôr do sol. Ele o vê da nascente aonde “Nas águas cálidas / Do Potengi / Vai rosa flor / Boiando... / O rio desce serras / Cruza montes / Molha pedras / Abre chãos...” (ÁGUAS DO POTENGI).
A poesia de Antonio Fabiano nasceu ali no sertão com a força e a sensibilidade do sertanejo. Uma poesia feita com inspiração, mas também com rigor metódico e estudo singular. Abre o livro com sonetos, muito bem analisados pelo prefaciador Wilson Azevedo “... Cancioneiro da Terra revela um poeta em pleno domínio do verso...” e seguem-se seis partes as quais como a primeira trazem o substantivo LÍNGUA em seu título, denotando a fala, a expressividade sonora, vocal e espiritual da natureza e da pessoa humana. Dos sonetos ao verso livre, deste ao canto e a écloga (poesia pastoril dialogada pelos campesinos, nos versos do poema AVE CORAÇÃO há essa proximidade), formas antigas que o autor reaviva dando sentido ao título da obra: Cancioneiro da Terra, conjunto de formas poéticas reunidas em um só livro, demonstrando um diálogo hoje cada vez mais intenso do homem contemporâneo e sua arte, com a arte moderna, com o passado e a história.
A diversidade das formas não compromete o autor e nem a obra. Ao contrário, põe o leitor diante da trajetória da própria poesia. Não de forma cronológica, uma que vez, as formas antigas estão inseridas em seu conjunto. Das línguas de pedra e fogo ou línguas de anjos até as línguas avoengas, notamos o encontro do poeta no seu tempo a dialogar com os seus antepassados, com a esperança e a fé sertaneja na vida permanente do rio, no sonho de asas das aves de arribação, fé e esperança nos homens e na chuva que venha talvez do mar e nas lembranças avoengas.

Publicou-se na Tribuna do Norte em 04 de março de 2015
http://tribunadonorte.com.br/coluna/2023

quinta-feira, 5 de março de 2015

101 LIVROS DO RN por Thiago Gonzaga

101 Livros do RN (que você precisa ler).
Três anos divulgando a literatura potiguar na Web!


Livro do mês.*


Surpreendeu-me positivamente a leitura da obra “Cancioneiro da Terra” do escritor Antonio Fabiano. Acredito que é um dos melhores livros de poemas publicados nesses últimos anos em terras potiguares. Nos poemas, o autor demonstra sensibilidade e muita inspiração aliada à composição e ao trabalho com a arte das palavras.
A poesia de Antonio Fabiano tem gosto de chão, tem apelo, sentimento telúrico. De anseio e cuidado pela arte poética. Em “Alma Poti” o poeta canta a sua missão; em “Encanto”, surpreende-se com as maravilhas da natureza; em “Alma do Vaqueiro”, ele canta a solidão e o sofrimento do vaqueiro. Detalhe: na grande maioria, os poemas, foram feitos em uma forma clássica, ou seja, o soneto.
Todavia, variando as formas, Antonio Fabiano expressa suas ideias, emoções e inquietações, constituindo um rico acervo poético. E consegue interagir com outras pessoas, pela linguagem que utiliza.
O seu trabalho está recheado de plurissignificações; os poemas carregam em sua essência sensações e valores do eu lírico, e o significado de que tudo vai sendo construído de modo a provocar, despertar o leitor. Sua preocupação com a feitura dos poemas, com a organização do texto, evidencia a função poética da linguagem, e deixa clara a intenção estética do trabalho.
O jovem poeta começa sua trajetória literária com bastante eficiência e muito valor.

*Thiago Gonzaga é pesquisador, especialista em literatura potiguar pela UFRN.

Fonte: http://101livrosdorn.blogspot.com.br/2015/02/livro-do-mes.html
Publicado na quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A TÍTULO DE ARREMATE

A TÍTULO DE ARREMATE
Clauder Arcanjo
clauderarcanjo@gmail.com

Para Antonio Fabiano

Ouço os versos do Cancioneiro da Terra
E sinto que há sertão na calçada
Na praça calada, na frente da casa fechada
No olho cego da multidão muito assustada
No bem-te-vi festivo e sempre (in)oportuno
No beiral da mansão quase orquestrada
No salão de festas, cheio e vazio de fadas
No queijo ofertado na mesa grande e farta
No assobio do vigia clamando pela madrugada
No rouxinol invisível, perdido no verão assombrado
Na rapariga que caminha cambiante; hoje, assexuada
No jornal que cospe sangue nas páginas dobradas
No matuto que há dentro mim, apesar de amansado.
Leio e releio a poética de Cancioneiro da Terra
E... pressinto que há canção nesta saudade alada.


Jornal O Mossoroense
em 11 de janeiro de 2015

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

TARDE DE AUTÓGRAFOS NA ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS

Este livro é meu...

...e esta mão é minha!

 Em autógrafo...

 Antonio Fabiano, Iara Maria Carvalho, Leonam Cunha, David Leite

Rizolete Fernandes e Antonio Fabiano


Com membros da Ordem Terceira do Carmo

Há pouco cheguei de Natal. Dia 21 de janeiro aconteceu, como estava previsto, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, o lançamento do Cancioneiro da Terra. Confesso que não queria, resisti bastante, por timidez e apatia, além de considerar-me absolutamente indigno da honra que é lançar um livro naquela egrégia casa. 
David Leite, um dos editores da Sarau das Letras, e o forte aliado Paulo de Tarso Correia de Melo, poeta, demoliram uma a uma as minhas ressalvas, com o terrível poder de persuasão que ambos têm. O evento foi formidável, especialmente pela possibilidade de haver encontrado tantas pessoas!...
Em primeiro lugar quero agradecer aos nomes que citei, pela amizade e atenção. Do mesmo modo quero manifestar minha gratidão aos também amigos empenhados no evento: Leonam Cunha e Rizolete Fernandes. Esta, figura tão encantadora, nome de grandíssima importância das letras do meu estado, dignou-se, durante todo o evento, ficar na recepção, acolhendo os que chegavam com as doações que foram enviadas ao Lar da Criança Pobre de Mossoró. Não precisariam entrar, para ver este, os que ali chegassem; mais que suficiente era entreter-se com a incrível e iluminada mulher!
Obrigado a todos que passaram por lá: Socorro e Brito e Silva, que trabalharam com excelência na capa e no projeto gráfico do livro; diversos escritores, próximos e muitos dos quais eu até então só os conhecia de renome; membros da Academia; velhos amigos, conterrâneos meus da cidade serrana de Cerro Corá; de Currais Novos; de Acari; de Mossoró; de outros estados, como os carmelitas da Ordem Terceira do Carmo que souberam do evento pela imprensa e até lá foram, num gesto fraterno muito bonito; amigos e leitores de Natal. Muito obrigado!!!
Em tempo: fui ao Rio Grande, antes de tudo e principalmente, para celebrar os noventa anos da minha avó Ignácia Igná Dantas. “Vocês e seus anos eternos!”, diz-me um amigo, sobre a longevidade dos membros da minha família.  “Não viverei tanto!”, adianto.
Após o lançamento do livro fui caminhar, alta noite, pela orla de Ponta Negra, aonde sempre vou, quando estou em Natal.   

sábado, 27 de dezembro de 2014

ALGUNS POEMAS

LIRA E TOADA

Nestes lençóis de águas minerais
Jaz toda a sede em fúria do universo.
No mais profundo azul dorme o reverso
Espelho das auroras boreais.

Nenhuma vaga estampa essa toada
Feita da falsa imagem de batéis.
A pedra escura e funda ao revés
É um olho grande em rota malsinada.

Em soluço de choro extenuado
Um avesso de terra – um descampado
Morre a tecer rendilhas nos lençóis.

Ali não brilha luz nem o inverso
Jaz toda a sede em fúria e nela ingresso
Com lira luminar de três mil sóis.

  
CANCIONEIRO

Vem a noite serena sobre a terra
Em branca nostalgia – negro vão...
O homem sertanejo que espera
As chuvas de inverno abre a mão

E harpeja na viola da esfera
A música sagrada do seu pão
Com ritmo de água que na serra
Compõe cancioneiro – coração.

À noite quando chora o sertanejo
Na tábua de silêncio do seu chão
Brotar faz esperança do desejo...

E reza pela chuva que bem tarda
Mas que um dia chega – salvação!
E dorme na espera sempre larga...

  
NOITES SERTANEJAS

Lá pelos tabuleiros à noitinha
Tudo é escuridão. Só lampião
Faz-se acender na treva do Sertão
Onde alumia fogo sem bainha.

Bem longe cantam céleres os grilos
Num cri... cri... cri... intenso e martelado...
Cantam no lago os sapos do outro lado...
Eis a noturna orquestra em estribilhos!

Quando o véu negro a paisagem cerra
Inusitadas vidas ganham asas
Por todas as paragens d’além casas...

São os filhos das noites sertanejas
Que saem para as brisas benfazejas
Da luz que escuridão nenhuma aterra.

  
PILÃO

Os campos férteis, largos de fartura,
Ostentam as bandeiras verdes. São
Os milharais prolíficos. Fatura
Do homem campesino. Acordeão

Demarca o fim da ira e seu sobejo...
A terra dá à luz – ressurreição –
A vida que ocultava em seu desejo.
Milagra todo o pasto!... Grão a grão

Espigas vão encher nossos celeiros,
Trazidas pelos braços dos ceifeiros,
Moídas pela máquina – pilão.

As vozes da colheita nos roçados
Alvissareiras cantam entoados...
Na mesa posta reina o grande pão.

  
ÁGUAS DO POTENGI

Nas águas cálidas
Do Potengi
Vai rosa flor
Boiando...
O rio desce serras
Cruza montes
Molha pedras
Abre chãos...
O rio nasce e cresce
Corre e brilha
Faz mil curvas
No que trilha
Mas não para
Nunca para
Para não...
Pescam no rio
Amam no rio
Nadam no rio
Morrem no rio...
E ninguém ousa
Apoderar-se
Do mistério
Deste rio
Atravessar
Querer tocar
A um só tempo
As suas margens
E outra margem
A pedra nua
O afogado
Seu bailar...
O rio é grande
E prateado
Leva e traz
Barcos pequenos
O meu sonho
A minha dor
Vai sussurrando
Em seu silêncio
Aquele amor...
Vai rosa flor...
Minha canção...
Cerro Corá
(meu coração)
Até Natal.

  
ACAUÃ

Acauã
Não é apenas uma lembrança
Perdida em meu passado
Antigo.
Doce rio sereno
Mais que um nome
A banhar Acari.
Margem viu passar
Em sua bainha
De rio – areia –
Meus avoengos.
Sonho novo
De águas mansas
E um espelho
De saudades...
São correntes
Que mais prendem
Quando soltam e
Prendem mais.
Acauã
Meu triste canto
De afogado
Em teus encantos...
As estrelas
Refletidas
Nas tuas águas
A boiar...
E boiadas a passar
Cavalo cavalaria
Água morna a tremular...
Minha quinta avó
Cismada,
Sim, matrona sertaneja,
Espada em punho a brilhar...
Acauã
Rio de agora
Que me vê
Peito apertado
Terras minhas
De águas minhas
O meu rosto esfacelado
No teu rosto
A flamular...

  
VIII
ERRÂNCIA

Toda essa tarde
Em bandos passam...
Visão de amores
Ânsia e chegar...

Damas saudades
Almas errantes
A nostalgia
De algum lugar...

  
X
TEOREMA

Trazes no bico
Ave pequena
Uma esperança:
Nunca chegar...

Trazes no bico
Um canto triste
Um canto surdo
Voo e calar...

Trazes no bico
Flor flutuante
Um teorema...
Será amar?

  
CIGARRO DE PALHA

Do alpendre da sua casa
À boca da noite
O homem acendeu
Seu cigarro de palha
Acendeu
A luz da lua
Sobre os cajueiros
Da Serra de Santana
Acendeu
Os lampiões a querosene
Nas casinhas dos grotões
Vaga-lumes
Os postes
Da cidade
As luzes
– elétricas –
Da rua
Próxima e distante
O planeta azul
A Via Láctea
Estrelas
Todos os corpos celestes
Luminosos
Do universo
Inclusive
O da sua mulher
Que não estava tão longe.

  
FOTOGRAFADO

Madrugada de feira em Currais Novos
Alguém de entre as vozes perguntou:
– Ô seo Galvão, tem cauvão?
Ao que se respondeu
Em disparada simplíssima e natural:
– Cauvão tem não, seo João!

O dia acampou na banca
Veloz como um clique e flash
Feito tisna e encantamento.

  
CARACOL

Sou filho do sol
E sei d’onde vim
Nas águas do mar
Dispus-me a amar

Dispus-me a amar
Em salto acrobata
Reinei para o ar
Ditoso a cantar

Ditoso a cantar
Barquinho perdido
Na terra da flama
Do fogo que assoma

Do fogo que assoma
Mistério sem fim
Amor caracol
Sou filho do sol.

  
DIA ENSOLARADO

Como um imbu maduro
O sol caiu do céu
Bateu no lombo de um dromedário
Rolou a duna
Quicou na água da praia
Iluminou toda a cidade
De Natal.

  
CANCIONEIRO DE VELHAS CANÇÕES

Cancioneiro de velhas canções
Antigo baile obscuro
De evocação...
Vozes já mortas
Valsas não dançadas
Coisas herdadas
Às deslembranças
Do coração.

FABIANO, Antonio. "Cancioneiro da Terra". Mossoró-RN: Sarau das Letras, 2014.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

PREFÁCIO de CANCIONEIRO DA TERRA por Wilson Azevedo

 PREFÁCIO

Por qué los árboles esconden
el esplendor de sus raíces?
Pablo Neruda
                                                                                                                       


Cancioneiro da terra é o terceiro livro de poesia que Antonio Fabiano traz a lume, depois de Sazonadas e de Girassóis noturnos, publicados no Rio de Janeiro, em 2012, pela editora Taba Cultural. E seriam muito mais, não fosse o próprio autor seu crítico mais impiedoso, rasgando e lançando à fogueira centenas de poemas que só poderiam ser de fato avaliados por uma visão exterior. [1]
Esse Cancioneiro escapou às chamas, para o enlevo daqueles que apreciam poesia e, especialmente, de quem conhece seu autor. E, certamente, o poeta o salvou por ser este um inventário de seus mais caros afetos: o canto telúrico à terra da qual teve de se ausentar.
Dividido em sete segmentos (da língua dos anjos até as línguas avoengas), Cancioneiro da terra revela um poeta em pleno domínio do verso, pois o primeiro desses segmentos é composto por quatorze sonetos metrificados em decassílabos. E a primeira impressão que se tem desse processo metrificador é que o poeta quer provar o domínio de uma técnica de versificação, qual aqueles modernistas que, depois de cometer “desvarios” como os conhecidos “Sapos” de Bandeira, voltaram a escrever poemas rimados e comportadamente metrificados; sonetos, inclusive.
Mas essa impressão se desfaz no conjunto do livro. Não por aqueles poemas em versos livres, mas exatamente por outro de forma fixa: o canto real [2] em que o poeta fixa a tradição, para dizer que ela morreu e ficou circunscrita àquela forma antiga de fazer poema.
Antonio Fabiano não precisa provar nada, pois se assim quisesse, já o teria feito em Sazonadas com o soneto “Infinito”, digno de figurar entre o que de melhor se produziu no gênero. E mesmo um poema longo como “Serpente emplumada”, de Girassóis noturnos (em versos livres que se estendem por mais de vinte páginas), impressiona pela contenção do verso.
A forma fixa, então, se explica por uma necessidade da estrutura do livro. A primeira parte, composta de sonetos, tem como fim: a) a fixação do sujeito poético: primeiramente, na terra em que nasceu, a Paraíba; depois, na qual foi transplantado ainda criança, o “Rio Grande”; b) a descrição da terra que, afinal, é indivisa: “Nordeste é o mundo inteiro!” (Poema para Francisco J. C. Dantas); c) o inventário das tradições de sua terra (religiosas, culturais...).
Já o canto real (de tradição antiga) é a forma pela qual o poeta evoca os seus (nossos) antepassados. É um modo de expressar a tradição das fórmulas mortas. E é a partir daí que o sujeito é desterrado do seu chão: “Minh’alma deslizou por sobre os mares”.
Esse deslocar errante em tudo contrasta com a primeira parte (Em línguas de anjos) onde estão fincadas as raízes do sujeito poético (por nascimento ou transplante), e reforça toda uma instabilidade do ser já explorada nos poemas em verso livre (em línguas de rios e em línguas de asas, principalmente).
E aqui vale uma observação sobre o tempo do livro. Do conjunto dos quatorze sonetos do segmento “em línguas de anjos”, apenas os sete poemas iniciais expressam-se no presente, predominando o passado, a partir do oitavo, e assim no restante do telúrico Cancioneiro.
E é exatamente em decorrência da predominância do tempo passado, que dizer de Cancioneiro da terra que ele é um livro telúrico seria apenas uma tautologia, pois é esse passado que lhe empresta uma sombra de melancolia. Assim, o Cancioneiro não é apenas telúrico, mas de um telúrico melancólico, pois esse livro vai muito além de um canto de exaltação ao solo: “Em chãos da Paraíba eu nasci, / Mas cedo vim morar no Rio Grande.” Ele não é telúrico apenas no sentido de que é um poema enraizado na terra das lembranças do poeta: “Lancei raízes nesta terra Norte... / Daqui sou filho — alma e coração!”
Isso porque ao inventariar as tradições ancestrais, na busca de suas raízes, o sujeito poético dá-se conta de que é ele próprio um desterrado: “Expatriado é o que eu sou” [...] “Folha de árvore que se soltou” (Talvez os mortos voltem). Assim como em todo o segmento “em línguas de asas”, em que ser degredado não é atributo apenas do sujeito poético, mas do sujeito moderno, embora sem menção explícita a ele, que perdeu suas referências, suas raízes; que não é mais capaz de fincá-las em lugar algum: “São as filhas degredadas do universo” (A chegada).
Dessa forma, telúrico (no sentido do livro) significa uma comunhão com a terra; não a prometida, mas a perdida, onde as raízes que de fato importam são as dos ancestrais (avoengas), pois, diferente dos versos de Neruda, esse Cancioneiro não esconde suas raízes. Elas continuam lá; as árvores é que feneceram, como em “Talvez os mortos voltem”:

“Talvez os mortos voltem
Com suas ilusões de vivos
E eu os ouço à noite
Em seus gemidos.
Nada sobrou dos bens antigos
[...]
Bem inventariados em papel
Que agora as traças comem”.

Outro poema que expressa bem esse telúrico melancólico é “Perfeição”:

“[...]
O que sei e guardo
É o frescor da manhã
O canto das rolinhas
O cheiro do curral
Leite quentinho
E meu indizível avô
Ainda vivo.
Mas outro nome pra isso é perfeição!
[...]”

Isto é, a “perfeição” ficou no passado, perdeu-se no tempo da infância, de quando o avô ainda estava vivo.
E ao circunscrever seu Cancioneiro (no caso desse poema, a “perfeição!”) no passado, o poeta também se insere em uma outra tradição (a que mais importa agora): a tradição poética. Pois é também nesse poema no qual se percebe aquilo que se convencionou chamar de intertextualidade, explícita no primeiro verso, numa clara referência a Drummond: “A lembrança de minha terra dói”; ou ao rio que passa na aldeia de Pessoa: “E agora eu sei que o sol das outras terras / Não é / Como o daqui”.
Parafraseando nosso poeta maior, qualquer leitor (desterritorializado ou não) pode ler este Cancioneiro e dizer: “minha terra é apenas uma fotografia na parede mas como dói”.

Wilson Azevedo *


[1] Refere-se ao episódio de julho de 2012, o qual narrou-se em bem-humorada crônica, aqui mesmo no blog, sob o título de “Julho em Chamas”: http://antoniofabiano.blogspot.com.br/2012/07/julho-em-chamas.html

[2] Canto real (chant royal) é uma complexa e rara forma fixa de origem francesa, composta geralmente de cinco estrofes de onze versos com o mesmo bordão final e um remate (envio ou oferta), além de rigorosa metrificação e rimas determinadas. Surgiu no século XIV e foi bastante cultivado até o século XVI. É uma espécie de variação da balada e absolutamente incomum em nossos dias. (N. do B.)

* Wilson Azevedo é intelectual potiguar e crítico literário.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

CANCIONEIRO DA TERRA por Paulo de Tarso Correia de Melo

Este Cancioneiro da Terra, de Antonio Fabiano, abre-se em sete partes. Arco-íris de palavras como cores que se interpenetram para constituírem um todo temático, o Nordeste, sob feliz epígrafe de Zila Mamede: “A terra de minha origem primitiva me chama”.
Chamado que se faz em várias línguas, nomeadas segundo as partes do livro onde se diversificam formas para cada uma das linguagens. “Em línguas de pedra e fogo” é vazada uma série de catorze sonetos nos quais se tenta uma renovação e regionalização da forma fixa consagrada, o que se consegue no caso de “Senhora da Manhã”:

Senhora das juremas, dos facheiros,
Do xiquexique rude, oiticicas;
Ó tu, Mãe, que a terra plenificas,
Vela por minha gente de ceifeiros!

“Em línguas de rios”, como a água é rara, apenas dois poemas mais alongados, em versos curtos e coleantes.
Chega-se, então, ao que nos parece o ponto alto do livro. “Em línguas de asas”, série de doze poemas que tenta reproduzir o “Estremeço e vibração de pássaro”, epígrafe de José Gonçalves para textos que refletem sobre aves migratórias e a errática migração humana.
“Em línguas de homens”, o sertanejo acende um cigarro de palha cósmico e ilumina o universo.
“Em línguas de chuva”, fala-se de lembranças campesinas de perfeita felicidade.
A língua do mar mostra a força do Cancioneiro em “Caracol” e encerra-se com a série de cinco poemas que finalizam com o refrão: “Navio navegando mares mágoas...”.
       Termina o livro “Em línguas avoengas”, reflexão sobre as mais volumosas águas da lembrança. “A Bicicleta” ensina-nos a pedalar até o fim da vida e o último poema, “O Caminho”, a guardar estrelas para o dia seguinte.

Paulo de Tarso Correia de Melo
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

PROMOÇÃO

Olá, pessoal!

Gosto que gostem da minha poesia! Obrigado! Mas não sou eu que distribuo o livro... Na verdade, ele já circulava em Natal-RN há dias quando chegou às minhas mãos nesta semana e eu pude finalmente vê-lo! Ficou bonito. Todavia, tenho aqui em São Paulo alguns exemplares. Escrevam para o meu e-mail e prometo enviar, gratuitamente, alguns exemplares para os que curtem poesia! Farei sorteio. Ah, não se esqueçam de mandar o endereço para correio. E, antes que perguntem, sim, mandarei para os leitores de fora do Brasil. Quando sobrar um tempinho, publicarei aqui no blog alguns poemas do Cancioneiro. Obrigado!
Antonio Fabiano
seridoano@gmail.com


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CANCIONEIRO DA TERRA (2014)


Copyrigth@by Antonio Fabiano
Ficha Técnica:
Fotografia: Antônio Amaro (1918-1992)
Capa: Brito e Silva - DRT/RN 166
Revisão: Leonam Cunha
Projeto Gráfico: Maria do Socorro de Oliveira - DRT/RN 165
Edição: Sarau das Letras

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* David de Medeiros Leite e Clauder Arcanjo (editores)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

PAISAGEM SECA - fotografia de Antônio Amaro (1918-1992)

Está prestes a sair meu "novo" livro de poesia: Cancioneiro da Terra (Editora Sarau das Letras). Partilho com vocês a fotografia da capa, em preto e branco e com efeito sépia. A fotografia original (em preto e branco, mas não exatamente nos tons que se veem aí...) foi feita por meu avô Antônio Amaro, em meados do século passado. A original, que pertence ao acervo da família, está em alguns pontos bastante danificada. Portanto, o que aí temos é uma restauração parcial, em duas versões, para que uma delas seja incluída no livro. Os trabalhos de restauração, capa e projeto gráfico foram realizados em Natal/RN, por Brito e Silva e Maria do Socorro de Oliveira.


PAISAGEM SECA

Versão 1
Fotografia de Antônio Amaro (1918-1992)


Versão 2
  Fotografia de Antônio Amaro (1918-1992)

A fotografia original de "Paisagem Seca" já foi exposta ao público em atividade cultural de Cerro Corá/RN, ao lado de outros trabalhos de Antônio Amaro