quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
TREMOR DE MÃOS - por Maria Lúcia Dal Farra
Este
é um livro de interiores. De alguém que, por dentro de seus versos, não se
identifica – diferentemente de como procedemos todos nós e com a maior
desenvoltura. Não, suas digitais estão em outra parte, quem sabe se mercê da
sua formação religiosa e haicaísta, em que a cultura do ego não tem presença.
No entanto, sua
emissão isenta não é em exato a executada mercê dessas duas místicas neste
Poeta harmonizadas, pois que sua voz filtra, com delicadeza, respeito e pudor
(faculdades desaparecidas do nosso tempo) tudo o que contempla, depositando
indelével, mas com a maior discrição, a sua presença volátil no mundo. E esse
sinal comedido é o da muita simplicidade, porque temos aqui um Poeta descalço:
ele permanece para sempre despojado e humilde diante da magnitude da vida, da
natureza, da presença divina esparramada pelo universo, diante de si próprio e
dos outros. Creio saber explicar por quê.
Dissolvendo
a sua energia na palavra, ela o interioriza a ponto de transubstanciá-lo
naquilo que ele escreve, sem denunciá-lo, entretanto, como persona, tornando-o
quase etéreo: é quando o foco de atenção se desloca para aquilo que as palavras
erguem e não para o seu emissor. Porque, quanto mais não seja, se, de fato,
alguma coisa ele realmente “quer” é apenas uma “clave que me leia e não me
explique” – essa a sua divisa, o seu brasão.
Alguém me dirá,
certeiro, que esse processo de metamorfose da palavra é componente intrínseco a
todo ato de escrita poética, ou melhor, que é mesmo o seu ponto de partida. No
entanto, no caso de Fabiano, quero destacar que esse é o seu ponto de chegada,
depuração obtida com árdua dedicação e imenso amor. Que, nele, esse estágio é a
própria virtualidade do ato, no sentido de que o nosso Poeta produz um recatado
enxugamento de pessoa ou de quaisquer outros atributos que possam comportar
normalmente esse proceder. E, embora possa proferir “eu”, ele só sabe
volatilizar-se e reunir-se ao Um.
Fabiano trabalha o
núcleo mesmo do que se considera um poema, o nervo das palavras e das coisas,
num impressionante despojamento (carmelita?) que descerra um mundo ainda virgem
de significados, que comove qualquer leitor e provoca em nós esse “tremor de
mãos” e lágrimas nos olhos.
Daí que eu
considere, de novo, que é feito de interiores este livro. Neste caso, porque se
trata do cerne mesmo do conceito de poesia. Depois, porque os interiores
potiguares e os mineiros, suas duas expressivas vivências, se deixam vislumbrar
aqui, compondo uma imagem de frescura de paisagens, de ambientes caseiros, de hábitos
interioranos esquecidos, de natureza solta.
Lugares que
comportam, por exemplo, um sol que, acobertado pela penumbra do crepúsculo,
torna-se o “olho de pitomba” da noite. Camaradagem rústica que acolhe o
bamboleio de um homem, cuja comicidade transforma seu corpo em “um carro bípede
/ desgovernado”, tal qual nos gracejos de Chaplin. O ar parado dos sítios, tão
repletos de gramíneas, exprime a sensação de que é “como se tudo existisse /
para findar em vida / ainda que vida não seja começo / nem fim das coisas”.
Há, em Fabiano,
povoados em que o “trem / rasga o rascunho do poema”; campos onde “um enxame de
abelhas corta / meu pensamento”; pomar onde se pode ouvir e usufruir de como
“canta a flor avoante”, a “florzinha alada” que é o “sabiá”.
Tudo isso, porque
é com “p” de “pedra” que se faz o “poeta” – o enfrentamento da rudeza do
Indecifrável – e é só por isso que “os peixes” podem saltar “contra a corrente”
numa “piracema dos sentidos”.
Cavando essa rocha
empedernida, já caberá ao Poeta perguntar, por exemplo, “quantos tons tem / a
cor do luto”. Ou, já então, “à sombra de um cajueiro”, permitir-se considerar
pacificamente se “termina assim em líquido silêncio a vida”.
Pode-se ouvir, em
seus poemas, o crepitar do fogão de lenha da avó, que “acorda o mundo”,
enquanto abarrota “de eternidade o vazio da cozinha”, sobretudo depois que se
partiu a velha “cristaleira”, que, malgrado tudo, não pôde suportar “o peso de
tanta vida”.
Para além disso, a
“ponte de Igapó (...) / num salto acrobático perfeito / mergulha a minha alma /
que não nada”, de maneira que a terra de origem acaba por ficar tão distante
até “tão mais que nem mãos nem sonho alcançam...” De modo que há “uma solidão
tão sozinha que nem se sabe dizer em divã”.
No entanto, a
“lembrança / é uma flor de guarda-chuva / avessado pelo vento / em repentino
temporal”, e quando o pica-pau “rompe o silêncio de anos / na árvore antiga”, o
“mundo estala no jardim de casa. / É a natureza e sou eu / no coração desta
árvore a bater / – toc... toc... toc... / Ó flama viva! / A noite cai pequena /
sobre os meus bonsais.”
Portanto, o Poeta
se torna capacitado para ler e conhecer os “semitons” que tecem a vida. E livre
para constatar que é impossível “dizer em palavras / o ranger dos bambus”, a
“beleza” que dança “sobre as mãos erguidas / do bambuzal”; o “verde” que é o
“aplauso das palmeiras”; o “arvoredo” que “estremece e requebra-se / debaixo
dos pés de Deus”; as “carpas” que se misturam “às folhas que caem” sobre o
lago.
Então – e esta é a grande questão metafísica que esse “tremor” nos depõe: – como “dizer em palavras” e “sem macular a Presença” todos estes poemas, sobretudo quando a natureza inteira, “de um canto do orbe a outro / em sustenidos e bemóis / faz-se tapete e escolta / para Ele passar”?!
Maria Lúcia Dal Farra
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
"TREMOR DE MÃOS": TEMPO E CONTEMPLAÇÃO
theo g. alves
"Tremor
de Mãos": tempo e contemplação
– por Theo G. Alves
Convenhamos, caro leitor
ou leitora, todo posfácio é uma injustiça com quem o escreve. Explico: tu, que
acabaste de ler este livro, saberá de parte importante do que me passou ao
lê-lo; eu, injustamente, não saberei o que passou a ti. À parte esta injustiça,
sigamos em nossos caminhos já esclarecidos e sob o tácito acordo de que
escreverei sobre o que já sabes, por isso mereço o perdão por ser redundante.
Começo, então, com uma
pergunta: de quem são as mãos que tremem neste livro e por que tremem? Minha
primeira pergunta são duas, aliás. Cinismo.
Tremem as mãos do poeta,
tremem as mãos do leitor: porque o tempo singra pelos corpos de ambos, sem
piedade alguma, e ao tempo não cabe ter piedade ou misericórdia de ninguém.
Urge ao tempo passar, o que ele faz inexoravelmente. E este livro que acabamos de
ler é, sobretudo, acerca do tempo.
E o tempo é também uma
medida de vida e de morte. É a mensuração do cansaço e da memória diante da
vida.
O poeta Antonio Fabiano
parece ter compreendido esse tempo em largura e profundidade ao escrever os
poemas deste “Tremor de Mãos”. Talvez não saibas, leitor ou leitora, mas vão
aqui cerca de dez anos do primeiro ao último poema deste livro, que passeia
pela quase comicidade de sua segunda parte e pisa com pés muito pesados na tensão
da primeira e da última. E, convém dizer, que os dez anos usados para compor
“Tremor de Mãos” foram muito bem utilizados, encontrando o poeta o corte
milimétrico e necessário para um bom livro de poesia. Os poemas estão
maturados, a voz afinada em tom preciso, a unidade encontrada: tudo o que exige
um livro bem escrito.
Entretanto deves ter
percebido que a observação do mundo, a contemplação das coisas, das pessoas e
das sensações são o alimento fundamental desses versos. O poeta olha para o
mundo como um “monge calmo a Cristo”, verso que roubo de Fernando Pessoa, por
óbvio.
A contemplação – e tudo o
que brota dela – compõe a argamassa que sustenta os poemas de “Tremor de Mãos”.
Não é demais lembrar que contemplar é também uma maneira de dizer sobre o
tempo.
É bonito para quem lê
este livro surpreender o olhar contemplativo do poeta a ver um “repentino
temporal” misturar-se com a magia dos velhos guarda-chuvas onde a poesia se
esconde. Assim como é comovente vê-lo abrir, meditativo, o livro de um escritor
que não está mais entre nós, senão por seu autógrafo e por suas ideias, o que –
Fabiano sabe – é tudo o que precisava ser deixado.
O poeta, sei que
percebeste, ousa mover-se de seu estado contemplativo para agir sobre a poesia,
sobre a magia imagética e sonora de escrever poesia, invadida por pica-paus,
bonsais e notícias de jornal. Tu deves ter visto como se move o olhar do poeta
entre o passado e o presente diante do fingimento quanto ao álbum de retratos,
que desnuda as famílias de uma maneira debochada, cômica e precisa:
“Aquela do canto
tentou suicídio uma ou
duas vezes.
Este do meio trai a
mulher
com quem está abraçado
como se fossem felizes
para sempre...
(...)
Esta aqui é a mais
infeliz de todas
embora não pareça!
É irmã daquela...
A outra se deu bem na
vida...
Esta também... Já é avó!
Este ficou rico e mora
fora.
Está no segundo
casamento.
E aí está o poeta!”
Como já leste o livro,
não vou me pôr a copiar muitos mais versos aqui. Quero antes cochichar
impressões, leitor e leitora.
Que livro de poesias estaria
completo sem um momento reservado para a perda, para o luto, estes dois animais
apascentados pelo tempo? Afinal, desde que nascemos, é a partir da perda que
nos construímos, seja a perda do seio materno, seja a perda da avó e do pai
mortos, como enseja a natureza dos ritos: seguir-se uma geleira depois de um
pôr-do-sol, uma geleira que é penhasco, é o caminho que o poeta escolhe e nos
leva com ele até indagar: “– A esperança não se afogou?”
O ardiloso poeta tira seu
leitor para brincar, para dançar: ri, rodopia, move-se rapidamente entre a
graça e a dor. Ri de seu próprio sofrimento e nos convida a rir também, a olhar
para o mundo, a contemplar as coisas miúdas e rir.
É assim que ele nos
entrega o caminho para suas coisas de poeta.
Entre essas coisas,
sobretudo o amor, cuja letra é aparentemente simples, quase cômica, capaz de
ser leve ainda que profunda, como acontece aos que amam um poeta na extensão de
seus versos. Está lá:
“vai me ler outras vezes
– todo –
tantas que se o amor
durar
vai me amar de verdade
...para
sempre.”
O amor prometido,
cúmplice, partilhado quase em segredo, como deve ser.
Os poemas da segunda sessão
do livro, diga-se, reafirmam que este é um livro de olhares, de contemplação.
Assim como deita olhos ao amor entre o leitor e seu poeta (ou seria entre o
poeta e seu leitor), Fabiano compõe cenas curiosas, bonitas e bem-humoradas,
seja através de um beijo roubado na chuva ou da gravidez acidental que faz
parir um bebê não planejado. As brincadeiras também contemplam a letra P de Pedro
e Paulo, além de “pedra” que se escreve como “poeta”, cujos maquinários
constroem um alerta que nós, leitores, não podemos ignorar:
“Não confie muito em
coisas de poeta.”
Sobre a terceira e última
parte do livro, confesso, é a que melhor me toma de assalto e, por isso, da que
menos falarei. A melancolia delicada dos poemas desta sessão eleva o
poeta/livro a outros e mais altos patamares. É o sofrimento do poeta que melhor
o enriquece: seu olhar marejado para si mesmo, para o mundo, para o tempo e para
a própria poesia.
Por isso me parece que
este “Tremor de Mãos” não poderia terminar de maneira mais afiada, o que também
demonstra claramente a expertise de Fabiano enquanto escritor, que se põe a
compor um livro que é também trilha, conduzindo seu leitor e leitora para uma
experiência a ser vivida lentamente, a fazer voltar ao livro tantas vezes, como
se fosse a escrita de seu livro uma espécie de feitiço do tempo.
Por isso, ao fim,
retornemos à lição maior do poeta, que repete singularíssimo, a lição que
permeia todo o livro, toda a contemplação e todo o tempo:
“amo
amo”
E que assim seja.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
sábado, 22 de novembro de 2025
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
NOITE - Wisława Szymborska
Deus disse: toma teu filho, teu único filho,
a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá,
onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes
que eu te indicar.
Mas o que foi que o Isaac fez?
seu padre me diga.
Quebrou a vidraça do vizinho?
Rasgou a calça nova que usava
quando pulou a cerca de ripa?
Roubou um lápis?
Enxotou as galinhas?
Colou na prova?
Os adultos que durmam
um sono tolo assim,
esta noite
eu preciso vigiar até a aurora.
A noite se cala,
mas se cala contra mim,
escura
como o fervor de Abraão.
Onde vou me esconder,
quando em mim pousar
o olhar bíblico de Deus
como pousou em Isaac?
Antigos feitos se quiser
Deus pode ressuscitar.
Por isso gelada de medo
cubro a cabeça com o cobertor.
Algo logo vai
embranquecer diante da janela,
encher o quarto com o zumbido
de um pássaro ou do vento.
Mas não há nenhum pássaro
de asas grandes como aquelas,
e nem vento
de camisa assim tão longa.
Deus vai fingir
que voou para dentro por acaso,
que não era para estar realmente ali,
e depois vai levar meu pai
para a cozinha confabular sobre o caso
e com uma grande trombeta lhe soprar ao ouvido.
E quando amanhã bem cedo
meu pai pela estrada me levar,
vou, vou,
enegrecida de ódio.
Em nenhum amor, nenhuma bondade,
vou acreditar,
mais indefesa
do que as folhas de novembro.
Nem confiar,
de nada vale a confiança.
Nem amar,
carregar um coração vivo no peito.
Quando acontecer o que tem que acontecer,
quando acontecer,
vai me bater um fungo seco
em vez do coração.
Deus espera
e da sacada das nuvens espia
para ver se alta e bela
queima a fogueira
e verá como
se morre de teimosia,
porque vou morrer,
não vou deixar que me salve!
Desde aquela noite
além dos limites de um sono malsão,
desde aquela noite
além dos limites da solidão,
Deus começou
pouco a pouco
devagarinho
a mudança
do literal
para o metafórico.
Wisława Szymborska
(Um amor feliz / Wisława Szymborska; seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien — 1ª- ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2016.)
quarta-feira, 27 de agosto de 2025
MARIA LÚCIA DAL FARRA
SOBREVIDA
Matéria ardente que o fogo
arrebata para si
assim a mariposa.
Venho clamar por clemência:
por que deve fenecer
quem se acumula de luz?
Canto
(portanto)
às escuras.
MORADA
Nesta casa incerta
os dias são longos, abandonados pelo
tempo
que desistiu e desertou dos seus.
Crescer ou morrer já é igual:
ambos tocados pelo mesmo fogo do que não se sabe
tangidos por sílabas frias
nos ecos corridos da minha voz.
Abrir as torneiras para ver fluir
o que não se retém.
Olhar no espelho para conferir os pontos
cegos.
Erigir aqui o mausoléu.
O GALO
Me confundo
supondo se este galo é o mesmo
daquela madrugada –
o do canto repetido, o da crista abrolhada do sangue
de Cristo.
O mesmo que canta no vizinho
e que ilustra (aos sonolentos) sua grande solidão.
O que bica escorpiões e limpa os quintais –
ofício que lhe depura ainda mais a plumagem
as notas
a amplidão.
Galo feito a golpes na madeira silenciosa
– só o canivete esculpe-lhe o pé forcado.
Por causa do ambíguo parentesco
não sei se o escultor o sangra
ou se lhe bota asas de
Mercúrio.
Carteiro dos altos
envia mensagens a quem repousa
e muito traduz
(aos de insone feitio)
do quanto retalha a noite
cada cacarejo seu.
Maria Lúcia Dal Farra
domingo, 20 de julho de 2025
sábado, 5 de julho de 2025
INFÂNCIA - Daniel Faria
e jogava ao pião com Deus
enquanto minha mãe estendia roupa
e o meu pai mendigava pão
e minha alegria nesse tempo
era muito próxima da dos meninos
e de Deus que ganhava sempre
e não sei quem perdi primeiro:
o pião ou Deus
apenas sei que Deus continua
a jogar com outros meninos
e que no Outono quando saio à praça
nos sentamos e falamos muito
do suave rodopiar das folhas
Daniel Faria
Oxálida, 1992
segunda-feira, 23 de junho de 2025
domingo, 22 de junho de 2025
DO INESGOTÁVEL
Observei-te sabendo já que eras um homem – a cabeça
De
pelicano dobrado
O bico
que te rasgava para fora
Adoeci
como lâmpada que se funde
A coroa
de espinhos sobre mim – a lembrança
Dobrei-me
nas tuas asas
Nas
chagas ainda quentes
No voo
como gota de sangue no peito
Que vive.
No coração
Que
partes e distribuis com as mãos
*
Todas as
minhas fontes vêm de ti
As
nascentes
E amo-te
com a constância do moribundo que respira
Já sem
saber de que lado o visita a morte
Procuro a ligação entre ti e a luz muito
[miudinha depois dos temporais
Entre a
luz e os estilhaços nas ruas bombardeadas
Desconheço
o colar onde unes tudo
Procuro
entender como é que moldas
Os meus
pés ao equilíbrio que os desloca no chão
Sei que
és tu que me levantas
Que
remendas o meu corpo cada dia
Em ti
encontro a pulsação
Que
rebenta – uma artéria como nunca
Tinha
jorrado. Cratera onde durmo
Recluso,
árvore à chuva
Em
dificuldade extrema
De
respiração
Ponho a cabeça entre os ramos, lanço
[os braços para fora
Como um
pássaro entre um bando
De
disparos
Tu moves
as agulhas, tu unes de novo
As minhas
asas à curva do céu
*
E desço à
verdura das tuas mãos
Como as
manadas que buscam as minas
Faltam-me
apenas os pés feridos dos que
[peregrinam
Faltam-me
no chão duro das promessas
Os
joelhos
Queria
tanto andar em redor, rodear-te,
[se soubesses como
Queria
amar-te tanto
O que sei
da unidade é a túnica
Tirada à
sorte. O que sei da morte e da vida
É o livro
escrito por dentro e por fora
Silêncio
escrito por dentro
Palavra
escrita a toda a volta da história
O que sei
do céu
É a mão
com que sossegas os ventos
Desço à
escritura como os veados aos salmos
FARIA, Daniel – POESIA – Edição Vera Vouga. Publicado em Portugal
por Assírio & Alvim. Porto
Editora, Ltda. 1ª edição: maio de 2012.
sábado, 7 de junho de 2025
sexta-feira, 23 de maio de 2025
POESIA - Daniel Faria
Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
Está para além do que se vê a janela
[onde me
debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo
Só no fim da paisagem estou de pé
[como um
para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita
POESIA de Daniel Faria. Edição
Vera Vouga. Publicado em Portugal por Assírio & Alvim. Porto Editora, Ltda. 1ª
edição: maio de 2012.
quinta-feira, 24 de abril de 2025
FADO
Sonhei que ‘stava morto... Ai que tristeza!
E tu me vinhas ver, em grande pranto...
Diziam-me, teus lábios, triste canto,
Enquanto eu – só – jazia na frieza.
Estranho luto, aquele, em teu burel!
No pobre esquife, a pálida aspereza
Da vida extinta, lânguida certeza
A esvaecer-se em face d’outro véu.
Amor... tu me choravas tanto e tanto,
Que os deuses, comovidos, de repente
Realizavam cândida proeza:
Ressuscitar ditoso... No entanto,
Fora melhor ‘star morto, brutalmente!
Pois não ‘stavas aqui... Ai que tristeza!
terça-feira, 4 de março de 2025
Affonso Romano de Sant'Anna (1937-2025)
DONA MORTE
Dona Morte
a Senhora está aprontando
demais
na minha porta
– sem falar no estrago
intempestivo o mês passado
devastando minha horta.
Como reverter tamanha
intromissão?
Sei que tem lá seus
misteres
sei que é tarde, já
escurece.
Espere um pouco, Dona
Morte
eu queria apenas
jogar só mais um pouco
com os três amigos que me
restam.
Affonso Romano de Sant’Anna
Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
domingo, 2 de fevereiro de 2025
sábado, 1 de fevereiro de 2025
sexta-feira, 31 de janeiro de 2025
Paisagem Da Janela
Em um cubículo qualquer da capital mineira, janela para o mundo... Isso é tão BH pra mim! Poesia pura do lendário Clube da Esquina, que um dia aconteceu nas Gerais... Mas isso é tão normal!!
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