sábado, 4 de dezembro de 2010

O DUPLO - Ferreira Gullar



Ferreira Gullar
EM ALGUMA PARTE ALGUMA (2010)
Reprodução com licença do Autor

OFF PRICE - Ferreira Gullar



Ferreira Gullar
EM ALGUMA PARTE ALGUMA (2010)
Reprodução com licença do Autor

FALAR - Ferreira Gullar

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar
Poema de “Em alguma parte alguma” (2010)
Publicado com licença do Autor

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

JE VOUS SALUE, GODARD


Jean-Luc Godard (Foto Divulgação)

Atenção, cinéfilos! A Folha de S. Paulo hoje traz opiniões sobre a filmografia de Jean-Luc Godard. Neste dia Godard celebra 80 anos, e estreia no Brasil seu mais recente longa, Film Socialisme. Um crítico, irado, sugere que Godard em Film Socialisme aliena o público, passa de cúmplice deste a adversário. Godard é mesmo implicante, mas genial. Vamos ver...
FILM SOCIALISME
Diração: Jean-Luc Godard
Produção: França/Suíça, 2010
Com: Catherine Tanvier, Jean Marc Stehlé e Patti Smith
Classificação: 14 anos
-----------------------------------------------------------
Outros filmes de Godard, considerados muito bons:
Acossado (1959)
Uma Mulher é Uma Mulher (1961)
O Desprezo (1963)
O Demônio das Onze Horas (1965)
-----------------------------------------------------------
Curiosidade: Em 1985 seu filme “Je vous Salue, Marie” foi considerado herético pela Igreja e teve sua exibição censurada no Brasil.
Eu não tenho culpa!

SUTIL DIVERGÊNCIA ENTRE FILÓSOFOS

Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie...
Blaise Pascal

(1623-1662)

-------------------------------------------

"Duas coisas enchem o ânimo de crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com mais frequência e aplicação delas se ocupa a reflexão: por sobre mim o céu estrelado; em mim a lei moral. Ambas essas coisas não tenho necessidade de buscá-las e simplesmente supô-las como se fossem envoltas de obscuridade ou se encontrassem no domínio do transcendente, fora do meu horizonte; vejo-as diante de mim, coadunando-as de imediato com a consciência de minha existência. A primeira começa no lugar que eu ocupo no mundo exterior sensível e congloba a conexão em que me encontro com incalculável magnificência de mundos sobre mundos e de sistemas, nos tempos ilimitados do seu movimento periódico, do seu começo e da sua duração. A segunda começa em meu invisível eu, na minha personalidade, expondo-me em um mundo que tem verdadeira infinidade, porém que só resulta penetrável pelo entendimento e com o qual eu me reconheço (e, portanto, também com todos aqueles mundos visíveis) em uma conexão universal e necessária, não apenas contingente, como em relação àquele outro. O primeiro espetáculo de uma inumerável multidão de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal que tem que devolver ao planeta (um mero ponto no universo) a matéria de que foi feito depois de ter sido dotado (não se sabe como) por um curto tempo, de força vital. O segundo, por outro lado, realça infinitamente o meu valor como inteligência por meio de minha personalidade, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e também de todo o mundo sensível, pelo menos enquanto se possa inferir da determinação consoante a um fim que recebe a minha existência por meio dessa lei que não está limitada a condições e limites desta vida, mas, pelo contrário, vai ao infinito."

Immanuel Kant (1724-1804)
Crítica da Razão Prática

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

AO LEITOR DE MACAU

Eu quero um leitor em Macau
Antes que adormeça a língua
E o que redime a história
Sem desvios
Aconteça.

Tenho pressa!

Um leitor em Macau
É o que eu quero
E muitas sílabas soídas
Com
Nossa língua na língua
Estranho elo
Casada
No
Prazer sem culpa
Sem desculpas
Ela
Inculta e bela
Ela
Como ela só.

Um leitor em Macau
Eu quero
E isso é mais importante
Que a estrela
Fria
Longínqua
Muda
Sem brilho
No céu de um dia
Qualquer
De sol.

Ele
O meu leitor de Macau
Há de dar sentido à lida
Lido eu
O meu poema
Em macauês português.

Num leitor assim respira
Fundo
Fundo
Em seu pulmão
O meu sonho de Macau
A minha dor de Macau
O meu amor por Macau.

É noite
E impera
Longe de fanar-se
Ela
Linda
(Lírica)
Esbelta e bela
Ela
A adjetivável
Flor do Lácio
Caçula
Já sem nome ou pátria
Ela
E o meu leitor de Macau.

Antonio Fabiano
Direitos reservados

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UMA CRÔNICA PARA AFFONSO


Antonio Fabiano e o poeta Affonso Romano de Sant'Anna

Ocupei toda a parte da manhã de ontem – depois e antes das orações que um carmelita faz ao longo do dia, além de estudos – no meio do claustro do nosso convento. Estive entretido no ofício de arrancar matinhos, estas ervas daninhas que nunca desistem de crescer e rivalizam com a grama verde. Mas por que digo “grama verde”, se toda grama que eu conheço é verde? Há grama azul? No meio do claustro temos uma fonte. E peixes coloridos. Nossa casa é bonita, dela admiram-se muitos. Temos voto de pobreza, beleza não é pecado! Sim, eu falava de arrancar matos, no ordinário do meu dia. Os outros frades, espalhados pelo quintal, também trabalham. A vida de um carmelita é feita de silêncio e pequenas coisas como essas. É feita de muitas outras coisas também, claro. Ontem eu arrancava ervas daninhas na primeira parte do dia, ficando com as mãos bem encardidas, estas mesmas que escrevem poemas e a crônica que se lê. Hoje eu farei a mesma coisa... O que pode ser mais ordinário do que isso? No entanto eu preferi viver assim, não troco esta felicidade, ordinária, por nenhuma outra das muitas que tive, pude e posso escolher.
Todo esse rodeio é para falar da parte não ordinária do meu dia de ontem, que de repente se engrandeceu! A vida também é feita de excepcionalidades... Veio a Belo Horizonte o meu querido amigo e irmão Affonso Romano de Sant’Anna. Talvez devesse dizer “mestre”. Com ele aprendemos muito e sempre. Não é apenas o grande poeta nacional, homem de belas palavras. Affonso é um articulador do bem, da cultura do seu país. Alguém que – para além dos belos versos que escreve – tem ação. Digo ação em prol das nossas gentes e em todos os demais sentidos. Nunca para. Recentemente esteve na Colômbia, dizendo seus poemas, conversando com o povo, encantando aquela gente em grandes eventos. Quando menos se espera, já está em outra parte do mundo, fazendo outra coisa relacionada à literatura. E vai... E vem... E faz o bem. E faz bem tudo o que faz. Não é, como eu já disse, só um escritor nato, nem tampouco daqueles autores que se enclausuram em castelos de marfim e vivem abismados em sua glória às vezes ilusória... Ele é um homem de grande erudição, olhos voltados para o futuro e mente aberta, um homem de inteligência cuja vastidão pode ser comparada às areias da praia do mar. E quando inteligência e bondade se aliam, pode-se até tocar os pés do infinito, de tão alto e longe que se vai!
Affonso já fez muito, ao longo desses anos, como quando esteve à frente da Biblioteca Nacional, que é uma das maiores do mundo, e desenvolveu projetos importantes de expansão da leitura. Desta vez veio a Belo Horizonte e vai passar por outras cidades mineiras ainda esta semana, na esteira de um projeto que visa levar a leitura para todos, especialmente àqueles menos favorecidos culturalmente. É uma causa que ele abraçou há tempos. Falo do programa Grandes Escritores, que há quase dez anos foi idealizado por Marcelo Andrade e agora associa-se a um outro projeto, Livro para Voar, o qual propõe que as pessoas deixem seus livros em lugares públicos para que outros leitores – especialmente quem não pode comprar livros – tenham acesso às obras. No evento de ontem foram doados livros para mais de dez cidades de Minas. O programa já contemplou outros Estados do Brasil. Iniciativas como esta merecem nossa atenção e aplausos. Falar do bem faz bem! Fazer o bem, melhor ainda!...
Mas com pressa, visto que um carmelita tem horas, a vida volta ao seu ordinário. Ordinários deveriam ser os livros, porque todos têm direito à leitura. As políticas educacionais e de incentivo à cultura em nosso país geralmente recebem pouco encorajamento, baixas verbas, quase nenhum apoio. Talvez precisassem entender o que alguém já disse e Affonso nos repete à exaustão: se acham que é cara a Educação, então experimentem a ignorância e vejam quão mais cara ela é além de estúpida! Acreditamos que uma boa leitura tem o poder de transformar o mundo. Isso não é utopia, é fato comprovado tantas vezes ao longo da história. Enquanto não acontece plenamente o dia dessa ventura, fazemos o que podemos, arrancamos ervas daninhas...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 1º de dezembro de 2010.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
----------------------------------------------

Leia de Affonso Romano de Sant’Anna:
“A Sedução da Palavra”, pela editora Letraviva.
“Que País é Este?”, reeditado pela Rocco.

Para ver mais sobre Affonso Romano de Sant’Anna neste blog: clique no marcador com o nome do poeta, abaixo da postagem.

Saiba mais a respeito do projeto Livro para Voar: www.livroparavoar.com.br