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quinta-feira, 30 de junho de 2011
CASA DE ELIZABETH BISHOP
Casa em que viveu Elizabeth Bishop nas décadas de 60 e 70 em Ouro Preto, Brasil. A casa pertence a uma figura especialíssima, a Sra. Linda Nemer, amiga e herdeira de Elizabeth Bishop, que tem preservado cuidadosamente não só esse patrimônio, mas a própria memória da escritora e poeta norte-americana.
"One art" – Elizabeth Bishop
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last,
or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last,
or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop
Elizabeth Bishop: "One art" / "Uma certa arte" (tradução de Nelson Ascher)
A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.
Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.
Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.
Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.
Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.
Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.
BISHOP, Elizabeth. In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.
Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.
Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.
Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.
Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.
Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.
BISHOP, Elizabeth. In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
CONFISSÕES DE ANTO (II)
Por um só verso de Homero a estupidez humana se torna perdoável, os homens se dignificam e Deus não se arrepende outra vez de nos ter fatalmente criado!...
Há algum tempo fiz uma grande descoberta: escrever não é luxo, não é vaidade (embora às vezes sirva para isso, visto que alguns gênios desta área ocupam-se em nada mais fazer que narcisicamente porfiar suas próprias glórias, o que também é nada), não é capricho, não é sequer um privilégio. Escrever é uma maldição... ou Bênção, das grandes, se quiser entender por aí! Dá no mesmo! Tem seu preço altíssimo!... Custa a vida! Vale a pena e eu quero!!
Escrever sempre foi difícil para mim. Uma luta, deveras, com a palavra e o seu sentido mais profundo. Mas eu não maldigo esta sorte! Mil vidas daria, para tê-la de novo e de novo... sempre! Não obstante toda a imperfeição que me é imputada. E quando há fracasso, que ao menos nunca seja por falta da mais reta intenção no agir.
É meu dever moral dar o melhor de minhas condições artísticas, se eu me faço publicar. Assim como se eu fosse um jornalista, em primeiro lugar faria luzir meu límpido compromisso ético com a verdade dos fatos.
Quem escreve por vocação, escreve para alguém real, ainda que seja para si mesmo. E a isso se atrela o terrível desejo de ser lido, não por cobiça ou fatuidade, mas pela necessidade de acabar a obra começada, de completar-se. Ora, não me refiro a caducas sublimações freudianas!... Mas em respeito a cada um destes que virão a mim, eu me mato até que surja o “excelente” (im)possível!... Estou sempre morto ao final, para que o mais importante subsista, viva!
Sim, eu dou voz ao que sinto e ao que não sinto. Eu falo pelos que não podem falar, pelos que não sabem falar nestas línguas, mas que as sentem ou as entendem muito bem com o coração. Eu penso naquelas pessoas que lerão meus versos e dirão: isso é meu, foi feito pra mim, é exatamente o que eu sinto.
Sabe aquele nunca poder dizer o que se quer, a delícia dessa burrice de insistir em continuar tentando exprimir o que desde o começo você sabe que não vai conseguir? A palavra, ainda que fechada, sempre vence! Ela nos humilha, a obra se impõe... faz seu próprio rumo! Somos inúteis, felizmente inúteis! Depois de pronta, nenhuma boa obra precisa de nós. Falam por elas mesmas e dizem até o que nunca diríamos, se nos fosse dado escolher... Não era bem isso que eu queria escrever, mas fica assim.
Ah, achei, achei! O dito de Manoel de Barros é este: “Ninguém é pai de um poema sem morrer.” Fim
Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 27 de junho de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
Há algum tempo fiz uma grande descoberta: escrever não é luxo, não é vaidade (embora às vezes sirva para isso, visto que alguns gênios desta área ocupam-se em nada mais fazer que narcisicamente porfiar suas próprias glórias, o que também é nada), não é capricho, não é sequer um privilégio. Escrever é uma maldição... ou Bênção, das grandes, se quiser entender por aí! Dá no mesmo! Tem seu preço altíssimo!... Custa a vida! Vale a pena e eu quero!!
Escrever sempre foi difícil para mim. Uma luta, deveras, com a palavra e o seu sentido mais profundo. Mas eu não maldigo esta sorte! Mil vidas daria, para tê-la de novo e de novo... sempre! Não obstante toda a imperfeição que me é imputada. E quando há fracasso, que ao menos nunca seja por falta da mais reta intenção no agir.
É meu dever moral dar o melhor de minhas condições artísticas, se eu me faço publicar. Assim como se eu fosse um jornalista, em primeiro lugar faria luzir meu límpido compromisso ético com a verdade dos fatos.
Quem escreve por vocação, escreve para alguém real, ainda que seja para si mesmo. E a isso se atrela o terrível desejo de ser lido, não por cobiça ou fatuidade, mas pela necessidade de acabar a obra começada, de completar-se. Ora, não me refiro a caducas sublimações freudianas!... Mas em respeito a cada um destes que virão a mim, eu me mato até que surja o “excelente” (im)possível!... Estou sempre morto ao final, para que o mais importante subsista, viva!
Sim, eu dou voz ao que sinto e ao que não sinto. Eu falo pelos que não podem falar, pelos que não sabem falar nestas línguas, mas que as sentem ou as entendem muito bem com o coração. Eu penso naquelas pessoas que lerão meus versos e dirão: isso é meu, foi feito pra mim, é exatamente o que eu sinto.
Sabe aquele nunca poder dizer o que se quer, a delícia dessa burrice de insistir em continuar tentando exprimir o que desde o começo você sabe que não vai conseguir? A palavra, ainda que fechada, sempre vence! Ela nos humilha, a obra se impõe... faz seu próprio rumo! Somos inúteis, felizmente inúteis! Depois de pronta, nenhuma boa obra precisa de nós. Falam por elas mesmas e dizem até o que nunca diríamos, se nos fosse dado escolher... Não era bem isso que eu queria escrever, mas fica assim.
Ah, achei, achei! O dito de Manoel de Barros é este: “Ninguém é pai de um poema sem morrer.” Fim
Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 27 de junho de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
quinta-feira, 23 de junho de 2011
NOITE DE S. JOÃO - poema de Fernando Pessoa
Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
12-4-1919
Fernando Pessoa
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
12-4-1919
Fernando Pessoa
segunda-feira, 20 de junho de 2011
CONFISSÕES DE ANTO (I)
De uns tempos pra cá vislumbrei o poder infinito de uma obra que quer nascer e seu pai, parturiente, não pode ou se recusa a abrir as pernas para que isso aconteça. Mas o que digo? São também por coisas assim, extravagantes, que a literatura nossa de cada dia se faz e às vezes dá sinal no cotidiano. Aqui, parece, evoco quase sem querer o velho Sócrates, com a sua duvidosa – dadivosa? – maiêutica.
Eu não tenho a pretensão realmente inútil e pouco humilde de ser entendido por todos. Às vezes só um poeta entende outro (alguns não se entendem nunca!), e talvez aqui resida o pior limite dos que por esse nome são chamados ou se fazem chamar. Não é da natureza da poesia fazer-se entender vulgarmente. E não sei se todos estão aptos a gostar de poemas, se todos nasceram para essa coisa maravilhosa. Só penso que muitos não a amam, porque não foram educados para isso. Também aprende-se a amar o que quer que seja digno de amor. Amar é aprendizado. E poesia existe para ser sentida, profundamente, por todos que a queiram sentir. Ninguém é menos digno de recebê-la.
Eu sou partidário daquilo que disse Bandeira: não há poetas perfeitos, há poemas perfeitos. Quando esbarramos num, é difícil não perceber! Eles têm função epifânica na vida da gente, desinstalam-nos, revolvem-nos...
Do que eu dizia, uma vez dada ao mundo a suposta obra... ah, uma vez dada, ela deixa de ser nossa! Se é que alguma vez foi nossa!... Alguns poemas – porque estamos falando particularmente de poesia – alguns dos que escrevi são tão apreciáveis a meu rude paladar, que não posso deixar de louvar muito qualquer coisa suprema que mos tenha dado! Quando leio o que escrevi, depois de feita a parte que me é cabível, eu não reconheço aquilo como obra minha (ao menos no sentido mais exacerbadamente possessivo do pronome), ainda que me reconheça ali ou ligado àquilo por vínculo autoral. Se a obra já está “pronta”, se ela não precisa de mim pra mais nada, proclama-se ela mesma “livre”. E ao escrever isso penso particularmente num verso de Manoel de Barros que diz que... Bem, revirei sua Poesia Completa, não achei o que eu sei que está lá, escondido; quando o achar, se eu me lembrar, cito-o. Perdoem-me.
Mas, do que intentei dizer, se a obra é imperfeita, faço guerra até que a poesia desça ao poema ou o poema se torne menos indigno da poesia ou haja poesia a encorpar os ossos secos sobre os quais devo poetizar!...
A verdade é que muitas vezes sobra apenas um enorme sentimento de insatisfação, de um “aquém terrível aquém”, de um fracasso meu perante a pretendida lavra. Um escritor de verdade deve ter princípios. E escritores, profissionais ou não, sofrem terríveis derrotas. Eu nunca desisto, enquanto sobra força e ocasião. Por isso refundo mil vezes a mesma coisa, para que se torne outra coisa, melhor, mais digna de quem vai recebê-la e dignificá-la. E embora não me faça refém de interlocutores, há sempre o fantasma do possível leitor... Tenho leitores? O que é um leitor?
Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 20 de junho de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
Eu não tenho a pretensão realmente inútil e pouco humilde de ser entendido por todos. Às vezes só um poeta entende outro (alguns não se entendem nunca!), e talvez aqui resida o pior limite dos que por esse nome são chamados ou se fazem chamar. Não é da natureza da poesia fazer-se entender vulgarmente. E não sei se todos estão aptos a gostar de poemas, se todos nasceram para essa coisa maravilhosa. Só penso que muitos não a amam, porque não foram educados para isso. Também aprende-se a amar o que quer que seja digno de amor. Amar é aprendizado. E poesia existe para ser sentida, profundamente, por todos que a queiram sentir. Ninguém é menos digno de recebê-la.
Eu sou partidário daquilo que disse Bandeira: não há poetas perfeitos, há poemas perfeitos. Quando esbarramos num, é difícil não perceber! Eles têm função epifânica na vida da gente, desinstalam-nos, revolvem-nos...
Do que eu dizia, uma vez dada ao mundo a suposta obra... ah, uma vez dada, ela deixa de ser nossa! Se é que alguma vez foi nossa!... Alguns poemas – porque estamos falando particularmente de poesia – alguns dos que escrevi são tão apreciáveis a meu rude paladar, que não posso deixar de louvar muito qualquer coisa suprema que mos tenha dado! Quando leio o que escrevi, depois de feita a parte que me é cabível, eu não reconheço aquilo como obra minha (ao menos no sentido mais exacerbadamente possessivo do pronome), ainda que me reconheça ali ou ligado àquilo por vínculo autoral. Se a obra já está “pronta”, se ela não precisa de mim pra mais nada, proclama-se ela mesma “livre”. E ao escrever isso penso particularmente num verso de Manoel de Barros que diz que... Bem, revirei sua Poesia Completa, não achei o que eu sei que está lá, escondido; quando o achar, se eu me lembrar, cito-o. Perdoem-me.
Mas, do que intentei dizer, se a obra é imperfeita, faço guerra até que a poesia desça ao poema ou o poema se torne menos indigno da poesia ou haja poesia a encorpar os ossos secos sobre os quais devo poetizar!...
A verdade é que muitas vezes sobra apenas um enorme sentimento de insatisfação, de um “aquém terrível aquém”, de um fracasso meu perante a pretendida lavra. Um escritor de verdade deve ter princípios. E escritores, profissionais ou não, sofrem terríveis derrotas. Eu nunca desisto, enquanto sobra força e ocasião. Por isso refundo mil vezes a mesma coisa, para que se torne outra coisa, melhor, mais digna de quem vai recebê-la e dignificá-la. E embora não me faça refém de interlocutores, há sempre o fantasma do possível leitor... Tenho leitores? O que é um leitor?
Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 20 de junho de 2011.
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