segunda-feira, 27 de setembro de 2010

PARA QUE SERVEM OS POLÍTICOS?

Ando desconfiado de uma coisa: políticos são seres encantados, criaturas diretamente saídas de um conto maravilhoso! Amo políticos. Você pode até dizer: são como bruxas, yo no creo... pero que las hay, las hay! Hay? Ai! É que eles aparecem e desaparecem como os super-heróis japoneses daqueles filmes antigos, que víamos com encantamento, mas hoje nos arrancam gargalhadas por seus precários efeitos especiais. Exceção para o faCto: entre ninjas e políticos, estes não são normalmente os “mocinhos”, e suas entradas e saídas não são tão performáticas, ainda que nos façam gargalhar pra não chorar.
Eles, os políticos, misturam ficção com realidade e fazem essa coisa incrível que vemos de anos em anos. Se estiverem na mira de espectadores, agirão como santos, sem a discrição dos santos, obviamente. E quando ninguém os vê, bem, aí é outra história... Câmeras escondidas nos atestam coisas... Eu não vou dizer. Vocês lêem/vêem jornais. Sim?
Alguns políticos chegam a supor, em tempos de eleição, que estamos no país das maravilhas, ou logo entraremos nele... Somos Alice! Políticos são quase “messiânicos”, ou mais que isso. Nem El-Rei Dom Sebastião quis tanto! Não sei se o protótipo de messias que temos no inconsciente ousaria tanto quanto alguns desses políticos! Eles ousam mais, eu acho. Porque o meu Messias (crido Deus) já veio, pretendeu bem menos nessa esfera, e nem de longe resolveu tudo!
Agora que as eleições estão prestes a acontecer, eles, os políticos, “pirlimpimpim”... desaparecerão! Nada de sorrisos (pra lá de artificiais), apertos de mão calorosos, extremado amor aos pobres, visitas às periferias, cafezinhos nos botecos, promessas, promessas, promessas... Desse espetáculo cíclico, o que aprenderemos? Que daqui a quatro anos seremos outra vez imbecilizados? Que nunca nos respeitarão? Que só querem nosso voto e nada mais?
Sim, políticos hay. O que não hay é defasagem na educação, escolas em péssimas condições, hospitais em estado de calamidade, negligência explícita em vários setores públicos etc. Graças a Deus políticos hay, para que essas coisas não hayam, e receio que os melhores do mundo, os mais eficientes, estejam em meu país. O que não hay: miséria, fome, violência, corrupção. Ai! Não, corrupção não hay mesmo! Tudo isso é ficção, coisa dum cinema nacional pessimista e apelativo! A minha pátria é bela, como só ela! Nem paralela, é bela, quase paranormal! Coisas ruins, claro, não hay! Mas se não hay, se tudo está perfeito, para que servem os políticos?
Quase me inclinei a pensar hoje cedo – pequei, Senhor! – que (não, não vou dizer... vou dizer...) nossa democracia é uma farsa! Exagerei. Peço perdão! Porque pensei (mal) que o povo é refém de corsários, e eu não gosto dos que ultrajam o povo! Seja na política, seja na religião ou no que for. É que políticos me deixam tonto, com seus discursos. Eles tentam me convencer do que dizem. Mas, o que dizem? No dia em que eu os entender, eu morro! Eu sei que eu morro! Preciso voltar pra escola e aprender tudo de novo! Sou tão burro! Nem português a gente sabemos direito! Eu não entendo o que eles dizem, e dizem que eles não dizem nada! Aí me sinto culpado, por não entender sequer o nada que eles dizem!
O melhor dos ficcionistas sentiria inveja, se reparasse bem, sentiria inveja do traquejo desses que tudo podem com um microfone na mão. A outra (mão) deve estar bem ocupada! A língua que eles, os politikói, falam é coisa que nenhum poeta alcançou! Eu os invejo, vem talvez daí o meu despeito! Acho que me insultam, mas eu não entendo. Cospem na minha pequena inteligência, e eu entendo menos ainda. Subestimam minha vontade às vezes boa, às vezes ruim. Dizem o que eu sei desdito desde o primeiro instante. Coisa que nem Deus pôde, eles podem... Que inveja Deus deve sentir dessas criaturinhas! Seus olhos piedosos, enquanto discursam, não me convencem mais. Acho que perdi a fé neles. Tirando um ou outro “bonzinho”, que los hay eu sei que hay si hay, tirando estes, a grande maioria se declara, por pensamentos e palavras, atos e omissões, grandissíssimos filhos da pátria, a que os pariu para a América nacional. Eu ia dizer “merda”, mas por pudor me contive. Como seguir acreditando, se eu quero viver cem anos, mas aos 31 já tenho a memória carregada de frustrações políticas? Eu até tento crer, mas os jornais todos os dias me mostram fichas sujas e mais que tudo, o que eu não queria ler, aquela palavra horrível e tão frequente no cenário nacional: CORRUPÇÃO. Mas esta não hay, deve ser intriga da oposição. O que hay são políticos, políticos hay...
Mesmo sem fé, alguma esperança me acompanhará e a cada patrício, semana que vem, na importante visita à caixinha eletrônica, mágica, das votações... Votemos!

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 27 de setembro de 2010.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ADÉLIA PRADO, IGUAL A ELA MESMA.


Adélia Prado em imagem do Programa Sempre um Papo disponível na Web

ADÉLIA PRADO nasceu em Divinópolis - MG, em 13 de dezembro de 1935. Filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Perdeu a mãe em 1950 e, a partir de então, escreveu versos. Fez o curso de Magistério, de 1951 a 1953, dando aulas logo em seguida. Em 1958 casou-se com José Assunção de Freitas. Na década de 1960 começou a estudar filosofia, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis. Em 1972 perdeu o pai. Formou-se em 1973. Por essa época enviou originais dos seus poemas a Affonso Romano de Sant’Anna, que os fez chegar ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Este último, por sua vez, os recebeu com grande entusiasmo e reclamou urgente publicação. O resultado dessa ventura é a grande obra inaugural de Adélia, “Bagagem” (1976), que começa com estes versos de impacto:

COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Lança-se Adélia Prado, madura, já mãe de cinco filhos e consciente do fazer poético. “Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, / sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.” (Bagagem, ‘Grande desejo’). O livro “Bagagem” foi publicado no Rio de Janeiro, e em seu lançamento estiveram presentes, dentre outras pessoas, Antônio Houaiss, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Raquel Jardim, Nélida Piñon, Juscelino Kubitscheck, Affonso Romano de Sant'Anna, Alphonsus de Guimaraens Filho.
Em 1978 lançou “O coração disparado”, ganhador do Prêmio Jabuti de melhor livro de poesia. Não parou mais de escrever, poesia e prosa. Outros livros de POESIA: “Terra de Santa Cruz” (1981). “O pelicano” (1987). “A faca no peito” (1988). “Poesia reunida” (1991). “Oráculos de maio” (1999). “A duração do dia” (2010). Em PROSA: “Solte os cachorros” (1979). “Cacos para um vitral” (1980). “Os componentes da banda” (1984). “O homem da mão seca” (1994). Manuscritos de Felipa (1999). “Prosa reunida” (1999). “Filandras” (2001). “Quero minha mãe” (2005). “Quando eu era pequena” [infantil] (2006). Os livros de Adélia Prado estão sendo agora editados ou reeditados pela Record. Alguns de seus trabalhos foram traduzidos para outras línguas, além de seu nome constar em várias antologias. O espetáculo “Dona doida: um interlúdio”, baseado em textos de Adélia Prado, foi encenado por Fernanda Montenegro, com grande sucesso no Brasil e no exterior, em 1987. Em 2000, Adélia gravou “O tom de Adélia Prado”, CD no qual recita poemas de “Oráculos de maio”. Em 2003, “O sempre amor”. Ambos pelo selo Karmim.
Profundamente religiosa (cristã católica), sua poesia é marcada pelo sagrado. Deus é personagem maioral em sua obra. Mas equivoca-se quem pensa que esta é panfleto de ideologias ou via de proselitismo à fé que a autora em nível pessoal professa convictamente. Leituras pouco profundas, nesse sentido, foram feitas até por bons críticos, mas são por si mesmas insustentáveis.
Também o cotidiano adquire relevância em sua criação: “Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais.”, diz com frequência. Antes de ressurgir com o livro “O homem da mão seca” (1994), Adélia passou por um difícil tempo de “desolação”, um longo silêncio, período em que ficou sem publicar nada: “você quer, mas não pode. Contudo, a poesia é maior que o poeta, e, quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez.”
Críticas, toda pessoa importante as sofre, tão mais quanto seja exposta às vistas alheias no muito grande que faz. Há quem não entenda que alguns fazem a arte que podem, outros a que querem, porque podem e sobra talento. Adélia pertence a este grupo de abastados. Delineou cedo seu rumo poético, muniu-se de bagagem própria (não alheia), é coerente naquilo que faz e não desvirtuou sua opção para agradar a quem quer que fosse. É precário dizer que ela se fez “refém” das influências primeiras que jamais negou. Drummond? Guimarães Rosa? Quem dentre vós (maiores e melhores do meu país) nunca tiver devido algo a eles, que atire a primeira pedra! Mas, antes de tudo e como eles, Adélia é mineira! Nasceu sabida dessa “mineirice” inimitável. Ela só é igual a ela mesma. Reside talvez aí a dificuldade de enquadrá-la no cânon previsível de qualquer das escrituras cristalizadas. E isso é insuportável para alguns que não sabem o que fazer com a poesia desta mulher. Se avexem não, nós não críticos sabemos! (Antonio Fabiano)

[Algumas informações biográfica e as "falas" da autora foram coletadas dos seus livros editados pela Record].

Antonio Fabiano
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

“A DURAÇÃO DO DIA” (2010) – ADÉLIA PRADO.


Adélia Prado (Foto Divulgação)

“Sem avisos se mostra / a duração perfeita, / forma que de si mesma se acrescenta / e na mesma medida permanece.” (O vivente, p. 81).

“A duração do dia” (2010) é o mais recente livro de versos de Adélia Prado. Uma boa surpresa! Pelo título somos imediatamente levados a crer que, como nas obras anteriores, aí também se privilegiará a temática do cotidiano. E é o que acontece. Ao lado disso vem com acentuada força o seu outro bordão predileto, de teor religioso: a experiência de Deus. Esta, em “A duração do dia”, parece dramaticamente intensificar-se. É curioso o sofrível latente, na gozosa relação entre Deus e sua criatura (amada). O livro é dividido em grupos de poemas que se separam por citações em sua maioria bíblicas. Tais blocos não possuem títulos como nos livros anteriores. É uno o dia, transcorre ininterrupto. Letras santas ou falas norteiam-no, sutilmente, sem qualquer ruptura ou ideia de capitulação.
O poema de abertura já nos coloca diante de um “eu” que se esconde “no porão / para melhor aproveitar o dia”, “pra rezar, / agradecer a Deus este conforto gigante.” (Tão bom aqui, p. 9). O enfoque recai sobre o mínimo: “Eu só quero saber do microcosmo, / o de tanta realidade que nem há. / Na partícula visível de poeira / em onda invisível dança a luz.” (idem). Este paralelo “visível - invisível” atravessará “A duração do dia”, é um problema de fundo e moção na obra. Não se busca no entanto uma solução, frui-se o problema. Nisto, de fato, vemos que, se a predileção recai sobre o pequeno (mínimo), este é paradoxalmente potência motora do “dia” e tem matiz evangélico: “minha fortaleza é a da mostarda. / Um grão.” (O noviço e a abstinência de preceito, p. 44).
No primeiro momento desta obra, “As matemáticas suplantam as teologias / com enorme lucro para minha fé.” (Uma janela e sua serventia, p. 10). Ou, “Como oráculos bíblicos, / os paradoxos da física me confortam.” (Pensamentos à janela, p. 19). Visão romanesca da ciência quântica. Alternam-se luzes e lágrimas, reminiscências nostálgicas ou muito boas da explicitada mulher, a sombra de Deus aterradora e aprazível, as contradições do amor. Este livro não se exime de trazer-nos sobejados ecos de outros tantos da autora, diga-se de passagem. Tudo, porém, revestido de uma “coisa” nova (original), certo entretom em sua voz poética, algo sutilizado na maioria dos versos, mas bem perceptível ao leitor iniciado de Adélia Prado. Pode causar algum estranhamento, isso, mas é bom.
“Deus há! E pode que haja o diabo, / o que não tem é morte.” (Como um parente meu, um Riobaldo, p. 17). A presença da morte, pela sua aproximação ou memória dos que já se foram (ancestrais revivem), é reincidente no conjunto desta obra, mas nem de longe tem aí seu triunfo. Exceto em fala irônica (cf. Rua do Comércio, p. 48) ou de tentação (cf. Anjo mau, p. 71). A morte é “a que não existe.” (Epigráfico, p. 33). Ou, “Só morrem os muito velhinhos / que pedem pra descansar.” (Aqui, tão longe, p. 21). Ela é uma insistente sombra no “dia”, sem dúvida, mas tanto como o tempo é relativizada: “não se tem certeza de que vamos morrer, / (...) / São os relógios / o mais obsoleto dos inventos.” (Dádivas, p. 42). Todo o mais é cotidiano poetizado, metamorfoseado pelo maravilhoso de uma “memória dourada” que traz “mentira meio existida, / verdade meio inventada.” (Aqui, tão longe, p. 21). Não importa se faz noite neste “dia” de Adélia Prado: “Estrelas na escuridão são ícones potentes.” (Pensamentos à janela, p. 19). Importa “que amanhã seja outro dia, / igual a este dia, igual, / igual a este dia, igual.” (Aqui, tão longe, p. 22).
No livro aparece ainda o drama em palavras da palavra que não (?) acontece. Em face da luz eterna “Quis dizê-la e não pude, / ingurgitada de palavras / minha língua se confundia. / (...) / Aquiesci gozosa, / a língua muda, / a folha branca, / a mão pousada” [o poema “termina” sem ponto final] (Divinópolis, p. 13-14). Esse drama é a luta da “escrivã” (poeta) pelo sentido mais profundo das coisas. “A beleza transfixa, / as palavras cansam porque não alcançam, / e preciso de muitas pra dizer uma só.” (A escrivã na cozinha, p. 25). Sabe-se desde sempre que “as palavras são dúbias” (O clérigo, p. 50). Luta-se com elas, como Jacó lutou com Deus (se me permitem essa imagem bíblica). Diz-se: “Perdi a conta das vezes / que retomei esta escritura / sem avançar de sítios pantanosos, / (...) / Foi ontem e já tem cem anos, / faz um minuto só, / foi agora e foi nunca, / jamais aconteceu, / não há, não houve,” porque, para além de brincar com a atemporalidade das melhores letras, no “dia” de Adélia Prado “o que não tem palavras não existe.” (Nem parece amor, p. 92). Note-se ainda o problema da palavra, complexificado, em “(...) língua / para todas as línguas traduzível / sem prejuízo” (cf. Querido louco, p. 93).
Se nos deparamos com certa insuficiência das línguas ante o inefável, é natural que até as matemáticas do primeiro momento não mais possam dar conta do milagre em evolução: “Neurônios não explicam nada.” (A escrivã na cozinha, p. 25). E o que dizer de versos como estes: “Como o cão, minha língua ladrava / à aterradora beleza.” (Constelação, p. 87)? O drama da palavra, em face do indizível, é vivido em modulações de gozosa agonia, como todo o mais deste “dia”. Tal ira aplaca-se, no entanto: “E só Vos dei palavras, ó Deus santo. / Quando achei que exigíeis / cabeças sanguinolentas, / um punhado de versos aplacou-nos.” (O penitente, p. 65). A conclusão não poderia ser outra: “Toda compreensão é poesia, / clarão inaugural que névoa densa / faz parecer velados diamantes.” (Esplendores, p. 88). Sobrevive-se.
O sofrimento é também lugar comum no “dia” duradouro deste livro: “Avia-te para sofrer – conselho pra distraídos –, / cristãos já sabem ao nascer / que este vale é de lágrimas.” (A escrivã na cozinha, p. 26). Esta agonia – sempre gozosa – de ser ou existir no mundo é, inclusive, partilhada por solidário Deus. O sofrimento não parece ser anômalo ao “dia” adeliano, é parte de seu mistério. Como o medo: “Ter medo é saber do inaudito, / ninguém até hoje explica / por que batem as pálpebras.” (Epigráfico, p. 33). Em todo o contraste vivido na obra, confessa-se sem pejo: “estou feliz e dói.” (Olhos, p. 29). Dói, mas nunca em sentido totalmente negativo. Dói dor saudável e previsível, como a dor de um parto.
É, pois, a consciência ou suspeição de um “plus” divino, o que dinamiza esta obra, movimentando personagens e demais coisas. Isso transubstancia toda a realidade habitual, deifica o mundo das rotinas e chega, com similar naturalidade ou estático espanto, aos sacrários e às cozinhas da existência humana. Igual.
O mundo com todos os seus desvãos é a passarela basilar das múltiplas formas de “cotidianização” deste “eu” lírico, na obra de Adélia Prado. Inclusive o divino é “cotidianizado”. Assim, Deus muitas vezes é feito à imagem e semelhança do homem, ou talvez devamos admitir que o humano é mesmo divino e feito de Deus. As duas leituras são possíveis na obra, não há aí qualquer incompatibilidade. Não obstante alguma coisa, este mundo/tudo (em seu viés original) é assentido: “que bom estar no mundo / a esta hora do dia! / De maneira perfeita tudo é bom” (Dádivas, p. 42).
No “dia” põe-se então holofotes sobre o que já está aí. Nada de grande se inventa, maravilha-se do que há. É a trama das coisas que se enfoca, quase sempre a partir da ótica da mulher, seja a perspectiva feminina ou virilizada. Esse mundo é, portanto, palco da ação de Deus (às vezes “deus”), que se apresenta ora amoroso, terno, ora terrível em seu poder e rigor antigos. Aqui a experiência de Deus é a experiência do sentido radical da existência/vida, sem qualquer divórcio entre sagrado e profano. Se o Deus da obra é onipotente em suas epifanias, cuja glória até chega a doer, ele também é um Deus carente: “É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor / como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.” (Consanguíneos, p. 99). Há aí sobejante cumplicidade: “Jungidos como estamos em formidável parelha, / enquanto Ele não dorme eu não descanso.” (idem).
O corpo tem neste livro a mesma visibilidade nunca preterida na vasta obra adeliana: “Este é meu corpo, / corpo que me foi dado / para Deus saciar sua natureza onívora. / Tomai e comei sem medo, / na fímbria do amor mais tosco / meu pobre corpo / é feito corpo de Deus.” (A necessidade do corpo, p. 28). Dir-se-ia, em jargão tomista, que este corpo é transubstanciado, torna-se corpo de Deus, hóstia viva (não por acaso aí também figuram as palavras evangélicas da ceia eucarística, ditas em cada missa: “tomai e comei”). O corpo é sacralizado pela presença/ação de Deus. A carne (visível) dá sentido ao mais sagrado (invisível), e o que não alcança isso é vão: “Contra o que se sente / toda filosofia é mesmo vã, / o livro é sagrado / quando o que apregoa / é revelado na carne” (Epigráfico, p. 33). A carne não é prescindida pelo esplendor epifânico. O ápice deste é, mais que tudo, encarnação!
“A duração do dia” sugere ainda reclusão: fala-se a partir do porão, de dentro da casa, de dentro de si, de trás das vidraças, das não poucas janelas etc. Porém nunca se insinua aprisionamento, tudo se reveste de serenidade e até resignações heróicas. Quando há sentimento diverso, este participa do que chamei de “agônico gozoso”. É o bom multifacetado nas contradições de um mesmo “dia”.
A condição humana é exposta de modo desconcertante em toda a obra de Adélia Prado. A grande extensão do mistério humano se mostra em dramático teor psicológico igualmente profundo aqui. Bastam estes versos para ilustrar o que se diz: “Quem me dera os lobos fossem fora de mim, / bastava um pau e os afugentaria. / Mas seus fantasmas é que uivam inalcançáveis.” (Alcateia, p. 73). Dentro. E fundo.
Alvíssaras chegam na hora boa. Neste livro como em outros da autora, a misericórdia se mostrará intacta e a salvação vaza para todos os lados, ainda que custe a suspensão do “dia” no sono do Cordeiro/pastor e esquecimento dos pecados: “A salvação, mais que viável, / é certa para santos e réprobos.” (A suspensão do dia, 78).
Pode não agradar a todos (o que é normal), mas este é um livro maduro, bom, de quem está muito segura do que faz e sabe o que quer. Alguns de seus poemas erigem-se tão acima da média, que podem figurar em qualquer antologia. Adélia escreveu a poesia dela (nossa), como ela mesma (a poesia) pediu para ser escrita. Sem artifícios. Sem enfeites. Só poesia. Nuinha. Três versos do mesmo livro, aplicados aqui a nosso propósito, serviriam para sintetizar em clímax “A duração do dia”: “a lâmpada de repente partindo-se / com estrondo e multiplicado clarão, / tudo sequencial, tudo no mesmo dia!” (Credo, p. 31).
Dancemos com essa luz. Amém.

(Bibliografia das citações: PRADO, Adélia. “A duração do dia”. Rio de Janeiro: Record, 2010.)

Antonio Fabiano
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

ADÉLIA PRADO EM ENTREVISTA A ANTONIO FABIANO


Adélia Prado - Fotografia de Antonio Fabiano

ANTONIO FABIANO: Quando li aqueles versos do seu novo livro – “Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética: / ‘Vai calçar um trem, / agora mesmo a casa enche de gente’” – fui tomado por um sentimento tal de urgência e ressurreição. Naquela noite me senti como uma represa que, depois de um imenso estampido, estoura e se derrama pelos mundos... Sua palavra poética tem inimaginável força. É neste espírito que começo a entrevista...

(silêncio)

Adélia, o seu legado poético é indisfarçável. Sua obra tornou-se adulta, autônoma, parece não mais precisar de nada. Explico-me... Sua voz – para além de você mesma, a poeta – já é dona de si e pode ir sozinha aos confins do mundo. É como a grande profecia do profeta, que cresce e sobrepuja o seu arauto, sendo inclusive esta a glória do arauto. O tom de Adélia já possui, a meu ver, aquela afinação inconfundível dos bons poetas, dos poetas maduros que podem tudo e já não devem nada a ninguém... Destes anos todos de poesia, como você vê seu próprio itinerário? Como você se vê diante do estarrecedor milagre dessa obra?

ADÉLIA PRADO: Toda vida ‘soube’ que a poesia é maior que o poeta. Crer nisso me descansa. A poesia é mesmo um milagre, epifania, algo terrível na sua beleza que de repente se mostra. Czeslaw Milosz falou disso e usei seus versos como epígrafe geral do livro. Como me sinto? Pequena e imensamente feliz, sou o ‘pobre de blusa nova ganhada’.

ANTONIO FABIANO: Dizem que escrever é muito perigoso. Você concorda com isso? Em sua relação com a palavra, já experimentou alguma vez o fracasso? Se sim, como o transpôs?

ADÉLIA PRADO: É muito perigo se você frauda o trabalho colocando-o a serviço de ideologias, doutrinas filosóficas ou religiosas, quando visa resultados, porque arte é “expressão pura”. Engajá-la é crime de lesa poesia. É perigoso porque conspurca sua natureza, que obedece a leis mais altas que as do seu desejo. Fracassar é não conseguir dizer. Quando acontece, para-se e espera-se que a forma se mostre de maneira perfeita. Uma vez publiquei em um livro uns três poemas, que refiz em nova edição, por causa de uma advertência crítica que acolhi. Uma pedrada no meu orgulho, mas foi ótimo também. Percebi que havia versos sobrando e a poesia não tolera excessos. Pequei por entusiasmo, mas pequei.

ANTONIO FABIANO: Alguns escritores são lidos e respeitados, o que já é muito. Você, além disso, é amada e conta com uma legião de interlocutores que gostam da sua palavra e pessoa, a mulher. O que digo não acontece apenas aqui em Minas, onde os nomes de Adélia Prado e Deus se confundem (risos), mas constato a mesma dileção, o mesmo respeito, em quase todo lugar aonde tenho ido. A que você atribui esse fascínio que exerce, mesmo sem querer, sobre tantas pessoas de boa vontade? E como lida com isso?

ADÉLIA PRADO: Bom, pessoas de boa vontade são para isso mesmo. Para amar tudo, inclusive essa senhora mineira. Espero que não por condescendência – o que não seria amor – mas por causa da poesia, ela sim, de natureza amorosa, fraterna, que a nada e a ninguém exclui, provocando em nós a alegria da comunhão humana. Lido com isso dando graças.

ANTONIO FABIANO: Seu público é eclético, vai de intelectuais de peso a pessoas sem tais pretensões e até analfabetas. Estas e aqueles captam sua poesia sem embargos, relacionam-se com ela da veneração religiosa à crítica mais mordaz. Você é lida na academia e nas cozinhas do povo, concomitância esta que é impressionante e muito rara. Qual o segredo dessa fluência, tão ambicionada pela maioria dos escritores e alcançada, mesmo dentre os melhores, por pouquíssimos?

ADÉLIA PRADO: O segredo só pode estar na poesia. Tenho certeza.

ANTONIO FABIANO: Uma pergunta inevitável... Como se dá a relação de sua obra literária com a mística cristã? Sua espiritualidade pessoal interfere na obra, ou a obra é antes geradora dessa vivência religiosa que nos testemunha?

ADÉLIA PRADO: A arte (a poesia) é religiosa na sua natureza íntima e não por causa do tema, do enredo, da casuística. Não é porque falo em Deus, em religião, ou devoções que um poema é religioso, mas por causa da forma, que não é formato, mas a própria beleza, escopo de toda arte. Experimentar a forma, a beleza é experimentar um centro de significação e sentido que alegra, consola e nos aponta para algo (acredito que Deus), a pessoa divina que nos fala através da obra, coisas como: a vida é eterna, ressurgiremos, a beleza de agora é apenas sinal, pegada da verdadeira beleza, a que nos aguarda ao final de nossa vida. A mística e as obras dos místicos são experiências poéticas e portanto religiosas. Os salmos são poesia. Um poema falando de um homem no seu cavalo ou de ondas do mar pode levar-nos a um sentimento de reverência diante do mistério e isso é religioso.

ANTONIO FABIANO: “Oráculos de Maio” (1999) pareceu-me, desde o advento de sua grande e imbatível “Bagagem” (1976), a obra mais perfeita de todo o conjunto poético. Já lhe disse isso. A crítica mais autorizada não deu, a meu ver, a devida atenção a esse acontecimento que o tempo, sem dúvida, reclamará a lhe [à obra] fazer justiça. Agora nos vem “A Duração do Dia” (2010), a confirmar o passo firme dessa trajetória. A recepção tem sido boa... Em sua opinião de leitora daquilo que escreve, já não tanto como autora ou “mãe” da obra, este livro traz surpresas ou é apenas mais do mesmo velho bom vinho?

ADÉLIA PRADO: Cada autor só tem uma coisa a dizer. É sempre o mesmo mas, a cada vez de um lugar diferente. As paixões boas e más permanecem conosco e serão expressas de maneira mais jovem, mais madura, mais experiente, segundo a vivência do autor naquele momento. Fico pensando num quadro feito por um pintor em décadas, dos dez aos oitenta anos. Será o mesmo vinho e conforme se acredita, melhor.

ANTONIO FABIANO: Uma vez você me disse que “Bagagem” é o livro primevo (eu diria, perfeito) que a sua pena tenta reescrever toda vez que trabalha numa nova obra... Ainda pensa assim? É o que pensa também em relação a “A Duração do Dia”?

ADÉLIA PRADO: Se me lembro bem, disse que todo livro quero escrevê-lo como escrevi Bagagem, numa alegria de descoberta e fundação. Todo poeta sabe disso, porque uma das qualidades da poesia é a sua incorrigível juventude. Não intentei isto com o novo livro, não é preciso, acontece necessariamente e, quando não acontece, não publico, a não ser que me equivoque.

ANTONIO FABIANO: Eu sou mendigo e você é pródiga... (risos) Que verso me daria dos seus muitos, neste momento, para que eu o partilhasse – nunca avaro – com os amigos e leitores do meu Blog?

ADÉLIA PRADO:

NO CÉU

No céu, os militantes,
os padecentes
e os triunfantes
seremos só amantes.

Este é um poema de Oráculos de Maio.

Meu caro Antonio Fabiano, respondi com muito gosto a suas perguntas, que achei muito pertinentes. Foi uma alegria e você é muito gentil. Obrigada por suas boas palavras...



ADÉLIA PRADO & ANTONIO FABIANO
Setembro de 2010
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

LITURGIA DAS CIGARRAS

Tenho bastantes fantasias
Para provar-me humano
E escandalosamente
Poeta.

Já quis recitar aos berros
Quase histericamente afobado
Um poema de Bandeira
Que diz
Eu quero a Estrela da Manhã!...

Ah, isso foi há muito tempo!
Eu decantei tal paixão
Não dei vexame
(comedido demais que sou)
Nem hei de fazê-lo, agora, depois de frade
Num convento onde silêncio é tudo!

Mas sou um homem de fraquezas.
Por isso à boca da noite
(esta que vai nos engolir)
Quando estou sozinho em minha cela
E as cigarras começam a cantar
Nas árvores lá fora
Eu abro solenemente um livro
Bagagem
E recito com mãos trêmulas
Certo módulo de verão.

Tudo faz sentido depois disso!

Eu, que antes odiava com ódio mortal as cigarras,
Passo a amá-las generosamente
E chego a pensar
Que Deus criou esses insetos tolos
Que cantam até estourar
Só para que se escrevesse um poema
E eu me saciasse em tal mistério
Na crueza de secretos versos
Em dias quentes como este
De propagação de som no espaço
E calor de fogo no espírito!...

Isso mais do que estranho é sublime!
Faz valer à pena toda a vida!...
De tal modo o é
Que culmino assim minhas Vésperas
Dentro de alta noite...

Antonio Fabiano
Direitos reservados

PS: Aproveito para trazer à baila este poema antigo, dedicado a Adélia Prado.

AMOR É ESCOLHA...

Escrevo pra mim, não pra você. Lição não dou pra ninguém. Amor é escolha, decisão, resolução de fortes. Não se reduz a um sentimento edificante, nem à reciprocidade dos que se afinam. Vê nossos velhos pais? Amam-se, mas não como os adolescentes apaixonados que foram um dia. Amam-se no ceder, na renúncia, na confiança que depositam nessas coisas duradouras... Apostar no que dura pra sempre é difícil! Pagamos um preço bem alto, pelo que não se acaba com o tempo. Mas que graça teria a vida se tudo fosse fácil e barato? Quer ver? Podemos agir por impulso, mover-nos só pela empatia, estar com quem diz o que queremos ouvir, acreditar que são nossos amigos aqueles que não nos perturbam, não nos questionam, não nos aborrecem... É fácil ir a qualquer lugar com pessoas fáceis. Mas pessoas fáceis geralmente são fúteis. O fútil dura só um momento, não deixa marca em nós que valha a pena. Difícil é conter em nossa atmosfera pessoas que nos amam tempestivamente. Que nos amam! Pessoas que vão fundo. Pessoas que bagunçam nossa vida, mas nos querem bem. Pessoas que nem sempre são a nosso modo agradáveis, mas nos adoram de verdade. Pessoas que se importam conosco em longo prazo, que não pensam só no imediato, no riso barato de agora, no fluxo fácil do rio que evapora-se e não leva a mar algum. Quer saber?: qualquer relação é mesmo escolha. Não importa o que aconteça, você escolheu e pronto! O amor patológico murcha. O da escolha, enquanto houver a resolução, não. O tempo dirá quem está do nosso lado, o que é verdadeiro ou falso, o que fica e o que passa. Há coisas e pessoas que passam por nossa vida e não acrescentam nada. Há, por outro lado, quem tenha vindo pra ficar, fazendo a enorme diferença. De fato uma só coisa é necessária... Mas só nós – e ninguém mais por nós – podemos escolher a melhor parte!... Muitas relações não duram porque as pessoas se escolhem por conveniência, afinidades pueris, coisas transitórias, comodidades afetivas, inseguranças, vícios. Porém, aqueles vínculos que se dão na paciência de um agricultor, que lança suas sementes em terra boa e esquecido espera que elas germinem, como de fato o fazem, silenciosamente; aqueles vínculos que se dão na tolerância e no respeito mútuo; tendem a durar e às vezes tornam-se árvores frondosas, de refrigerante sombra, com flores, frutos... Não é assim toda árvore plantada junto às nascentes de água viva? Ora, ora, quem bagunça a nossa vida – quando há amor – e nos desestabiliza presta melhor serviço que os ventos faceiros, vagabundos, que passam por nós e não mudam nada, tocando-nos só muito superficialmente e roubando-nos míseras folhas secas. A sinceridade que dói é ainda melhor que gentis mentiras. Quando acordarmos deste sono, veremos o verdadeiro quilate dos que nos cercaram, dos que de perto ou de longe nos amaram ou só fingiram nos amar. Um dia tudo estará tão claro e tão seguro, tão pleno de certezas! Então diremos: Que escola maravilhosa é a vida! Que mistério tão rico é o tempo a dar sabor aos vinhos de nossos odres!...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 20 de setembro de 2010.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

sábado, 18 de setembro de 2010

MUITO BOM! VALE A PENA LER DE NOVO!


Todo intelectual que visitou ou viveu o Brasil das últimas três décadas, leu ou pelo menos ouviu falar deste livro do Affonso Romano de Sant'Anna: “Que País É Este?” (1980). Reeditado pela Rocco neste ano de 2010, conta com bonito projeto gráfico, editoração e capa de Fatima Agra. Infelizmente a foto digital não permite ver os delicados relevos da capa... Fica aí mais uma SUGESTÃO de leitura! Quem não leu, leia! Quem já leu, vale a pena ler de novo! Fragmento (desconfigurado) do poema Que País É Este? : “Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça / em busca da especiosa raiz? ou deveria / parar de ler jornais / e ler anais / como anal / animal / hiena patética / na merda nacional?” (Affonso Romano de Sant’Anna). Publicado em plena ditadura militar!!! Há mais sobre o poeta e seu livro em postagens antigas deste Blog.