sexta-feira, 19 de setembro de 2014

ANTOLOGIA POÉTICA

CANTOCHÃO 
(Antonio Fabiano)

Coberto em escombro e silêncio
Grossos tijolos pedras
Jaz entre céu de sol e chão de caatinga
O que sobrou do velho convento
Que séculos mais tarde
A minha jovem descalcês carmelitana pisa.

A chave é tão grande...
Mas onde a porta? 

Aportem meus pés
Sobre estas rochas
Como carícia de um canto em cantochão 
Que se não as escutarmos
Elas gritarão...


In: MOSSORÓ E TIBAU EM VERSOS: antologia poética. Org. David de Medeiros Leite, José Edilson de Albuquerque Guimarães Segundo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014, p. 39.

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“Como esta nota de apresentação se propõe a um comentário geral, não pretendia me deter a um poema especificamente. Mas terei que excetuar para contextualizar o poema “Cantochão”, autoria do frei Fabiano de Santa Maria do Monte Carmelo. É sabido que existe uma ligação histórica entre a Ordem Carmelita e nossa cidade. Câmara Cascudo, em seu livro Notas e Documentos para a História de Mossoró, refere-se à “presença desta Ordem desde o primeiro ou segundo ano do século XVIII, com atividade religiosa regular”, acrescentando que existiam relações amistosas entre frades e indígenas. Os escombros do que foi a morada dos Carmelitas estão lá na zona rural, esperando uma sonhada prospecção arqueológica. Pois bem, em janeiro de 2008, frei Fabiano visitou a capela de Nossa Senhora do Carmo, localizada precisamente no, hoje, assentamento Carmo e, na oportunidade, desejou fazer uma oração memorial junto aos escombros da antiga morada dos seus confrades, mesmo que, para tanto, tivesse que caminhar em meio ao mato, como lhe foi advertido. Aquele momento foi marcante para o religioso, porquanto, anos depois, ele nos remeteu esse poema. Em tempo: a chave aludida no texto lhe foi mostrada por um morador do lugar, que a guarda como relíquia, desde que a casa-convento ruiu.”

David de Medeiros Leite
em fragmento de À guisa de Apresentação,
texto introdutório da importante Antologia.


terça-feira, 10 de junho de 2014

INSOMNIA by Elizabeth Bishop

INSOMNIA

The moon in the bureau mirror
looks out a million miles
(and perhaps with pride, at herself,
but she never, never smiles)
far and away beyond sleep, or
perhaps she's a daytime sleeper.

By the Universe deserted,
she'd tell it to go to hell,
and she'd find a body of water,
or a mirror, on which to dwell.
So wrap up care in a cobweb
and drop it down the well

into that world inverted
where left is always right,
where the shadows are really the body,
where we stay awake all night,
where the heavens are shallow as the sea
is now deep, and you love me. 

Elizabeth Bishop

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Eis a tradução deste poema de Elizabeth Bishop, por Paulo Henriques Britto:

Insônia

A lua no espelho da cômoda
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais)
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.

Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
— Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer no

poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.


(BISHOP, Elizabeth. "Poemas escolhidos". Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)

terça-feira, 13 de maio de 2014

"MIÚDOS COMO GRÃOS DE ARROZ"...

"Woman head with earrings"
Amedeo Modigliani, 1917
Oil on canvas - 46 x 30 cm
P. C. Paris


PINGENTES DE CITRINO

Tão lírica minha vida,
difícil perceber onde sofri.
Depois de décadas de reprimido desejo,
furei as orelhas.
Miúdos como grãos de arroz,
brinquinhos de pouco brilho
me tornaram mais bondosa.
Fora minhas irmãs,
que também pagam imposto
ao mesmo comedimento,
quase ninguém notou.
Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.

Adélia Prado
Do livro: MISERERE 
(Ed. Record, 2013)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ANCHA PELEA

ANCHA PELEA
Antonio Fabiano

Como se mi pecho fuera de acero inoxidable
La verdad rompió su camino
Al través del hilo de su dolor
En ancha pelea.

Las palabras se han hecho de silencios
Y todos los deseos obscuros.

Hay un hombre que escribe cosas raras
Y otro que se muere en su secreto.



PELEJA
Antonio Fabiano

Como se meu peito fosse de aço inoxidável
A verdade rompeu seu caminho
Pelo fio da dor
Em dura peleja.

As palavras se fizeram de silêncios
E todos os desejos obscuros.

Há um homem que escreve coisas estranhas
E outro que morre em seu segredo.

(tradução livre do próprio autor)

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* MENÇÃO HONROSA no 1° CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA DA ALACIB (Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil) em 2013. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

CD "SERIDOLENDAS" de WESCLEY J. GAMA

Capa do CD SERIDOLENDAS

Trabalho primoroso do meu amigo músico e poeta WESCLEY J. GAMA.
Grande realização potiguar de 2013 para a glória do Seridó sempre tão farto de talentos!
A capa do disco acima reproduzida é de outro grande amigo, o artista plástico ASSIS COSTA.
Título: "Cabras do Sertão"
Acrílica s/ tela de 2011 em dimensões 100cm x 90cm

Obrigado, Wescley, por tão especial presente de Natal!