segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
LIVRO CINZA: DO LUTO E DA TERRA
A tarde cai sobre os cajueiros
a tarde pintada de sangue
a tarde de sombra e de lágrimas.
Como um cão de guarda
um da prole vela o corpo no chão
outro toma as providências
outro corre para o nada.
Os três – órfãos pela primeira vez.
Dói tanto em quem não morreu!
No canto da boca um risco de sangue brilha
como nenhuma estrela é capaz de brilhar.
Então é isso?
Termina assim em líquido silêncio a vida?
A mulher – dor desmedida...
– Não quero ser consolada!
Vão chegando de longe os parentes
com vozes sentidas de pêsames e comiseração.
Os velhos amigos
(do tempo em que homem não chorava)
a chorar (como se isso fosse uma licença poética)
vêm se despedir e abraçar a família.
– Tinha sessenta e dois?
– Não. Sessenta e um.
– Parece que está dormindo...
– Como aconteceu?
– Tome um pouco de café!
– Conseguiu?
..............................
Já se passaram quantos anos?
Vida... como ousou continuar?
TELEFONE SEM FIO
– Teu pai morreu!
foi o que disse a voz sentindo pena
dele e da miserável orfandade
que o adotaria dali em diante.
– Teu pai morreu!
ouviu e ficou tão pequeno
os pés e as mãos pequenas
olhos e boca de menino
um nada em carne e osso
medo e abandono.
– Agora você tem que ser homem!
FILME MUDO
No sonho
a palavra não é dita...
é só silêncio
um silêncio macio
e risquinhos na tela
como naqueles filmes
mudos
de antigamente.
Não lembro se tem cor
– acho que é só preto e branco –
a porta se abre
ele entra e
nem sequer lembramos
de nós dois
quem morreu
quem está vivo.
ALFINETE
Atravesso a cidade em poucos minutos –
tão pequena que nem com lupa
dá pra ver no mapa...
Mas é maior que um pensamento
e existe grande no passado.
Com passos firmes amo e deixo
nem sequer volto o rosto
(como se ódio fosse o que é amor e medo).
Ficam para trás:
a rua da infância
canteiros de hibiscos
a escola pobre e aflita
um time de futebol
um punhado de amigos
o sítio dos avós
a casa branca escondida
algodoais tão eternos
que viram ainda pequena
a avó da minha avó.
Do alto da serra
antes da última curva e reta
a visão que eu teria
se fosse de olhar para trás.
Deponho este canto em seu colo
que por entre névoa se insinua
cabeça de alfinete
o que hoje é perda e ganho
caminho da minha aldeia
rio sem fim... rio grande
flor de fundo de quintal
e – se não perdi as contas –
mil cajueiros de lágrimas.
SALTO
A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi
como o céu está sobre a terra
o que quer dizer que eu sou eu
subsiste a ilusão do cosmos
a preceituar o caos
como as coisas de cima estão sobre as de baixo
sem que haja hierarquia nisso.
A imagem pétrea
é reminiscência ficcional
desenho fotográfico
matéria prima sólida mineral
esfera que apanhei na via costeira
areia e vento e litoral
um sonho potiguar.
A ponte de Igapó projeta
a sombra de sua alma férrea
no rio do meu amor
onde nadam camarões
e num salto acrobático perfeito
mergulha a minha alma
que não nada.
FOGÃO À LENHA
De repente chispa a luz
como quando Deus disse “faça-se”.
O crepitar
do fogão da minha avó
acorda o mundo.
Há alegria silenciosa em cada gesto
no cumprimento do caminho.
O abano
(este de palha que serve
para espanar brasas e apaziguar calores)
doma o fogo.
As tias velhas se juntam para opinar
falam em língua antiga
todas ao mesmo tempo e
espantosamente se entendem.
Eu sou criança nesta memória.
Nunca ninguém morreu.
Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:
mãos sujas de tisna... cheias de cinza.
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
COISAS DE POETA
CERTAS
DELICADEZAS
Um homem delicado
deve ser qualquer coisa
entre pingo de orvalho
e gota de suor.
Algo se faça nele
entre a rotação da terra
e um abalo sísmico.
Um homem delicado
talvez faça poemas
e – quando não – os leia
ou mande flores.
Talvez não haja homens delicados
e tudo seja uma questão de cena.
JUÍZO
FINAL
O juízo virá
a esperança golpeada
se levantará
vai arribar a saia
rodar
e por último rir.
Com sangue nos olhos
em marcha
tomaremos a praça
e para cada segundo
roubado de nossas vidas
pediremos conta.
ÔNIBUS
Avança o ônibus
como uma lança
no coração de Jesus.
Penetra o mistério
de uma estrada sem fim –
– ainda que todas as coisas tenham fim
eu saiba disso e saiba
onde quero chegar.
As janelas são de vidro
como era de vidro o anel que
se quebrou.
Escura a via
boca de um lobo
ventre de baleia
arpoador.
A luz que me ilumina
nesta escura floresta de sentidos
é o sem sentido brilho
de uma tela...
Os meus dedos magros
mastigam teclas
pisam mundos
como quem pisasse nos astros distraída
se musa fosse ou Deus.
O que se faz nada mais é que
quebrar com as mãos
espaço e vento
até não haver tempo
de alguma coisa rimar.
Será esquecido o risco
sem deixar cisco
piscadela
farol
som de buzina
motor.
Que tudo se apague como vela!
ARCANO
De
outras entranhas outra vez nasci...
Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!
Mas tua boca nunca eu a beijei!...”
A esta estranha dama de El-Rey
Fiz uns poemas tristes como os de Anto.
A minha boca cega e o que canto
Perderam-se no tempo de outra lei.
E os seios da mulher que mais amei
Murcharam de espera... luto e pranto!
Guarda a dolência dos veludos caros
A nívea seda e os préstimos de Paros!
Guarda bem o cinzel da nossa dor!
O verso lindo e raro que fizeste
Aquele mesmo de arcano celeste
Não digas nunca – nem a mim – amor!
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
REPENTINO TEMPORAL
REPENTINO
TEMPORAL
Posso escrever um poema hoje à tarde
sob a implosão do poente
– pendente o coração –
quando o sol tingir o céu
dizendo o que não cabe em palavra
ou tela...
(quando a noite adormecida
abrir seus olhos de pitomba).
A bordo o tempo se gasta
sílaba a sílaba...
O verso aporta.
Nenhum medo de morrer.
Nenhum medo de viver.
A lembrança
é uma flor de guarda-chuva
avessado pelo vento
em repentino temporal.
ÁS
Deito os lábios
sobre a fenda do tempo
que pare a poesia que me pare.
Doce é a seiva do tempo
seu fruto sumo
na língua...
Ah pélvis singularíssima
mãe de todos os superlativos
dança sensual das horas!
Quero a boca no seio
na cava
da palavra que diz a não-palavra
do silêncio
(esse estribilho que toca)
sinos e alambiques de cachaça
carne e gozoso espinho
luz
ressaca de vida.
Abri a carta...
A letra atávica
descosturou meus olhos.
Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada
um grão que seja de poeira
da tarde que eu quisera não findasse –
clave que me leia e não me explique
dor que não me mate e pacifique
este ás que dia e noite grita em mim!
RALO
A lembrança escoa e desce
como água e sabão
para o fundo do ralo
secreto – abissal.
Tão fácil ruir
em poucas palavras!
Indecifrável é
a água minguada
marulhar de espumas
pipocar de estrelas
cristais de luz e pele
medo de se afogar.
A vida rui
esvai-se e vai
desce em trago e gole
cálice e colo.
Mãos que se lavam
uma a outra.
GRAMÍNEAS
As ervas crescem no jardim e sobre os prados
por mais que as arranquem.
Crescem sobre o campo santo
como se tudo existisse
para findar em vida
ainda que vida não seja começo
nem fim das coisas.
Crescem como remorso
peso de consciência e culpa
com fúria e malquerença
por mais que as arranquem.
Quem disse que daninhas
não têm lugar em jardins e prados?
A morte
esta outra cínica como sua irmã
nega-se a si mesma em cada ato.
Há flores sobre a rocha
cena dura e carinhosa de se ver
uma vingança doce.
Este cheiro vem dos ciprestes?
(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)


