sexta-feira, 7 de outubro de 2011

“A Razão, o homem e um Reino dos fins na Fundamentação da metafísica dos costumes de Immanuel Kant” – Antonio Fabiano

“A lei moral é santa (inviolável). O homem, conquanto bastante profano, deve conceituar a humanidade em sua pessoa como santa. Tudo o que existe na criação e sobre a parte que se tenha suficiente poder, poderemos empregar como simples meio; unicamente o homem, e com ele toda a criatura racional, é fim em si mesmo. É ele, efetivamente, o sujeito da lei moral, que resulta santa graças à autonomia da sua liberdade.”

Immanuel Kant (Crítica da Razão Prática)


INTRODUÇÃO

A obra que receberá nossa especial atenção, no presente artigo, intitula-se Fundamentação da metafísica dos costumes. Dela extrairemos os principais pontos de reflexão, no estudo da moralidade kantiana, segundo o tema previamente delimitado. Esta obra, sobre a qual nos debruçaremos, foi publicada em 1785, por Immanuel Kant (1724 – 1804), um dos maiores gênios da história da filosofia. Na referida obra já estão encerrados os principais elementos da moral kantiana que, não obstante, encontrará seu corolário na Crítica da razão prática (1788), da qual aquela é modestamente um estudo prévio desta.
A Fundamentação da metafísica dos costumes é, com inegável prestígio, um escrito “pequeno” de gigantescas proporções. Ela faz jus ao nome, e de fato se impõe como alicerce impreterível para a que se queira conceber autêntica Metafísica dos Costumes segundo Kant. Dividi-se em três secções, onde são respectivamente abordados: o percurso do conhecimento moral da razão vulgar para o conhecimento filosófico; a transição da filosofia moral popular para a metafísica dos costumes; e, finalmente, a passagem da metafísica dos costumes para a crítica da razão prática pura.
Procurei seguir o raciocínio do filósofo pari passu em cada secção, sem a ingênua pretensão de abarcar todo o conteúdo da Fundamentação. Na medida do possível limitei-me ao referido escrito, sem avançar para as conclusões obtidas nas suas obras posteriores afins, dando voz ao próprio filósofo no meu texto, através de abundantes citações, sobretudo no último capítulo.
Este estudo divide-se em três capítulos, onde tratarei respectivamente: 1º) do problema da felicidade, da boa vontade e do Dever; 2º) da não solução do primeiro problema (da felicidade), da possibilidade de existência de um imperativo categórico, e da Autonomia da vontade; 3º) consequentemente de um Reino dos fins, do tema da liberdade, e de como é possível um imperativo categórico. As tríades de cada título se coadunam às secções da Fundamentação, exceto o tema do Reino dos fins, que já aparece no final da segunda secção e que propositalmente desloco para o terceiro capítulo. No mais, dado o fato de que se imbricam os assuntos, não raras vezes eles reincidem e interpenetram-se no decorrer do estudo.
Dei particular relevo ao problema da felicidade, cujo conceito é basicamente antagônico a uma fundamentação da moralidade pelo viés kantiano. Nas entrelinhas do que se diz na Fundamentação, e da pouca simpatia que Kant nutriu pelo referido tema enquanto fim legítimo de todas as ações humanas, esconde-se uma consagrada tradição defendida por gigantes e que irá ruir na nova concepção moral deste filósofo alemão.
Merecerá maior destaque a ideia de um Reino dos fins, bem como a consideração do homem como fim em si mesmo. A realizar o amplexo destas duas coisas e todo o mais, enfatizei esparsamente o papel fundamental da Razão kantiana. Por isso, o título deste estudo é A Razão, o homem e um Reino dos fins na Fundamentação da metafísica dos costumes de Immanuel Kant.
Ver-se-á ainda que neste entremeio a liberdade tem sua importância assegurada e determinante para todo o sistema moral que se esboça.
Quem de fato reina neste Reino dos fins? Que novidade Kant nos traz do bojo de suas singularíssimas universalidades? Quais as implicações desta moral do dever? Quais viabilidades e aplicações dela nos são de fato possíveis? Que visão de ser humano aqui se apresenta? E qual a relevância disto para a ética do nosso tempo?
É importante o estudo desta Fundamentação da metafísica dos costumes porque, feitas as devidas restrições e necessárias atualizações, nela se explicitam elementos essenciais para a compreensão e o exercício da moralidade no universo humano de todos os tempos. Este trabalho visa responder apenas algumas daquelas indagações, e suscitar outras que quiçá se respondam somente no estudo mais aprofundado de toda a moral kantiana, o que nem de longe se vislumbra aqui. É de capital importância conhecer melhor este pensador, que é sem dúvida um divisor de águas na história da filosofia de um modo geral. Seu contributo no campo ético é inestimável, e não por acaso é com frequência alvo da crítica de outros gênios de comparável grandeza. Parece-me que para a filosofia de uns e outros, Kant está fadado a ser pedra de tropeço ou edificação. Difícil é ignorá-lo e, em matéria de moral, discutir ética em nossos dias sem de algum modo considerá-lo.

Fim da INTRODUÇÃO de
“A Razão, o homem e um Reino dos fins na Fundamentação da metafísica dos costumes de Immanuel Kant” – Antonio Fabiano
E-mail: seridoano@gmail.com
www.antoniofabiano.blogspot.com
* Próximo artigo: O PROBLEMA DA FELICIDADE, A BOA VONTADE E O DEVER.
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

FILOSOFIA


Nos próximos dias publicarei aqui, dividido em artigos: “A Razão, o homem e um Reino dos fins na Fundamentação da metafísica dos costumes de Immanuel Kant”. São partes de algo que escrevi em 2008 para o Instituto de Filosofia da PUC. É certo que não há genialidade neste escrito (pelo seu teor científico próprio, sequer vou além da kantiana Fundamentação da metafísica dos costumes), mas penso que partilhar estas notas pode ser útil a alguém que, com honestidade intelectual, se debruce sobre o referido tema de estudo e queira aprofundá-lo. Espero encontrar pessoas que se interessem pelo assunto e tenham disposição para esta leitura um pouco exigente. Alegrar-me-ei se puder estabelecer algum diálogo com estudiosos e simpatizantes do pensamento kantiano, além de outros filósofos. Aceito possíveis correções, visto ser muito fácil errar nestes assuntos, lembrando-lhes humildemente que não sou especialista nesta área, nem tenho maiores pretensões.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

AS CANÇÕES DOS NOSSOS EXÍLIOS


Reencontrar Gullar é sempre muito bom... porque a vida não basta!
Hoje: 5 de outubro de 2011.



- para Ferreira Gullar

Cai de repente a nostalgia destes rios
Que inversos correm para dentro de nós
E nos invadem e afogam
Mas não (não)
Nunca morrem.

Como estão vivas as canções de nossos exílios!

O galo canta e eu ouço seu canto que me toma pela mão.
É o anúncio numinoso que antecipa o despertar
Da derradeira aurora.

Meu filho não vem?

Do céu caem brasas.
Pelejo na contínua fúria de amanhecer em cores
Quando tudo é preto e branco
Pelo avesso fogo das panteras
Que me rondam, ameaçam e até mordem
Por dentro.

A vida é um nó gozoso na garganta
Querendo nos enforcar
De modos inconfessáveis
Para nosso pasmo!

E só por isso não me faço,
Embora lindo fosse,
Lírico de vez.

Antonio Fabiano
Direitos reservados

terça-feira, 4 de outubro de 2011

L’INFINITO – Giacomo Leopardi (1798-1837)

“Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Così tra questa
Immensità s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare.”
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Há muitas traduções deste poema para o português.
Li as de Ivo Barroso, Mário Faustino, Vinícius de Moraes e Haroldo de Campos.
Não consegui me decidir qual é a melhor delas para pôr aqui.
Farei a minha tradução quando tiver mais tempo...

Il Passero Solitario – Giacomo Leopardi (1798-1837)

D'in su la vetta della torre antica,
Passero solitario, alla campagna
Cantando vai finché non more il giorno;
Ed erra l'armonia per questa valle.
Primavera dintorno
Brilla nell'aria, e per li campi esulta,
Sì ch'a mirarla intenerisce il core.
Odi greggi belar, muggire armenti;
Gli altri augelli contenti, a gara insieme
Per lo libero ciel fan mille giri,
Pur festeggiando il lor tempo migliore:
Tu pensoso in disparte il tutto miri;
Non compagni, non voli,
Non ti cal d'allegria, schivi gli spassi;
Canti, e così trapassi
Dell'anno e di tua vita il più bel fiore.

Oimè, quanto somiglia
Al tuo costume il mio! Sollazzo e riso,
Della novella età dolce famiglia,
E te german di giovinezza, amore,
Sospiro acerbo de' provetti giorni,
Non curo, io non so come; anzi da loro
Quasi fuggo lontano;
Quasi romito, e strano
Al mio loco natio,
Passo del viver mio la primavera.
Questo giorno ch'omai cede la sera,
Festeggiar si costuma al nostro borgo.
Odi per lo sereno un suon di squilla,
Odi spesso un tonar di ferree canne,
Che rimbomba lontan di villa in villa.
Tutta vestita a festa
La gioventù del loco
Lascia le case, e per le vie si spande;
E mira ed è mirata, e in cor s'allegra.
Io solitario in questa
Rimota parte alla campagna uscendo,
Ogni diletto e gioco
Indugio in altro tempo: e intanto il guardo
Steso nell'aria aprica
Mi fere il Sol che tra lontani monti,
Dopo il giorno sereno,
Cadendo si dilegua, e par che dica
Che la beata gioventù vien meno.

Tu solingo augellin, venuto a sera
Del viver che daranno a te le stelle,
Certo del tuo costume
Non ti dorrai; che di natura è frutto
Ogni vostra vaghezza.
A me, se di vecchiezza
La detestata soglia
Evitar non impetro,
Quando muti questi occhi all'altrui core,
E lor fia vòto il mondo, e il dì futuro
Del dì presente più noioso e tetro,
Che parrà di tal voglia?
Che di quest'anni miei? Che di me stesso?
Ahi pentirommi, e spesso,
Ma sconsolato, volgerommi indietro.
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Talvez este seja o meu poema favorito de Leopardi.
Em português temos a finíssima tradução de Ivan Junqueira.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CAUSO ACONTECIDO

Eu conto e os irmãos pensam que é mais uma daquelas estórias do frei Sebastião, com seu bom humor, sua barba enorme e andar envergado de santo que carrega o peso do mundo nas costas. É caso acontecido, deveras! Nós, lá no eremitério... E acharam de achar – o pessoal da universidade – uma lagarta rara, pré-histórica, que só tem lá, e que nem havia sido ainda catalogada nos catálogos da sua ciência própria. Pois cismamos de subir à mata de noitinha, que é a hora em que a criatura aparece, pra vermos a coisa. Subimos armados de paus e facões – porque mata é mata e não tem lei pra bicho – além de lanternas e muita coragem. Ô aventura besta! Vasculhamos tudo, folha por folha, e não achamos nada! Fomos que fomos e ficou por isso, que já era tarde e precisávamos descer. Desiludidos – confesso – descemos, rindo uns das caras dos outros, que gente atoleimada que se presta a um papel desses bem merece pagar caro pelo mico. A mata, aliás, é cheia de macacos! Durou o tempo de chegar e cada um entrar pras suas celas (que é o nome que se dá aos nossos quartos), quando um dos irmãos saiu-se rindo e chamando os outros. A lagarta, a raríssima, pequenina e horrenda, mais do que agarrada estava à barra da calça do frade, discreta como só bicho do mato sabe ser quando não quer ser notado! Êta, coisinha tão feia! Tão feia que até se abonitava andando e se esticando toda, todinha!... Depois disso eu também ri. E se alguém me contasse eu não acreditaria. A minha paga foi voltar à mata, no outro dia, pra devolvê-la incólume ao seu habitat. É por essas e outras que eu às vezes penso que a vida é mais inverossímil do que a arte. Antonio Fabiano Belo Horizonte, 3 de outubro de 2011. Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com E-mail: seridoano@gmail.com ------------------------------------------------- Ao fr. Márcio, que nem estava lá.

domingo, 2 de outubro de 2011

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – entrevistado por Antonio Fabiano




ANTONIO FABIANO: Muitos gênios se encontram no mesmo Affonso Romano de Sant’Anna: o jornalista influente, o teórico, o crítico, o ensaísta, o articulador cultural, o professor, o militante político, o cronista, o poeta etc. No mesmo escritor, a prodigiosa capacidade de ser muito bom em cada uma dessas coisas. Seu público é vastíssimo, no Brasil e também no exterior. Pergunto: na constelação de homens que é o nosso mesmo Affonso Romano de Sant’Anna, qual lugar ocupa o ‘exclusivamente poeta’?

ARS: Tirando suas amabilidades, a poesia pervaza tudo o que faço. Está na estrutura de alguns ensaios, está nas crônicas. Ser poeta é uma forma verbal de articular o real e a fantasia. Aliás, já disse várias vezes que o real é apenas a parte mais visível da fantasia.
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ANTONIO FABIANO: Roberto Drummond chegou a dizer em entrevista, certa vez, que o poeta que há em Affonso Romano de Sant’Anna deveria assassinar os outros criadores que coexistem nele, para o poeta prevalecer e nos dar a expressão máxima da melhor poesia de que é herdeiro. Ele considerou imperdoável seu desperdiçar-se nos outros criadores. O que acha disso?

ARS: Ele sacou as coisas. Acho até que foi por causa dele que levei QUE PAÍS E ESTE? para ser publicado pelo Jornal do Brasil em 1980. Claro que eu me expandi em outros gêneros. Por necessidade, compulsão também. A poesia é devoradora . Às vezes ela até mete medo. É possessiva. Aliás, toda forma de arte é possessiva. É como o amor. Ou então, é como o domador que tem que ficar na jaula com o chicote e o banquinho manobrando a fera sem se deixar devorar por ela.
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ANTONIO FABIANO: Seu grande livro de poesia, “Que país é este?” (1980), lançado ainda durante a ditadura militar, foi reeditado há pouco pela Rocco, no ensejo da celebração dos trinta anos de sua impactante primeira publicação. Não é comum vermos tanta agitação em torno de uma obra que nasceu antes mesmo da maioria de seus atuais leitores. E, no entanto, o público jovem saudou e leu isso com o entusiasmo e o espanto dos que o leram há trinta anos. A que se deve a perturbadora atualidade de “Que país é este?”, e o que nos diz pessoalmente o pai da obra, três décadas depois?

ARS: Esse livro tem me surpreendido muito. Nessa reedição pelos 30 anos encontrei pessoas que, nascidas depois da ditadura se debruçavam sobre os versos. Alguns amigos me disseram que esse poema teve um papel importante no processo de abertura. A poesia tem esses mistérios. Esse poema está em várias antologias e foi traduzido para várias línguas. Na semana passada no interior do Paraná, um grupo de atores/estudantes apresentou o poema antes de minha conferência. Uma das atrizes me confessou que cresceu com o poema, que o falava desde a adolescência. No mais, a questão QUE PAÍS É ESTE? é universal.
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ANTONIO FABIANO: Um livro que exige fôlego é o teu notável e também ousado “O Enigma Vazio” (2008). É denso e faz uma interessantíssima análise dos impasses da arte e da crítica de nosso tempo, através de posições firmes e bem fundamentadas, vasto conhecimento de causa etc. Como sintetizaria o fenômeno das artes na modernidade e na chamada pós-modernidade?

ARS: Se você ler o livro de poemas que acabou de sair SÍSIFO DESCE A MONTANHA vai encontrar a reverberação de certas ponderações lá. Ter vivido muitas experiências, ter ido a todos os museus importantes do mundo, ter convivido com artistas, ter participado dos movimentos de vanguarda e deles tomado uma distância tática, me deu a tranquilidade para escrever aquele livro. O interessante é que não apareceu ninguém para rebater minhas teses. Sei que dá trabalho ler algo assim. Passei a vida inteira atormentado com isso que atormenta tanta gente e parece que equacionei a questão dentro de uma ótica transdisciplinar. A arte contemporânea só pode ser entendida amplamente por instrumentos transdisciplinares. A estética só, não dá conta.
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ANTONIO FABIANO: Também a literatura vem sofrendo grandes transformações. Uma delas é o que se dá por meio da revolução tecnológica, que nem sempre é vista com bons olhos pela maioria dos escritores. Há uma banalização das letras em nosso tempo? A boa literatura está ameaçada?

ARS: São as duas coisas. Todo mundo pode ser autor, mas nem todo mundo quer ser leitor. Aí complica. Foi boa a democratização da internet, dos blogs, etc. Mas nem todo mundo que escreve é escritor, alguns são redatores, outros apenas expõem suas emoções. Literatura vai além da emoção.
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ANTONIO FABIANO: Em que mais diferem as atuais gerações de escritores, das gerações passadas? Que vantagens e desvantagens têm os escritores de hoje, em relação aqueles que já são clássicos?

ARS: Pertenço à geração dos escritores viajantes, aqueles que a partir dos anos 70 vararam o Brasil de ponta a ponta enquanto as gerações anteriores eram sedentárias. Já porque não havia meios de transporte, o país era outro, já porque eram funcionários públicos que ficavam no fim do dia nas portas das livrarias papeando. E sobre o advento do Ipad, computadores tenho escrito várias coisas, sobretudo o ensaio: O LEITOR, CADÊ O LEITOR? Que o Estadão deve publicar.
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ANTONIO FABIANO: Em sua opinião há atualmente o despontar de nomes promissores, das novas gerações, que de fato permanecerão? Pode-se pensar ainda em um cânon sagrado da nossa literatura? Ou as novas leis do mercado editorial já não nos dão certeza disso?

ARS: Você já reparou que nunca perguntam a um médico, quais são os novos médicos promissores, quais os novos engenheiros, dentistas? Seria interessante saber porque aos artistas se faz essa pergunta. Para responder eu teria que fazer uma longa pesquisa. Recebo dezenas, centenas de livros, hoje centenas de blogs. Há uma disseminação, dispersão, o que torna ainda mais difícil lhe responder. E as respostas restritivas correm sempre o risco de acabar formando uma “panelinha”: em alguns casos, existe por aí, algo que tenho até mencionado, que se parece com formação de “quadrilha” – grupinho defendendo seus interesses criminosamente.
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ANTONIO FABIANO: É difícil ser escritor ‘brasileiro’? Há incentivo de divulgação da nossa literatura, alguma política de difusão da mesma?

ARS: Hoje há mecanismos de incentivo. Na Biblioteca Nacional criamos bolsas para tradutores e para autores jovens. Hoje há oficinas literárias no país, algumas até pela internet. Os escritores estão viajando mais pelo país. Há muitas feiras do livro. Claro que há instituições como a Fagga, que organiza feiras e insiste em não pagar aos autores (eu não participo de coisas deles, já denunciei essa exploração). Mas a coisa mais importante é o surgimento dos “mediadores” ou “agentes de leitura” sobre o que tenho escrito constantemente.
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ANTONIO FABIANO: Poderia falar a respeito da sua experiência à frente da Biblioteca Nacional, um dos mais importantes acervos do mundo? Como vê os atuais programas de leitura em nosso país?

ARS: Sugiro a leitura de LER O MUNDO. Ali conto o que foi essa experiência, narro coisas para se entender a luta de uma geração pela leitura e pelo livro. No programa VIVA LEITURA (veja no Google), há mais de 10 mil projetos de leitura. Agora enquanto respondo suas perguntas, estou num avião, vindo de Natal onde falei para centenas de professores do programa Prazer de Ler, acabo de ler no jornal O Povo uma matéria sobre os agentes de leitura no Ceará. As coisas estão se mexendo.
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ANTONIO FABIANO: O que pensa do fenômeno da influência na obra de todo grande escritor?

ARS: Haroldo Bloom escreve sobre a “ansiedade da influência”. Todo autor é um comensal de autores anteriores. Alguns são parasitas puros. A pós-modernidade vive de parasitagem fazendo apologia do plágio, da copia, etc. Outros tentam inventar a roda. Dizia Valery: o leão é a soma dos cordeiros assimilados.
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ANTONIO FABIANO: Quem te instigou a ser poeta? Como descobriu que o fenômeno da poesia não era apenas uma coisa da adolescência? Alguém particularmente te inspirou? De quem Affonso Romano de Sant’Anna recebeu as mais marcantes influências?

ARS: Acho que tudo começou pelo fascínio da linguagem poética da Bíblia. Minha família era metodista, eu era predestinado a ser pastor, cheguei a pregar em vários lugares, mesmo adolescente. Numa crônica de LER O MUNDO falo sobre o valor/sentido dessa linguagem poética dentro das religiões e da literatura.
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ANTONIO FABIANO: Alguma vez pensou em desistir? Já experimentou o fracasso como escritor?

ARS: Todo escritor, todo artista às vezes acha que a fonte secou, há momentos de (aparente) esterilidade. É quando alguma coisa nova pode estar se armando. Clarice [Lispector] dizia que a estória de todo homem é a estória de seu fracasso, fracasso através do qual... E trato disto em SÍSIFO DESCE A MONTANHA, por isto, aliás, a epígrafe de Clarice quando ela diz que nossa verdadeira tarefa é “deseroizar-se”.
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ANTONIO FABIANO: Qual a grande convicção do amigo Affonso Romano de Sant’Anna?

ARS: Convicção? Não sei. Estou sempre tentando ver as coisas por vários lados ao mesmo tempo, assim você tem que variar seus pontos de vista, suas convicções, caso contrário perderá o fenômeno em sua totalidade, ficará com experiência muito parcial.
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ANTONIO FABIANO: Como Affonso Romano de Sant’Anna regeria o seu “Ministério dos Sonhos”?

ARS: Na verdade vivo dentro desse Ministério. É preciso sonhar para que o real se realize. Até os animais sonham. Como disse num poema, existe uma engenharia dos sonhos, uma arte de sonhar. Mas há que domar as alucinações, tirar delas o lado positivo. Há que saber a diferença entre o neurótico e o psicótico.
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ANTONIO FABIANO: O poeta considera-se uma pessoa feliz?

ARS: Tem aquele poema de Maiakovsky em que considera que em algum lugar do mundo, no Brasil, certamente, existe um homem feliz. Felicidade é uma palavra perigosa. Você sabia que em várias universidades existe curso de “felicidade”? Economistas estão escrevendo sobre isto. Alguns países querem medir a cota de felicidade dos cidadãos. O que existe, ao contrário, é a busca. Somos movidos pelo desejo, e o desejo exige novas conquistas e realizações.
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ANTONIO FABIANO: Poderia nos dizer algo mais de seu novíssimo livro de poemas “Sísifo desce a montanha” (2011)?

ARS: Prefiro que outros o digam, habitem por mim esses textos.
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ANTONIO FABIANO: A esta altura da vida, com sucesso e reconhecimento, com uma carreira literária bem delineada e seu grande nome escrito no cânon das melhores letras de nossa língua, como o poeta maduro – ao olhar para trás e vislumbrando ainda um futuro – vê seu próprio itinerário?

ARS: Estou como Sísifo, descendo a montanha, só que do outro lado. Já subi o que me foi dado subir, agora é descer com a pedra no ombro. E essa pedra até me parece leve... É estranho, mas é assim.
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ANTONIO FABIANO: Sobre o que pretende escrever, que ainda não escreveu?

ARS: Tenho vários livros engatilhados.
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ANTONIO FABIANO: Que palavra daria a este mendigo que o interpela e tanto admira?

ARS: Você é um mendigo rico, porque é generoso, sempre aberto à vida e à poesia. Que a poesia te abençoe!
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ANTONIO FABIANO: Pode deixar aos leitores do blog um dos novos versos? Esta é a pérola com que encerramos a conversa...


ARS: "ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO"

Erguer a cabeça acima do rebanho
é um risco
que alguns insolentes correm.

Mais fácil e costumeiro
seria olhar para as gramíneas
como a habitudinária manada.

Mas alguns erguem a cabeça
olham em torno
e percebem de onde vem o lobo.

O rebanho depende de um olhar.


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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA & ANTONIO FABIANO
Outubro de 2011
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com