sábado, 4 de dezembro de 2010

FERREIRA GULLAR - numa entrevista a ANTONIO FABIANO


O poeta Ferreira Gullar - Fotografias de Antonio Fabiano

ANTONIO FABIANO: Meu caro Gullar, sua atuação no panorama intelectual deste país foi, em muitos aspectos, preponderante para os novos rumos da nossa literatura e arte em geral. As letras do século XX lhe são infinitamente gratas, todos sabemos disso. Mas em pleno albor deste novo século torna-se ainda mais iniludível a assombrosa força de sua escrita... Poderia nos contar um pouco do seu itinerário poético? Como se fez o Gullar que hoje é das gentes e “flutua” pelo país e pelo mundo?

***FERREIRA GULLAR*** Você é muito generoso ao apreciar o que escrevo. Minha poesia tem percorrido muitos caminhos, aparentemente contraditórios mas, no fundo, coerentes, pois atendem a necessidade minha de expressar-me. Comecei escrevendo como um parnasiano, depois descobri a poesia moderna e passei a fazer versos livres, e logo entendi que deveria ir além. Disso resultou A Luta Corporal, que considero meu livro de estreia, porque é com ele que começo a compreender mais fundamente o que deve ser a poesia. Depois veio a poesia concreta, depois os poemas espaciais neoconcretos e finalmente o Poema Enterrado com que encerrei essa fase. Entro em crise, engajo-me politicamente e passo a fazer poesia política. São muitos anos nesse caminho mas durante esse tempo minha poesia mudou, busquei criar poemas mais ricos, mais sofisticados do que os primeiros poemas dessa fase. Nesse rumo, que envolve os anos de exílio, minha experiência pessoal e poética se amplia, se aprofunda, torna-se mais dramática e mais sofrida. Escrevo o Poema Sujo, que é de certo modo a síntese dessa etapa. De lá para cá, houve também mudanças, mas já não tão drásticas como no passado. O certo é que nenhum livro meu é igual ao outro, ou mero prosseguimento do outro.

ANTONIO FABIANO: Como se dá o exercício de sua escrita? Disciplina? Inspiração? Como acontece a criação poética de Ferreira Gullar?

***FERREIRA GULLAR*** Minha poesia nasce do espanto, de algo que me surpreende e me mostra que o mundo nunca está explicado. São surpresas que me põem diante da beleza ou do drama, da felicidade ou da perda. Sem isso não consigo escrever mas, ao mesmo tempo, há que ter o domínio do instrumento de expressão. A técnica não é suficiente mas é imprescindível, pois, sem ela, não se consegue realizar o poema.

ANTONIO FABIANO: Que vínculos tem Gullar, hoje, com a terra natal? Que laços o prendem àquele menino de São Luís do Maranhão, tantas vezes redivivo na obra do poeta maduro?

***FERREIRA GULLAR*** Costumo dizer que, se não tivesse nascido em São Luís, seria um outro poeta. Em tudo o que escrevo, São Luís de algum modo está presente.

ANTONIO FABIANO: Sempre que lhe pareceu certo, ao longo de sua carreira intelectual, você não hesitou em mudar de posição e até opor-se ao que não vai bem. É o caso do concretismo, a poesia “concreta”, para citar um exemplo só. O que fica daquela fase?

***FERREIRA GULLAR*** Se é certo que a poesia concreta é decorrência de A Luta Corporal, quando implodo o discurso, não fui o inventor dela. Os poemas concretos que fiz são diferentes dos poemas do grupo paulista. Por isso mesmo, caminhei noutra direção e cheguei ao livro-poema e aos poemas espaciais. A poesia concreta foi um fenômeno inevitável naquele momento da poesia brasileira, mas não poderia manter-se como um caminho permanente. Foi uma experiência original e audaciosa que se esgotou.

ANTONIO FABIANO: Poderia sintetizar, especialmente para as novas gerações cada vez mais distantes desta realidade, o que para você significou o exílio?

***FERREIRA GULLAR*** O exílio foi um momento difícil de minha vida mas ao mesmo tempo enriquecedor. Conheci outros povos, outras culturas e vivi momentos-limite, como o fim do governo Allende e o começo da ditadura argentina. Um período difícil da história latino-americana.

ANTONIO FABIANO: O que diria o pai do imortal “Poema sujo”, a respeito desse filho hoje considerado uma das maiores obras em língua portuguesa da segunda metade do século XX?


***FERREIRA GULLAR*** Já falei bastante sobre esse poema, em que circunstâncias o escrevi, em 1975, em Buenos Aires. De fato, aquelas circunstâncias – quando não sabia o que poderia acontecer comigo, já que um golpe militar ameaçava pôr abaixo o governo argentino e repetir o golpe que derrubou Allende – devem ter contribuído para o caráter do poema. Trata-se de uma tentativa de resgatar o vivido e refletir sobre a vida, tanto em termos existenciais como sociais.

ANTONIO FABIANO: Tenho acompanhado seu parecer a respeito da atual situação das artes plásticas etc. Sem dúvida não agrada a todos, mas seu pensamento impõe respeito porque é coerente, indiscutivelmente lúcido e regulado pela experiência de toda uma vida envolta no conhecimento aprofundado de tais questões. Você acredita que atravessamos um momento de relativismo ou crise nessa esfera? É possível uma “arte sem arte”?

***FERREIRA GULLAR*** O abandono das normas tradicionais que regiam as artes plásticas, deu nascimento às experiências de vanguarda que enriqueceram a expressão estética mas, ao mesmo tempo, abriram caminho a uma espécie de valetudo. Esse valetudo parece ser o rumo propício aos chamados artistas contemporâneos que já não se preocupam em fazer arte. Acreditam que tudo é arte: seja pôr merda numa lata, seja mostrar larvas de moscas num microscópio. Confundem as coisas, acreditando que toda expressão é arte, ou seja, que basta ser expressão. Como tudo é expressão resulta, para eles, que tudo é arte. A meu ver, uma baita confusão.

ANTONIO FABIANO: Atualmente proliferam-se escritores, sobretudo poetas, espécime não tão raro. E livros, muitos livros. Nunca se escreveu tanto e se publicou, como agora. Se isso é bom, por um lado, e sem dúvida o é, não significa qualquer garantia de uma boa ou duradoura literatura. Outras forças perpassam esse meio cultural, como a academia e o comércio, e seus respectivos ditames. Perguntamos ao leitor experiente que é: há algum critério para separarmos o joio do trigo, e não cairmos nas armadilhas das quais nem mesmo o mundo das letras está isento?

***FERREIRA GULLAR*** É verdade, hoje se publica muito, há livros em quantidade, de todo tipo e sobre qualquer assuntos ou tema. Não sei dizer ao certo o que se deve fazer em face disso. Acredito que nem tudo que se escreve presta. Poesia é coisa rara, pelo menos no meu caso que escrevo pouco e raramente.

ANTONIO FABIANO: Você percebe novas tendências, novos rumos, um futuro ainda mais promissor, para a literatura que se faz em nosso país? Acredita, tem esperança nas novas gerações?

***FERREIRA GULLAR*** Do futuro não sei nada. Há bons poetas nas novas gerações. Mas a verdade é que a pessoa nasce poeta, como nasce jogador de futebol ou cozinheiro. Sem vocação, ninguém vira poeta.

ANTONIO FABIANO: Apesar dos diversos prêmios recebidos ao longo da sua carreira, que repercussão teve em sua vida o Prêmio Camões, esta expressão mais alta de reconhecimento dado em língua portuguesa a um escritor?

***FERREIRA GULLAR*** Fiquei muito feliz ao receber o Prêmio Camões porque isso significa um reconhecimento do valor do que escrevo. A gente escreve para o outro, para ser lido pelo outro e, quando pessoas de alto merecimento intelectual reconhecem o valor do que escrevemos, isso nos gratifica.

ANTONIO FABIANO: Gullar se percebe ainda passível de influências?

***FERREIRA GULLAR*** Nenhum poeta inventa a poesia. Pelo contrário, todos os poetas são herdeiros dos poetas que os antecederam. Aliás, no meu modo de ver, é essa herança que dá maior amplitude à obra deste ou daquele poeta. Naturalmente, cada um elabora essa herança a seu modo e dá “um sentido novo às palavras da tribo”, como disse Mallarmé.

ANTONIO FABIANO: Ferreira Gullar é ainda um homem comprometido com a política de seu país, ou reserva-se ao direito de agora se ocupar de outras coisas?

***FERREIRA GULLAR*** Fiz poesia engajada durante certo período, especialmente em função da situação política e social do Brasil e da necessidade de lutar contra a ditadura. Hoje minha poesia explora outros campos, voltada mais para a reflexão sobre a existência e os espantos a que a vida nos submete.

ANTONIO FABIANO: Depois de onze anos de silêncio poético, surge o livro “Em alguma parte alguma”. Por que tanto tempo, Gullar?

***FERREIRA GULLAR*** Demoro a publicar livros de poesia porque escrevo pouco. Não posso decidir que vou escrever um poema hoje porque faz tempo que não escrevo. Isso não depende de mim mas dos espantos e das descobertas inesperadas que me põem em estado de poesia. Se não for assim, nada acontece. E como esses espantos são raros, escrevo poucos poemas ao longo do ano. Minha felicidade seria escrever todos os dias belos poemas...

ANTONIO FABIANO: Que novidade esse livro traz, em relação aos outros de sua obra?

***FERREIRA GULLAR*** Acredito que cada poema meu traz algo de novo, se não fosse assim não o teria escrito. Se escrevo é porque descobri alguma coisa que ainda não expressara. Não precisa ser uma novidade gritante, arrasadora. Basta uma pequena descoberta. Neste último livro há a retomada de alguns temas de livros anteriores mas noutro tom. E há uma tentativa de escrever no limite da linguagem, no limite da ordem e da desordem.

ANTONIO FABIANO: “Em alguma parte alguma” causou espanto, pelo vigor de sua poesia inédita. E, em tempo recorde, deram-se sucessivas reedições, outro espanto, tratando-se de poesia. O poeta que celebrou neste ano seu octogésimo aniversário tem a lira cada vez mais afinada, e não dá o mínimo sinal de cansaço. De onde vem esta força, Gullar?

***FERREIRA GULLAR*** Não sei. Tudo o que posso dizer é que estou sempre indagando, questionando e aberto às perplexidades a que a vida me expõe. Talvez esse inconformismo – que é ao mesmo tempo uma afirmação de vida – seja a minha força.

ANTONIO FABIANO: Para quem chegou a este patamar de consagração, escrever e publicar se torna um risco, uma responsabilidade cada vez maior, ou dá-se o contrário, cada vez mais se pode dizer o que pensa e quer?

***FERREIRA GULLAR*** Talvez porque não acredite em verdades eternas e intocadas, estou sempre indagando, questionando e dizendo o que penso. Não me julgo dono da verdade mas tenho necessidade de questionar e revelar o que descobri.

ANTONIO FABIANO: Há alguma coisa que tenha sonhado e ainda não realizou?

***FERREIRA GULLAR*** Não sei, não me preocupo com isso. Na verdade, essa é uma questão estranha a mim, já que não planejo nada. Invento a vida a cada dia.

ANTONIO FABIANO: Como concilia estes dois amores, família e trabalho?

***FERREIRA GULLAR*** Hoje vivo só, não tenho mais o encargo de criar os filhos, que estão adultos e cuidando de si e dos seus. Participo como avô, ajudando no que posso e dando palpites quando sou consultado. Tenho uma companheira – a poetisa Cláudia Ahimsa – que mora com a mãe. Mantemos a condição de namorados. É legal namorar uma poetisa tão talentosa quanto ela!

ANTONIO FABIANO: Ainda no coração do poeta... De quem Gullar tem saudades?

***FERREIRA GULLAR*** Das pessoas que amei e perdi.

ANTONIO FABIANO: O que diria agora aos leitores que o amam, seu público cativo?

***FERREIRA GULLAR*** Que se entreguem à leitura de meus poemas como me entreguei ao prazer de escrevê-los, porque a função da poesia é ajudar a viver, deslumbrar, ampliar o território do possível.

ANTONIO FABIANO: E aos que querem ser poetas?

***FERREIRA GULLAR*** Não desistam da poesia porque ela tem uma função essencial em nossa vida. A poesia existe porque a vida não basta.

ANTONIO FABIANO: Qual de seus versos nos daria ao final desta entrevista?

***FERREIRA GULLAR***
“que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado”




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FERREIRA GULLAR & ANTONIO FABIANO
Dezembro de 2010
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

3 comentários:

  1. Jaécia Bezerra de Brito10 de dezembro de 2010 01:08

    Entrevista de tirar o fôlego, pois foi a primeira vez que vi alguém mencionar o espanto diante da vida; achei maravilhoso, me encontrei neste conceito, e me vi em cada espanto que tive e virou poesia; precisamos mesmo viver o mundo Mestre Gullar, para nos espantarmos e transformarmos isso em arte.

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  2. Entrevista digna de ser lida por todos os amantes da Literatura e por aqueles que insistem no pecado/engano de dizer/pensar que poesia é bobagem.
    A poesia de Gullar é um sol sempre nascente.
    É necessário sentir seu calor e perceber suas cores.
    Através dela é possível iluminar-se/colorir-se.

    Sandra Silva

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