segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FELIZ DIA D!

31 de outubro de 2011. Em princípio, um dia como os outros na vida de um carmelita descalço. Sequer temos alguma festa ou memória particular de santo, no calendário litúrgico. Ofício comum, portanto. Acordo às 4:45h, é madrugada de horário de verão e tudo ainda está escuro. Dirijo-me à cozinha do convento, para fazer o café da manhã dos irmãos. Em seguida toco o sino, despertando-os para a oração matutina. Um dia como os outros? Sim. Porém, não! Se estivesse em qualquer outra parte do mundo, seria igualmente invadido por um sentimento “drummond”; quanto mais se estou em Minas, nas Minas do gauche, Minas de Itabira que é apenas uma fotografia na parede do poeta, mas – ele o disse – como dói! Estar aqui, mineiramente falando, torna impossível ignorar isto que já é fato: chegou o dia D. O poeta Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902. Hoje, portanto, se ele estivesse vivo faria o 109º aniversário. É no ensejo desta significativa data que o Instituto Moreira Salles (IMS) lançou a ideia de se comemorar, doravante, este dia como Dia D, Dia Drummond, no calendário cultural do país. Em Belo Horizonte haverá mostra de cinema em homenagem ao poeta. Em Itabira, uma interessantíssima e mais vasta programação cultural. Também no Rio de Janeiro, em São Paulo e Lisboa, eventos marcarão a celebração do dia D. Certamente, em muitas outras partes Drummond será homenageado. Quem não viu pode ainda assistir ao filme “Consideração do poema”, organizado pelo mesmo IMS, em que artistas expoentes de diversos segmentos da cultura do país se reunem em torno do projeto, dando em pouco mais de uma hora extraordinário panorama da obra poética do aniversariante. Gostei da ideia, porque também acredito no poder humanizador da poesia. Do meu cantinho celebrei assim: na mesa do café da manhã espalhei poemas de Drummond. Quando os frades voltaram da oração, sob o inesperado impacto dessa novidade no refeitório, tomaram café com poesia. E um indissimulável sentimento “drummond”...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 31 de outubro de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

DIA D 31.10

Visitem
http://diadrummond.ims.uol.com.br/

domingo, 30 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

JERÔNIMO RESPONDE...

Escutei as cigarras, ainda que jamais tenha querido devassar os seus segredos. Agora mesmo eu posso ouvi-las, na memória das árvores do jardim. E cantam um nome. É noite alta e elas cantam como se fosse dia. São aborrecidas, mas dizem verdades plenas. Talvez por isso eu as ame tanto.
Elas gritam, eu grito. Tu gritas... Todos gritamos, cada um a seu modo.
Tendes – vede que já mudei pronome e o tom no discurso – ciência de outro enigma. Sou capaz de ouvir a chuva e me comover por horas com a dança das águas. E pus-me ultimamente a ouvir pássaros... Ora, ouvir a avezinha que eu ouvi... (direis também, um dia) é maior que ouvir estrelas!
Mas paremos por aqui, que alguém pode não entender nada e entender tudo, ou simplesmente não entender nada e...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 24 de outubro de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

domingo, 23 de outubro de 2011

POEMA PARA FRANCISCO J. C. DANTAS

– 15/12/2001

Minha coivara da memória
É a cartilha do silêncio
Destes que são meus desvalidos...


Os chãos dos desvalidos
E toda desvalença
Vão muito além dos idos
Limites do Aribé.
Vão mais além... Transpassa a
Biboca do Sergipe,
Enche o Nordeste inteiro,
Alcança o mundo, enfim!

Miséria universal...
Transcendental miragem
Da fome, outra, tal
Quão mais vil o seu gume!
Verdade nua, crua:
Sem lua, o sol, o sol...
Limites do Aribé
Vão mais além... sem farça!

Os chãos dos desvalidos
Desvalenças fecundam:
Arribam para baixo...
Abaixam... Mas se afundam?
Sem lei ou mesmo nome
Jaz no relento o homem
Ao fogo que o consome...
Ah! Seu nome é plural!

E onde os desvalidos?
No limbo da desgraça
Um deus pode ver graça!...
Té mesmo o tal destino
Em peleja diária
Rumina suruó:
– Bendita desvalença
Que pelo mundo grassa!

Então, na escuridão,
Já não há lampião,
Já não há lamparina,
É coisa desta sina
Calar a luz inversa
A que não ilumina
A que ofusca, incerta,
A treva do sertão!...

E os pobres desvalidos
Em seis mil chãos partidos
Relutam!... Grande turba
De josés e marias
Caminha sem certezas
Delira em devaneio...
Cumprida, assim, a sina:
Nordeste é o mundo inteiro!

Antonio Fabiano
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terça-feira, 18 de outubro de 2011

DUETO DOS GATOS



Les Petits chanteurs a la croix de bois, Concert in Seoul, Korea, Nov 30, 1996.

DUETO DOS GATOS (Duetto Buffo di Due Gatti) – peça atribuída ao compositor italiano Gioachino Antonio ROSSINI (1792-1868), escrita para divertir os ouvintes. Trata-se, contudo, de uma compilação da primeira metade do século XIX, feita por outrem, especialmente a partir de pequenas partes da ópera de Rossini, Otello (1816).

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

(NÃO) TER UMA PALAVRA...

Ter uma palavra é a maior riqueza. Pobres somos quando incapazes do que minimamente a outros e a nós faz bem. Deixar-se possuir pela palavra é coisa mágica. Não domamos as palavras, senão quando as matamos. Palavras mortas são como guarda-chuvas fechados no meio de um temporal.
Pela palavra tudo foi feito. No princípio era a palavra... E a palavra se fez canto, e habitou entre nós. Somos também feitos de canto, cantar é tudo.
Dar uma palavra a quem precisa é às vezes salvar este que esbarrou nalgum limite, é talvez abrir novos horizontes e inaugurar nos outros como em nós coragem de recomeçar.
Porém, seremos ainda mais ricos quando diante do espanto da vida ou de outra tremenda alegria nos faltar o que dizer. De sorte que de tal pobreza, a mais extrema que é não ter uma palavra, brotará o silêncio de assenhorear-se dos bens secretos, sumamente maiores. Destes se nutrem alguns espíritos. E, finalmente, não ter palavra será a maior riqueza.

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 17 de outubro de 2011.
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E-mail: seridoano@gmail.com