sexta-feira, 18 de março de 2011

EMISSÁRIO DE UM REI DESCONHECIDO - Fernando Pessoa

Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...


Fernando Pessoa

segunda-feira, 14 de março de 2011

O BÁLSAMO DE GALAAD

Fotografias de Antonio Fabiano

Há um tradicional hino (spiritual) afro-americano, cantado há séculos pelas tradições protestantes norte-americanas, que se refere a um determinado “bálsamo de Galaad”. Um bálsamo é uma substância aromática, geralmente composta de resinas, óleos de essências etc. Mas pode ser um óleo usado para alívio de dores, cura de feridas, com propriedades balsâmicas. Um bálsamo é quase sempre sinônimo de perfume, mas também, figurativamente, de consolo, de alívio...
Galaad na Bíblia – a leste do Jordão e ao norte do Jaboc – é particularmente o lugar associado a bálsamos e aromas. De fato, Galaad ou Guilead aparecerá dezenas e dezenas de vezes na Sagrada Escritura, de modo que não é um nome estranho, mas bem familiar ao conhecimento geográfico e alegórico do povo de Deus.
O spiritual a que me referi canta, portanto, que há um bálsamo em Galaad... Esse canto faz clara alusão ao Antigo Testamento. Vejamos alguns exemplos bíblicos, para ilustração do tema.
Em Gn 37,25 quando os irmãos de José o lançam na cisterna para matá-lo, assim que levantam os olhos veem passar a caravana dos ismaelitas, vinda de Galaad, com seus camelos carregados de gomas aromáticas, bálsamos e ládanos ou resinas perfumadas, rumo ao Egito. A estes mercadores, o futuro José do Egito é vendido, dando assim curso ao misterioso desígnio de Deus, que se desvelará numa das histórias mais surpreendentes da escritura santa.
Outra referência emblemática feita a Galaad, no-la encontramos no livro de Jeremias. Ali, o profeta confessa em pungente lamentação: “Sem remédio, a dor me invade, / o meu coração está doente! / Eis o grito de socorro da filha de meu povo, / de uma terra longínqua. / ‘Não está mais o Senhor em Sião? / Seu Rei não está nela? (...)’ Por causa da ferida da filha do meu povo eu fui ferido, / fiquei triste, o pavor me dominou.” (cf. Jr 8,18-21). Em meio a esse quadro de desolação se insinua o poder do misterioso bálsamo de Galaad: “Não há um bálsamo em Galaad? / Não há lá um médico? / Por que não progride / a cura da filha de meu povo?” (Jr 8,22). Essa ideia reaparece mais adiante, em Jr 46,11. Aí, enfaticamente, se dirá: “Sobe a Galaad e toma contigo [procura] o bálsamo”...
Também uma rápida visita ao Cântico dos Cânticos, o livro mais apaixonado da Bíblia, poderá nos deixar perplexos, pela incrível variedade de odores, óleos que escorrem, bálsamos, mirras, cheiros de mandrágoras, vinha... Tudo, da primeira à última página, perpassado de erotismos. Lá, mais que o vinho, nos embriagam tais perfumes!...
E o apóstolo Paulo, no Novo Testamento, nos fala do bom odor de Cristo: para ele o cristão deve exalar o perfume de Jesus.
Mas voltemos ao canto... Apesar de suas raízes estarem fincadas no Antigo Testamento, ele assumiu na boca e no coração dos negros norte-americanos uma conotação totalmente cristã, neotestamentária, estreitamente ligada ao conceito de salvação em Jesus Cristo. Canta-se, inclusive, em uma de suas mais conhecidas estrofes, o próprio Espírito Santo, que nas tradições cristãs é também associado à unção, bálsamo, óleo, poder de cura...
São inúmeras as versões deste hino, interpretadas pelas mais humildes e célebres vozes. O “Bálsamo de Galaad” tornou-se um verdadeiro clássico! Porém, refrão e estrofes podem variar muito, de acordo com o tempo e o lugar de sua execução. Aqui, transcrevo apenas o começo de uma das mais conhecidas versões:

“There is a balm in Gilead
To make the wounded whole;
There is a balm in Gilead
To heal the sin-sick soul.

Some times I feel discouraged,
And think my work’s in vain,
But then the Holy Spirit
Revives my soul again.”


Eu traduzo este trechinho da seguinte forma:

Há um bálsamo em Galaad
Capaz de curar todos os feridos.
Há um bálsamo em Galaad
Que cura toda alma enferma de pecado.

Às vezes eu me sinto cansado
E penso que meu trabalho é vão.
Mas então o Espírito Santo vem
E reaviva minha alma outra vez.

Viver é, como eu digo muitas vezes, arriscado demais!... Não se vive tanto, nem se vive de verdade, sem algumas marcas. Nossa existência é alternada por dias bons e dias não tão bons, por estações diversas (pelo menos quatro...), por momentos de felicidade, tanto quanto pela realidade do sofrimento ou da perda, dias de luto e dias de cobrir nossos farrapos com adornos de alegria! Agora é sombra ou claridade? Treva ou luz? Nossas escolhas determinarão o que ao fim se dirá da nossa existência. Pois alguém pode até encontrar razões para ser triste, mas nunca o será por falta de felicidades possíveis!
Ora, nós veremos que se chegamos até aqui (exatamente ao ponto da vida onde nos encontramos), é porque fomos além, não paramos de vez no meio do caminho, não desistimos, apesar dos cansaços. E não se vai tão longe sem muitas marcas, bolhas nos pés, feridas na alma, sofrimentos, derrotas, decepções... Tudo ao lado das muitas conquistas, alegrias, insígnias de glória, primaveras, sol, vitórias!... Em certo sentido somos, como diz o Apocalipse de São João, vencedores de muitas tribulações! Quero enfatizar “vencedores”, mas sem esta de embarcar nos trens baratos da autoajuda.
Os antigos guerreiros não se envergonhavam das cicatrizes que traziam das lutas, muito pelo contrário, orgulhavam-se delas! Também Jesus não apagou, depois da ressurreição, as marcas da cruz. Ele mostrou-as aos seus discípulos como sinal de vitória! Os que se dizem seus seguidores carregam, igualmente, pela fé as suas marcas; e, infelizmente, muitas outras. O que há em nós nem sempre é pacífica cicatriz, mas, às vezes, inflamadas chagas. E, isso, obviamente dói e precisa ser tratado! Mas não nos assombremos, aborda-se aqui a maravilhosa condição humana! Anjos não têm feridas, nem dores de dente! Humanos, sim! E o que somos? Ser anjo deve ser muito chato! Deus me livre! Ser humano é bom e já nos basta!...
Falei hoje desse misterioso bálsamo de Galaad porque, em meio às agitações do cotidiano e tsunamis da vida, talvez nos convenha parar para rever conceitos, abolir alguns dos muitos preconceitos que sustentamos (inclusive nas religiões), reconfigurar nossa visão de mundo e demais perspectivas, deixar, sempre de bem com a vida, esta mesma vida nos levar... E (re)começar a ser pessoas ainda melhores do que já somos!
Há um bálsamo em Galaad! Busquem-no! E, quando o encontrarem, dividam-no com todo mundo.

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 14 de março de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

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“THERE IS A BALM IN GILEAD”…
(para ouvir siga os links)














Versão moderna:
http://www.youtube.com/watch?v=BN9JALQRMb0

Versão tradicional:
http://www.youtube.com/watch?v=DFMY4V7RdbU&feature=fvwrel

segunda-feira, 7 de março de 2011

A CERVEJA, TUA CRIATURA, SENHOR!...


A cervejaria mais antiga do mundo, no mosteiro de São Sixto, na Bélgica.

A Santa Madre Igreja, minha mãe, não cessa de me surpreender, tirando de seu baú coisas antigas e novas. Na verdade, algumas novas parecem bem antigas, e algumas antigas são verdadeiras novidades, pelo menos para mim, que não tenho nem quarenta dos dois mil anos que ela juvenilmente ostenta. Mas como eu ia dizendo, um confrade me apareceu esta semana com um achado daqueles! Sintomaticamente às vésperas do carnaval... Ele descobriu que há no antigo ritual romano, em limpidíssimo latim, uma bênção própria para a cerveja! Ora, vejam, ninguém pode negar que isso soa bem engraçado a meninos tropicais como nós! Tá, a meninas também e garotas de Ipanema!... Sequer nos lembramos que antes de irem aos bares modernos, as cervejas se achavam não só nas tabernas, mas eram especialmente fabricadas em mosteiros. Que a cerveja apreciada com moderação – estupidamente gelada, em terra estupidamente quente como a nossa – é uma bênção, já ninguém duvidava! E até o Papa alemão tem a sua... Ou nunca ouviram falar da “Papst Bier”? Perguntem ao tio Google! Mas antes que me acusem de heresia, sobretudo se têm algo contra cervejas e pensam, erroneamente, que estou fazendo apologia a carraspanas, bebam água gelada, relaxem e me deixem terminar. A bênção da cerveja dava-se nos barris, antes do engarrafamento. Sem dúvida era levada muito a sério! Depois das invocações costumeiras, tipo “O Senhor esteja convosco...”, o que se segue na fórmula é a seguinte oração que eu traduzo assim: “Abençoa, Senhor, a cerveja, esta criatura que te dignaste produzir da generosidade dos grãos, para que seja ao gênero humano remédio salutar; e dá-nos, ainda, pela invocação do teu santo nome, que quem dela beber ganhe a saúde do corpo e a proteção da alma. Por Cristo Senhor nosso.” Responde-se “amém”. Em seguida asperge-se água benta. Estou persuadido de que, tirando a água benta, alguns amigos meus gostarão muito disso. Ou não? Seja como for, apreciem com moderação!

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 7 de março de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

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Um brinde ao Frei Cardoso.
Esta crônica, para Ana Paula e meus amigos do bloco Alcoologia de Cerro Corá.


PS: Por pouco não publiquei também as fotos do Papa Bento XVI, então Cardeal, bebendo cerveja, como fazem licitamente europeus e cidadãos de todo o mundo. As fotos estão disponíveis na Web, inclusive em sites católicos conservadores, sem qualquer indício de escrúpulo ou reprovação. Afinal, se faz bem, que mal tem?

A Bênção da Cerveja no antigo Ritual Romano

V. Adjutorium nostrum in nomine Domini.
R. Qui fecit caelum et terram.

V. Dominus vobiscum.
R. Et cum spiritu tuo.

Oremus.

Bene+dic, Domine, creaturam istam cerevisiae, quam ex adipe frumenti producere dignatus es: ut sit remedium salutare humano generi, et praesta per invocationem nominis tui sancti; ut, quicumque ex ea biberint, sanitatem corpus et animae tutelam percipiant. Per Christum Dominum nostrum.

R. Amen.

Et aspergatur aqua benedicta.

quinta-feira, 3 de março de 2011

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA - ARTE CONTEMPORÂNEA

Programa Diálogos - Arte Contemporânea - Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=wtIgBFm17R0

Programa Diálogos - Arte Contemporânea - Parte 2
http://www.youtube.com/watch?v=PdDotBgHzmk

Há vídeos muito interessantes com o Affonso, na Internet. Procurem, por exemplo, sua entrevista no Programa do Jô Soares. Os links aí sugeridos são de uma conversa mais recente, bem interessante...

quarta-feira, 2 de março de 2011

“L'AMOUR, HUM HUM, PAS POUR MOI!”

Nada contra o amor!... Aliás, amo a voz desta cantora e gosto muito do seu “blues”...





L'amour – Carla Bruni

L'amour, hum hum, pas pour moi.
Tous ces "toujours",
C'est pas net, ça joue des tours,
Ça s'approche sans se montrer,
Comme un traître de velours,
Ça me blesse, ou me lasse, selon les jours.

L'amour, hum hum, ça ne vaut rien.
Ça m'inquiète de tout,
Et ça se déguise en doux,
Quand ça gronde, quand ça me mord,
Alors oui, c'est pire que tout.
Car j'en veux, hum hum, plus encore.

Pourquoi faire ce tas de plaisirs, de frissons,
De caresses, de pauvres promesses?
A quoi bon se laisser reprendre,
Le coeur en chamade,
Ne rien y comprendre,
C'est une embuscade.

L'amour, hum hum, ça me va pas.
C'est pas du Saint-Laurent,
Ça ne tombe pas parfaitement,
Si je ne trouve pas mon style,
Ce n'est pas faute d'essayer,
Et l'amour, hum hum, je laisse tomber.

A quoi bon ce tas de plaisirs, de frissons,
De caresses, de pauvres promesses?
Pourquoi faire se laisser reprendre,
Le coeur en chamade,
Ne rien y comprendre,
C'est une embuscade.

L'amour, hum hum, j'en veux pas.
J'préfère les temps en temps,
Je préfère le goût du vent,
Ou le goût étrange et doux de la peau de mes amants,
Mais l'amour, hum hum, pas vraiment.

Original :
http://www.youtube.com/watch?v=N89Md8k6XXk

Vivo (com pequenas variações na letra):
http://www.youtube.com/watch?v=flmoa2dVOSU

Aqui, faço uma tradução corriqueira de L'amour. Nem tudo vai ao pé da letra, o que seria obviamente desgracioso...

O AMOR

O amor, hum hum, isso não é pra mim.
Este negócio de “para toda a vida”,
Nem um pouco claro, tão inconsequente,
Que vem sem mostrar a cara,
Tal como um traidor disfarçado,
Isso me machuca ou me cansa, dependendo do dia.

O amor, hum hum, não vale nada.
Ele me tira do sério,
Finge que é doce,
E quando brami e me morde,
Então, sim, acontece o pior,
Porque eu quero, hum hum, mais e mais.

Por que todos estes prazeres, calafrios,
Afagos e tão carentes promessas?
De que vale se deixar envolver,
Pôr o coração em chamas,
Não entender mais nada...
Tudo não passa de uma emboscada!

Este negócio de amor não cola comigo,
Não é um Saint-Laurent,*
Não fica bem em mim,
E se eu não encontrei meu tipo,
Não foi por não tentar,
O amor, eu deixo isso pra lá!

Pra que todos estes deleites, arrepios,
Carinhos e pobres promessas?
De que vale se deixar envolver,
Pôr o coração em chamas,
Não entender mais nada...
Tudo não passa de uma emboscada!

O amor, hum hum, eu não o quero.
Prefiro algo casual,
Prefiro o sabor do vento,
Ou o gosto estranho e ameno da pele de meus amantes,
Mas, isto de amor, hum hum, definitivamente não!


* Saint-Laurent: famosa grife francesa. Yves Saint Laurent (1936-2008) foi um dos mais importantes estilistas do século XX e fundou a sua própria marca.