Papa Bento XVI – imagem disponível na Web.Falar mal do papa é tão chique! É quase sinônimo de ser descolado, pra frente, ter a mente aberta. Tudo isso é o contrário de ser retrógrado, anacrônico, antiquado, o que ninguém quer ser e só o papa é, para alívio das nossas consciências limpas como roupa no varal. Ah, também é muito chique dizer que o papa é conservador! Já ouvimos isso um milhão de vezes. Antigamente dizíamos que o papa era pop e até tinha levado um tiro a queima roupa. Mas o papa de antigamente era mesmo muito pop, então ficou sem graça dizer tal coisa, porque além de óbvio não escandalizava ninguém.
Vira e mexe sai alguma notícia sobre o papa. Afinal, o papa é o papa e precisamos falar mal de alguém – tal como culpamos o sistema, execramos a corrupção, metemos a língua nessa cambada de políticos ladrões que desgovernam o país, e em seguida roubamos nós também as vassouras postas para o protesto de varrição da sujeira em Brasília. Mas não é dessa corja que eu quero falar hoje, nem dos nossos pequenos delitos de cada dia, é do papa. Só o papa pode ser culpado de tudo!
Para minha surpresa, as últimas notas da imprensa não têm sido muito hostis, ainda que haja escândalos na Igreja e tenhamos o dever de denunciá-los sempre. Há jornalistas muito sérios e cônscios de sua função, que levam em conta a ética, coisa meio fora de moda hoje, mas ainda válida para alguns. O problema começa quando não se sabe o que se diz, ou quando o que se diz é infundado e até absurdo. Digo isto porque, outro dia, me surpreendi lendo comentários de internautas a uma dessas notícias imparciais. Certamente os comentários partiam de pessoas que nem tinham lido a pequena nota da imprensa (até muito simpática), talvez só o título ou nem isso. (Muitos infelizmente têm preguiça de ler, ou leem e não entendem, porque também está em baixa o exercício da reflexão.) Talvez só tenham visto a foto – do papa com cara de bravo, é claro! – e pronto: deu-se aquela enxurrada de vitupérios contra o velhinho de branco. E, como não podia deixar de ser, ataques à Igreja, logo associada à Inquisição, coisa deveras vergonhosa e horrível, mas superchique de se dizer, coisa que deixa o falante superintelectual perante um determinado público, ainda que quem o diga só tenha visto alguns filmes de bruxas sendo queimadas, e nunca tenha estudado o assunto a fundo, como um fenômeno histórico muito mais complexo e amplo do que se pensa. Atenção: se alguém quer ser realmente superintelectual e engajado deve também mencionar os horrendos casos de pedofilia na Igreja, pois esta é uma de suas feridas mais vergonhosas e latentes na atualidade.
O fato é que alguém ou alguma instituição precisa ser culpado pelas mazelas de todo o mundo. Este alguém, de vez em quando, é o papa e a sua Igreja. Mas quais são os valores que ele defende? E por que os defende? Recentemente, uma famosa atriz de Hollywood afirmou na imprensa – com quase total certeza a partir do que ela leu em tabloides e jornais que orquestravam uma campanha difamatória contra o papa, especialmente na Europa – que “este papa alemão é um nazista”(!). Ignorava-se sua biografia, o fato de que é reconhecido até por seus adversários páreos como um dos homens mais sensatos e inteligentes da contemporaneidade, ignorava-se seus pronunciamentos de magistério e suas relações já bastante sólidas e antigas com os judeus etc. Mas nem mesmo entre os católicos, com dignas exceções, se lê o que o papa escreve ou se ouve o que ele diz. Quando muito se lê o que a imprensa diz do papa, garimpando uma ou duas pequenas frases suas descontextualizadas, mas frases que possam dar margem para se comprovar que o papa é mesmo muito antiquado e está contra tudo e contra todos.
Para encerrar esta conversa – pois estou deveras prolixo e digressivo! – voltemos ao negócio dos comentários que li na Internet. O que me espantou não foram essas bobagens medianas, repetidas há séculos sem nenhuma criatividade. Também não me espantou a incapacidade que a maioria tem de escrever uma única frase na própria língua e expressar com clareza seu pensamento, se há algum. Nem mesmo me espantou a legítima indignação de quem protesta contra os abusos cometidos por pessoas da Igreja que, afinal, deveriam dar bom exemplo e testemunho de retidão. Tampouco, a total irresponsabilidade de algumas acusações e ataques em massa à integridade do líder e da instituição bimilenar que possui centenas de milhares de pessoas idôneas em todo o mundo, a fazer caridade e um trabalho reconhecidamente sério, de assistência não só espiritual, mas na maioria das vezes simplesmente social, longe dos holofotes, aonde nunca foi sequer um desses militantes que alardeiam a revolução que mudará o mundo. O que efetivamente me espantou foi o ranger de dentes e o ódio profundo manifestado contra um único homem e o que ele representa, este que as pessoas que o odeiam mal conhecem e sequer sabem o que ele pensa e diz, e que ainda assim é posto como bode expiatório de todos os erros do orbe, orbe que nem se considera mais cristão. Se o papa e a Igreja são tão inúteis para os tempos de hoje, por que gastam tanto tempo falando dele? E se ele já não pode nada, ou o que ele diz pouco interessa, por que tudo que pronuncia tem tanta repercussão como em nenhum outro caso de liderança mundial?
Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 7 de novembro de 2011.
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