sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVRO CINZA: DO LUTO E DA TERRA


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À SOMBRA DE UM CAJUEIRO

 

A tarde cai sobre os cajueiros

a tarde pintada de sangue

a tarde de sombra e de lágrimas.

Como um cão de guarda

um da prole vela o corpo no chão

outro toma as providências

outro corre para o nada.

Os três – órfãos pela primeira vez.

Dói tanto em quem não morreu!

No canto da boca um risco de sangue brilha

como nenhuma estrela é capaz de brilhar.

Então é isso?

Termina assim em líquido silêncio a vida?

A mulher – dor desmedida...

– Não quero ser consolada!

Vão chegando de longe os parentes

com vozes sentidas de pêsames e comiseração.

Os velhos amigos

(do tempo em que homem não chorava)

a chorar (como se isso fosse uma licença poética)

vêm se despedir e abraçar a família.

– Tinha sessenta e dois?

– Não. Sessenta e um.

– Parece que está dormindo...

– Como aconteceu?

– Tome um pouco de café!

– Conseguiu?

 

..............................

 

Já se passaram quantos anos?

Vida... como ousou continuar?

 

TELEFONE SEM FIO

 

– Teu pai morreu!

foi o que disse a voz sentindo pena

dele e da miserável orfandade

que o adotaria dali em diante.

– Teu pai morreu!

ouviu e ficou tão pequeno

os pés e as mãos pequenas

olhos e boca de menino

um nada em carne e osso

medo e abandono.

– Agora você tem que ser homem!


FILME MUDO

 

No sonho

a palavra não é dita...

é só silêncio

um silêncio macio

e risquinhos na tela

como naqueles filmes

mudos

de antigamente.

 

Não lembro se tem cor

– acho que é só preto e branco –

a porta se abre

ele entra e

nem sequer lembramos

de nós dois

quem morreu

quem está vivo.


ALFINETE

 

Atravesso a cidade em poucos minutos –

tão pequena que nem com lupa

dá pra ver no mapa...

Mas é maior que um pensamento

e existe grande no passado.

Com passos firmes amo e deixo

nem sequer volto o rosto

(como se ódio fosse o que é amor e medo).

Ficam para trás:

a rua da infância

canteiros de hibiscos

a escola pobre e aflita

um time de futebol

um punhado de amigos

o sítio dos avós

a casa branca escondida

algodoais tão eternos

que viram ainda pequena

a avó da minha avó.

Do alto da serra

antes da última curva e reta

a visão que eu teria

se fosse de olhar para trás.

 

Deponho este canto em seu colo

que por entre névoa se insinua

cabeça de alfinete

o que hoje é perda e ganho

caminho da minha aldeia

rio sem fim... rio grande

flor de fundo de quintal

e – se não perdi as contas –

mil cajueiros de lágrimas.


SALTO

 

A ponte de Igapó está sobre o rio Potengi

como o céu está sobre a terra

o que quer dizer que eu sou eu

subsiste a ilusão do cosmos

a preceituar o caos

como as coisas de cima estão sobre as de baixo

sem que haja hierarquia nisso.

 

A imagem pétrea

é reminiscência ficcional

desenho fotográfico

matéria prima sólida mineral

esfera que apanhei na via costeira

areia e vento e litoral

um sonho potiguar.

 

A ponte de Igapó projeta

a sombra de sua alma férrea 

no rio do meu amor

onde nadam camarões

e num salto acrobático perfeito

mergulha a minha alma

que não nada.


FOGÃO À LENHA

 

De repente chispa a luz

como quando Deus disse “faça-se”.

O crepitar

do fogão da minha avó

acorda o mundo.

Há alegria silenciosa em cada gesto

no cumprimento do caminho.

O abano

(este de palha que serve

para espanar brasas e apaziguar calores)

doma o fogo.

As tias velhas se juntam para opinar

falam em língua antiga

todas ao mesmo tempo e

espantosamente se entendem.

Eu sou criança nesta memória.

Nunca ninguém morreu.

Abarrota-se de eternidade o vazio da cozinha:

mãos sujas de tisna... cheias de cinza.

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

COISAS DE POETA


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CERTAS DELICADEZAS

 

Um homem delicado

deve ser qualquer coisa

entre pingo de orvalho

e gota de suor.

Algo se faça nele

entre a rotação da terra

e um abalo sísmico.

Um homem delicado

talvez faça poemas

e – quando não – os leia

ou mande flores.

Talvez não haja homens delicados

e tudo seja uma questão de cena.

 

JUÍZO FINAL

 

O juízo virá

a esperança golpeada

se levantará

vai arribar a saia

rodar

e por último rir.

 

Com sangue nos olhos

em marcha

tomaremos a praça

e para cada segundo

roubado de nossas vidas

pediremos conta.

 

ÔNIBUS

 

Avança o ônibus

como uma lança

no coração de Jesus.

Penetra o mistério

de uma estrada sem fim –

– ainda que todas as coisas tenham fim

eu saiba disso e saiba

onde quero chegar.

As janelas são de vidro

como era de vidro o anel que

se quebrou.

Escura a via

boca de um lobo

ventre de baleia

arpoador.

A luz que me ilumina

nesta escura floresta de sentidos

é o sem sentido brilho

de uma tela...

Os meus dedos magros

mastigam teclas

pisam mundos

como quem pisasse nos astros distraída

se musa fosse ou Deus.

O que se faz nada mais é que

quebrar com as mãos

espaço e vento

até não haver tempo

de alguma coisa rimar.

Será esquecido o risco

sem deixar cisco

piscadela

farol

som de buzina

motor.

Que tudo se apague como vela!

 

ARCANO

 

De outras entranhas outra vez nasci...

 

Dissera-me um dia: “Amo-te tanto!

Mas tua boca nunca eu a beijei!...”

A esta estranha dama de El-Rey

Fiz uns poemas tristes como os de Anto.

 

A minha boca cega e o que canto

Perderam-se no tempo de outra lei.

E os seios da mulher que mais amei

Murcharam de espera... luto e pranto!

 

Guarda a dolência dos veludos caros

A nívea seda e os préstimos de Paros!

Guarda bem o cinzel da nossa dor!

 

O verso lindo e raro que fizeste

Aquele mesmo de arcano celeste

Não digas nunca – nem a mim – amor!

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

REPENTINO TEMPORAL


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REPENTINO TEMPORAL

 

Posso escrever um poema hoje à tarde

sob a implosão do poente

– pendente o coração –

quando o sol tingir o céu

dizendo o que não cabe em palavra

ou tela...

(quando a noite adormecida

abrir seus olhos de pitomba).

A bordo o tempo se gasta

sílaba a sílaba...

O verso aporta.

Nenhum medo de morrer.

Nenhum medo de viver.

A lembrança

é uma flor de guarda-chuva

avessado pelo vento

em repentino temporal.

 

ÁS

 

Deito os lábios

sobre a fenda do tempo

que pare a poesia que me pare.

Doce é a seiva do tempo

seu fruto sumo

na língua...

Ah pélvis singularíssima

mãe de todos os superlativos

dança sensual das horas!

Quero a boca no seio

na cava

da palavra que diz a não-palavra

do silêncio

(esse estribilho que toca)

sinos e alambiques de cachaça

carne e gozoso espinho

luz

ressaca de vida.

 

Abri a carta...

A letra atávica

descosturou meus olhos.

Dá-me ó tu arco de vento e flecha disparada

um grão que seja de poeira

da tarde que eu quisera não findasse –

clave que me leia e não me explique

dor que não me mate e pacifique

este ás que dia e noite grita em mim!


RALO

 

A lembrança escoa e desce

como água e sabão

para o fundo do ralo

secreto – abissal.

Tão fácil ruir

em poucas palavras!

Indecifrável é

a água minguada

marulhar de espumas

pipocar de estrelas

cristais de luz e pele

medo de se afogar.

A vida rui

esvai-se e vai

desce em trago e gole

cálice e colo.

Mãos que se lavam

uma a outra.


GRAMÍNEAS

 

As ervas crescem no jardim e sobre os prados

por mais que as arranquem.

Crescem sobre o campo santo

como se tudo existisse

para findar em vida

ainda que vida não seja começo

nem fim das coisas.

Crescem como remorso

peso de consciência e culpa

com fúria e malquerença

por mais que as arranquem.

Quem disse que daninhas

não têm lugar em jardins e prados?

A morte

esta outra cínica como sua irmã

nega-se a si mesma em cada ato.

Há flores sobre a rocha

cena dura e carinhosa de se ver

uma vingança doce.

 

Este cheiro vem dos ciprestes?

 

(FABIANO, Antonio. "Tremor de Mãos", Mossoró: Sarau das Letras, 2025.)