domingo, 4 de setembro de 2011

A AURORA



Tão escuro ainda!
E as horas se arrastando...
Não haverá perigo
de a Noite
emendar com a Noite?
Galos todos,
que despertais a Aurora,
cantai!
Mais alto ainda!
É terrível
quando a própria Madrugada
não desperta
e não nos desperta!

Dom Helder Câmara

In: CÂMARA, D. Helder. “Um olhar sobre a cidade”, 3ª ed., Paulus: São Paulo, 2009.


(Imagens de Dom Helder disponíveis na Web)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

MEDITAÇÃO À BEIRA DE UM POEMA – Adélia Prado

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira,
constelada,
os botões,
alguns já com o rosa-pálido
espiando entre as sépalas,
joias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizaram-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas, perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro.

In: PRADO, Adélia. “Oráculos de Maio”, Rio de Janeiro: Record, 2007, pp. 33-34.
Publicado neste blog com licença da Autora.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POSSESSÃO

Há três dias o monstro dormidor profundo, o que roncava no meu íntimo, despertou e urra! Destampou-se a lata da respiração...
Já não durmo eu, nem como! Comer como? Só escuto. Urra!...
Dele sai coisas terríveis, versos que nunca escreverei, tais como: ‘bezerros mamam nas vacas, josés não mamam em ninguém’...
Chego a ficar ruborizado!
Porém, é muito esperto o monstro dormidor profundo. Se vê que dele tiro algum proveito... cala-se.
Escrevam seu nome nos cânones da literatura! Ou partam-se os cânones, que para pouco ou nada servem!
O monstro dormidor profundo é uma besteira que inventei, para depois xingar palavras com muitas estrelinhas... Eu, este outro animalzinho besta, homem pelo reticente subterfúgio de calar-se na hora exata e ser “sapiens”.
Mas não seria extravagante demais e pouco humilde render-se a todas as delicadezas?

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 29 de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

domingo, 28 de agosto de 2011

O CASAMENTO DE BELINHA (fabulinhas)

Um dia a barata disse
Pra filha chamada Bela:
“Belinha, inda és donzela,
Tá na hora de casar!”

Belinha ficou contente,
Pôs-se logo a requebrar.
Mandou fazer um vestido
Para nele se casar.

Espalhou-se a notícia
Do casório a acontecer.
A noiva mandou convites
Pra Deus e o mundo ver.

Chegando a hora da festa,
Presentes os convidados,
Belinha olhou para os lados...
E o noivo? Onde está?

Antonio Fabiano
Direitos reservados

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

ALFARRÁBIO

Enganam-se os que pensam que em bibliotecas de conventos nada mais há que livros de teologia! Aliás, pensar assim seria ignorar a história. O arcabouço intelectual de todo o Ocidente foi resguardado e muitas vezes salvo nas bibliotecas dos mosteiros, na caprichada caligrafia de monges copistas, etc. Houve um tempo em que ser cristão e filósofo era basicamente a mesma coisa. Quase toda descoberta ou revolução no campo das ciências era empreendida por homens da Igreja, ainda quando contrariavam princípios defendidos cegamente pela religião! Mas não era nada disso, o que eu ia dizer... Há pouco me deparei, em uma de nossas bibliotecas conventuais, com a primeira edição de POEMAS de Carlos Drummond de Andrade, uma espécie de toda a sua “poesia reunida” para então, 1959. Vinte anos depois eu nasceria, por isso o achado me pareceu tão velho! Leio muita teologia, certamente, não brinco em serviço. Mas de Deus já se falou tanta bobagem, que Ele mesmo se enfarou e pediu socorro aos poetas! Por isso li com mais fé Drummond, os nove livros ali reunidos – o último era a parte inédita, naquela longínqua ocasião do lançamento de “A vida passada a limpo”. Li tudo, a começar pelo “Poema-Orelha”, que foi posto exclusivamente nas “orelhas” do livro, por onde o poeta diz que escuta se dele falam mal ou se o amam. Ah, velho livro! Coisa da antiga e tão mais célebre “Livraria José Olympio Editôra”. Velha grafia do velho poeta velho!... E foi como reencontrá-lo ressurreto, saindo de cada página do alfarrábio, talvez por mais de cinquenta anos fechado! Depois, em mim, um não poder respirar por três dias, nariz tapado, garganta arranhando, coração disparado!... Eh, coração! Saudades de quê? Talvez mais cinquenta anos e alguém te leia de novo...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 22 de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Greensleeves improvisation by Urbano Medeiros



This is an improvisation based on “Greensleeves”, a traditional English folk song. “Greensleeves” é uma das mais célebres canções folclóricas da Inglaterra. Aqui executada pelo nosso virtuose Urbano Medeiros.