sexta-feira, 19 de agosto de 2022

AUTA DE SOUZA (1876-1901) - poemas


by Pixabay


 

DOLORES

 

Já vão caminho do cemitério

Meus louros sonhos em visões negras,

E vão-se todos no Azul sidéreo

Como uma nuvem de toutinegras.

 

A noite de ontem levei chorando

Todo o passado de meus amores;

E o dia ainda me achou rezando

No imenso terço de minhas dores.

 

Vejo na vida longo deserto

Sem doce oásis de salvação.

Dentro em minh’alma, douda, chorosa,

De pobre moça tuberculosa,

Cheio de medo, trêmulo, incerto,

Bate com força meu coração.

 

E assim morrendo, coitada, aos poucos,

Convulsa e fria, louca de espanto,

Solto suspiros, soluços roucos,

Olhando as cruzes do Campo Santo;

 

Porque me lembro que muito breve

Leva-me a ele tanta dor física.

E dentro em pouco, branco de neve,

Verão o esquife da pobre tísica.

(pág. 114)

 

 

DOENTE

 

A lua veio... foi-se... e em breve ainda,

Há de voltar, a doce lua amada,

Sem que eu a veja, a minha fada linda,

Sem que eu a veja a minha boa fada.

 

Ela há de vir. Ofélia desmaiada,

Sob as nuvens do céu na alvura infinda

Do seu branco roupão, noiva gelada,

Boiando à flor de um rio que não finda.

 

Ela há de vir, sem que eu a veja... Entanto,

Com que tristezas e saudoso encanto

Choro estas noites que passando vão...

 

Ó lua! mostra-me o teu rosto ameno:

Olha que murcha à falta de sereno

O lírio roxo do meu coração!

(pág. 243)

  

 

FIO PARTIDO

 

Fugir à mágoa terrena

E ao sonho, que faz sofrer,

Deixar o mundo sem pena

      

     Será morrer?

 

Fugir neste anseio infindo

À treva do anoitecer,

Buscar a aurora sorrindo

      Será morrer?

 

E ao grito que a dor arranca

E o coração faz tremer,

Voar uma pomba branca

       Será morrer?

 

II

 

Lá vai a pomba voando

Livre, através dos espaços...

Sacode as asas cantando:

       “Quebrei meus laços!”

 

Aqui na amplidão liberta,

Quem pode deter-me os passos?

Deixei a prisão deserta,

       Quebrei meus laços!

 

Jesus, este voo infindo

Há de amparar-me nos braços

Enquanto eu direi sorrindo:

       Quebrei meus laços!

 

Janeiro, 1901

(págs. 247-248)



 SOUZA, Auta de. Hôrto, 4.ª ed., Natal: Fundação José Augusto, 1970.


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Cf. também: https://antoniofabiano.blogspot.com/2011/01/um-sonho-poema-de-auta-de-souza_13.html?m=0

 

 


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