quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

NOS CAMINHOS DE AUTA DE SOUZA (crônica de dez anos atrás)


Fotografias de Antonio Fabiano (2000)


Fui a Macaíba no intuito de conhecer o lugar onde nasceu e viveu a poetisa do “Horto”, Auta de Souza. Esta simpática cidade litorânea, cenário de grandes vultos e acontecimentos históricos, dista de Natal cerca de 18 km.
Para além do aspecto turístico, almejava ainda, com tal viagem, fazer algumas fotografias e ampliar o meu material de pesquisa sobre a menina morta aos vinte e cinco anos incompletos, que escreveu versos incríveis e foi tida como “expressão mais alta do lirismo norte-rio-grandense”. Talvez não seja mais verdade essa última assertiva, mas sem dúvida alguma foi a maior do seu tempo, e das mais importantes até hoje.
Logo que chegamos a Macaíba procurei o casarão onde vivera Auta, hoje reformado e transformado em uma escola que tem seu nome. Polêmica reforma, diga-se, pois o casarão, lamentavelmente, não mais conserva os traços originais.
Cidade não muito grande, Macaíba tem uma gente simpática, educadíssima... Foi lá que Auta de Souza nasceu, em 12 de setembro de 1876. E em Natal, como todos sabem, “quebrou seus laços”, na madrugada de 7 de fevereiro de 1901.
Quando cheguei ao casarão, escola, fui recebido pela diretora, que me apresentou todas as salas e cômodos do estabelecimento, além do mitificado jasmineiro que Auta plantou. O primeiro jasmineiro foi destruído acidentalmente por um muro que caiu sobre si; aquela réplica é muda do jasmineiro original. Vi também o busto da poetisa, no pátio do colégio, entre um jardim de flores e crianças.
Após um “cafezinho” e conversa rápida com os funcionários do local, fui levado à sala onde a poetisa nasceu. O cômodo, evidentemente, está reformado. Funciona como uma das salas reservadas de trabalho, mas conserva ainda, impregnado em suas paredes, um cheiro antigo. Ali, há muito tempo, a “pobre moça tuberculosa” do poema Dolores, que como ninguém experimentou a dor e os desgostos da vida, escreveu muitos dos seus versos. Nessa sala há uma fotografia de Auta, numa moldura antiguíssima, além de outras fotos e arquivos. Lá, me apresentaram as versões do Hino à Auta de Souza. Ouvi tudo com atenção e ainda guardo na memória as cadências do momento. A diretora, extremamente atenciosa, não hesitou em colocar a meu dispor os arquivos da escola, fotografias, livros, trabalhos de artistas locais referentes à poetisa. Fiz cópia desse material, para embasamento científico, embora a riqueza escrita mais ampla, documental, eu a tenha encontrado em Natal, incluindo o famoso livro de Câmara Cascudo, “Vida Breve de Auta de Souza”, de edição extinta, que localizei na sala de obras raras da Biblioteca Central Zila Mamede (UFRN). Cascudo foi o mais arguto dos escritores a documentar Auta de Souza. Esse livro consiste na mais autêntica e rica biografia da poetisa.
Antes de deixar a cidade passei pela Igreja onde se encontram os restos mortais de Auta de Souza e alguns familiares. A lápide da poetisa traz seus versos: “Longe da mágoa, enfim, no Céu repousa / Quem sofreu muito e quem amou demais”.
Para quem não sabe, os renomadíssimos Eloy de Souza (antigo parlamentar e jornalista) e Henrique Castriciano (escritor, poeta, ativo participante da vida política e social do Estado), foram irmãos de Auta de Souza. Outra curiosidade digna de nota é que a primeira edição do Horto, por intervenção daquele irmão que então vivia no Rio de Janeiro, foi prefaciada por Olavo Bilac.
No fim da tarde, já prestes a voltar, passei pelo Museu do Ferreiro Torto. Este fica quase fora da cidade, num local esquisito, cercado de mata e silêncio. Lá, por um triz não fomos assaltados por um grupo de “pivetes” que ainda nos ameaçaram... O zelador do museu, homem atencioso, foi nosso protetor e excelente guia. Aliás, tinha o mesmo nome de meu pai: Juarez. Ana Paula, que me acompanhou durante o percurso, deu-lhe uma gorjeta e muitos “obrigada, obrigada!”... Ele abriu o museu, com boa vontade, exclusivamente para nós, visto que chegamos ali quando já havia encerrado o expediente.

A título de informação: o Solar do Ferreiro Torto, expressão da imponência do poder colonial no Rio Grande do Norte, foi construído no século XVII. O seu primeiro nome, lá pelos idos de 1614, foi “Engenho do Potengi”. Cenário de terrível massacre, testemunhou lutas de holandeses contra portugueses, ficou fechado por cem anos, foi novamente ocupado, chegou a ser destruído em batalhas, foi reconstruído (passou por ele famílias ilustres), funcionou como sede do Poder Executivo municipal, até virar (ufa!) o que hoje em dia é, Museu. Dali o visitante pode também conhecer o cais, ouvir histórias de escravos e senhores, ver de perto os manguezais do Rio Jundiaí, etc.
Na mesma ocasião desta “expedição” passei, com a amiga Dione, pelo histórico Forte dos Reis Magos de Natal. Fiz lá umas fotografias. Deste Forte, por demais famoso, tem-se muito o que contar...

Antonio Fabiano

(NAVEGOS – Órgão Informativo do Centro Acadêmico de Letras “Fátima Barros” – UFRN – Campus de Currais Novos – Ano II – Edição 15 – Mai-Jul/2000).

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