quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

*FOTOGRAFIAS DE THEO G. ALVES*








Theo G. Alves é escritor e poeta. Artista potiguar de primeira grandeza! Meu irmão e amigo de infinitos anos... 
Os direitos deste trabalho fotográfico pertencem exclusivamente a Theo G. Alves. As fotos foram selecionadas e publicadas neste blog com sua permissão. Obrigado, Theo!


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CARTA AO POETA FERREIRA GULLAR


Gullar em inesquecível fotografia de Murillo Meirelles

Em dezembro do ano passado fomos surpreendidos pela triste notícia do falecimento de Ferreira Gullar. Este ano, mexendo em alguns papeis, encontrei a cópia desta carta que dividirei com vocês. Trata-se de algo escrito em 2012, quando eu ainda morava em Minas Gerais.
Todos sabem que Gullar escreveu e publicou um primeiro livro, posteriormente descartado por ele que não quis, sequer, que este aparecesse em sua obra reunida. Eu havia reclamado o fato de não encontrar o livro em lugar algum, pois tinha curiosidade de lê-lo, apesar do autor não considerá-lo. Eis que o poeta, dias depois, me manda seu único exemplar, do acervo pessoal, emprestado. A carta exprime, além de gratidão, impressões do momento. Enviei-a com o livro, na devolução. É engraçado reler isto, anos depois.
Certa vez disse-lhe o quanto considerava ruim determinado poema de outro livro seu, um poema bem pouco conhecido. Ele, com bom humor, releu o poema para lembrar e explicou-me a circunstância da composição, a volta do exílio, concordando em parte comigo, em parte não. Como, talvez, neste caso:


Belo Horizonte - MG
16 de julho de 2012


Meu querido Gullar!

Devo, antes de tudo, agradecer pela confiança de me emprestar seu exemplar pessoal e raríssimo... Eu não ousaria nunca pedir tanto, mas esta não é a primeira vez que sua generosidade me surpreende! Obrigado!
Li com muita atenção o “descartado” livro de 1949, “Um pouco acima do chão”. Confesso que, depois da primeira leitura, por não ter compreendido muito bem a razão de tal “descarte”, obriguei-me a lê-lo outra vez... Continuo não compreendendo!
Eu entendo que o poeta tenha mudado bastante e crescido para além dos mundos de São Luís do Maranhão; eu entendo que às vezes um gigante possa ignorar que tenha sido menor, ainda que nunca pequeno; e entendo até que as velhas águias em seus mais altos voos se esqueçam de que alguma vez possam ter estado apenas “um pouco acima do chão”. Mas isso de considerar esta primeira poesia “descartável”, a ponto de nem mesmo fazê-la constar em sua Obra Completa, pareceu-me um equívoco e dos grandes. O país e seus leitores de todo o mundo não merecem tamanha punição! Por que privá-los destes versos?
“Um pouco acima do chão” é, a meu ver, absolutamente imprescindível para se entender toda a poesia de depois. Se for verdade que o poeta é a antena de sua raça, ao falar por, e dar voz a seu povo, não sei de ninguém que pudesse escrever algo mais sublime, naquele ano de 1949 e tempo pretérito, nas mesmas circunstâncias de sua história, biografia, cultura e meio. Pouco importa se depois de 22 já desconjuntavam versos ou comia-se antropofagicamente em quase todo o país! Cada poeta de verdade é um acontecimento, no sentido pleno e irrepetível da palavra, tem seu tempo e modo de romper com os paradigmas seculares. Alguns não cabem mesmo em padrão algum, escola, movimento... Fazem seu próprio tempo, estilo, via... São inclassificáveis, no melhor dos sentidos. Ou classificáveis, mas só por alguns instantes... Depois esgotam as possibilidades da hora e vão além.
É bem verdade que a sensação que se tem, ao sorver partes desse livro, é a de que estamos a ler um pré-modernista ou coisa de semelhante natureza. Mas quem disse que a boa poesia pode ser refém de cronologias ou vítima de anacronismos? O livro testemunha, sim, a imensa transformação pela qual passou Gullar. E quem o leu, naquele ano de 1949, dificilmente poderia imaginar o que viria depois... Mas não estamos falando de uma poesia ruim e de outra boa! O que se dá depois é uma mudança de estilo, mudança paradigmática, certamente ideológica, mas não exatamente de qualidade, ainda que tenha vindo com os anos o incontestável aperfeiçoamento do poeta, a progressão da consciência do seu fazer artístico, a maturidade intelectual, de engajamento e de sensibilidade etc. Seria engraçado pensar no “velho” Gullar escrevendo um livro desses! Mas seria igualmente engraçado e até absurdo pensar no Gullar de 49 a escrever, por exemplo, o que escreveu depois até “Em alguma parte alguma”. Quando eu abri o livro, pensei apenas que estava a ler um menino de São Luís do Maranhão, perdido em algum rincão do mundo, num longínquo ano, mas tão genial que conquistaria – como conquistou – o mundo. Como exigir que este menino fosse já o Gullar desesperado do “Poema Sujo”, o de depois? O mesmo gênio estava lá, mas as circunstâncias eram outras.
De “Um pouco acima do chão” posso dizer: não há poeta deste país – barroco, árcade, romântico ou parnasiano – diante do qual você não pudesse se assentar para dialogar de poeta para poeta, tendo nas mãos tal livro e tais versos, sem corar ou gaguejar. Digo-o com tranquilidade, por já ter lido tudo de antes e depois, por não ser um leitor medíocre, por saber muito bem fazer escolhas e por saber pôr cada coisa em seu lugar. Em “Um pouco acima do chão” há poemas tão superiores a tantos que vieram depois!... Não vejo nada que o envergonhe nestes versos! Vejo, sim, um elo necessário para que se compreenda a grandeza posterior, a marcha do poeta em crescente, a ponte necessária para que muitos leitores possam chegar ao Gullar de hoje, sem pararem no meio do caminho ou começarem o caminho pelo meio. Porque há muitos que, não gostando da sua poesia atual, aprenderiam a amá-la ou a entenderiam melhor por estes versos singelos, nunca medíocres. Ali está, em rimas modestas e quase imperceptíveis tropeços de metros (absolutamente remediáveis na recitação com boa dicção e conhecimento de poética e licenças poéticas), a monstruosa força e a crise nascente de um poeta que já começa a romper a camisa de força das formas. O livro é um testamento histórico! Um lirismo suave, alguma vez ingênuo, mas tão cheio de força, pureza e verdade, que comove! Comove porque é obra de arte. É um livro que sem data e assinatura sobreviveria igualmente. Mas nele já está o poeta inteiro, mesmo quando delira e diz que é Deus. Aliás, dizer-se um novo Cristo não é a mesma coisa de externar ou encarnar o sonho messiânico de uma raça? Isso não já se disse e se fez na história e nas literaturas, tantas vezes? Os versos de “Um pouco acima do chão” são límpidos, não possuem graves redundâncias, não têm afetação, nem mesmo em seu viés mais romântico, utópico... Fazer versos para Cabral pode ser coisa que agora iniba o bom e velho poeta. Mas quem disse que não era legítimo esse esboço de patriotismo no imaginário coletivo de uma época e de gerações inteiras? Para quem viveu depois exílio e ditaduras é dose engolir isso e outros “issos” do livro, como o ufanismo da formação das gentes brasileiras etc. Mas são versos autênticos! Expressam um tipo de verdade!
Gullar adolescente, no sentido estético da palavra, é, já, muito bom e respeitável. Mostra a que veio... E a poesia de “Um pouco acima do chão” não fica devedora a Toda Poesia, levando-se em conta a cronologia e o percurso de maturação do poeta. Não sei mesmo que birra teve o poeta com esse livro, pois é um encanto! O livro foi uma grande surpresa para mim, porque se mostrou melhor do que eu imaginava. Pelo que me disse antes, imaginava-o um desastre, ainda mais para que fosse castigado pelo poeta a ponto de nem figurar em sua Obra magna! Mas, não. É um livro autêntico, original. Tem força e luz própria. Tem pureza, tem beleza. Tem a sua verdade. Tem o sentimento de um tempo. Se eu tivesse escrito algo assim no meu passado, e se eu depois tivesse ido tão mais longe, sentiria imenso orgulho dessa trajetória e quereria que todos vissem o dom primevo e o caminho, do começo ao fim.

Fabiano

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

BONSAI (11) - KUROMATSU ou PINHEIRO-NEGRO-JAPONÊS


(Pinus thunbergii)

O pinheiro-negro-japonês é uma das árvores mais clássicas no universo do bonsai. São longevas e inspiram grande respeito. Veneráveis, desde tempos muito antigos! Pinus de duas agulhas (pares), possui crescimento robusto. Seu calendário de cuidados (metsumi, mekiri, mekaki, hanuki etc.) deve ser, ao longo do ano, rigorosamente obedecido pelo bonsaísta, pois um kuromatsu não tolera erro ou arbítrio. Daí que nunca seja indicado para iniciantes.


Este pequenino pinheiro-negro-japonês tem quase a minha idade. É pequena a diferença de anos entre o meu nascimento e o dele. Trata-se de um dos pinheiros-negros do lendário mestre Hidaka. Hidaka tinha especial predileção por tais árvores, que lhe recordavam o Japão. A elas dedicou-se, magistralmente, até o fim de sua vida.

Osamu Hidaka

Osamu Hidaka (Japão, 1935 – Brasil, 2014) foi o maior nome e creio que o último representante de uma geração antiga de imigrantes japoneses dedicada ao bonsai, geração que marcou época, importantíssima para a história e o desenvolvimento da arte do bonsai no Brasil! Pode-se saber mais sobre ele, através do livro de Mário A. G. Leal: OSAMU HIDAKA – A história de um homem e seus pinheiros-negros.
O meu pinheiro-negro foi cultivado pelo mestre Hidaka desde que era semente, ou seja, através do método misho. Na época as sementes vinham do Japão. Em seguida, o mestre passou a importá-las dos Estados Unidos. Este kuromatsu permaneceu com ele por mais de uma década em Atibaia-SP.



Posteriormente, passou à coleção de Wilson Fracassi, experiente bonsaísta de Jaú-SP, com quem permaneceu por quase duas décadas. Adquiri-o dele, por meio de Luiz Yassuo Nakamura. Registro meu agradecimento ao amigo Wilson Fracassi, que tanto me ensina!


Meu kuromatsu tem o estilo HAN-KENGAI – queda parcial, meia-cascata ou semicascata. Tal estilo retrata árvores que nascem em penhascos, em lugares inóspitos.



Uma curiosidade: a tradição chinesa de bonsai refere-se ao mesmo estilo como "olhando a água", visto que árvores dotadas desta característica, na natureza selvagem, encontram-se, quase sempre, junto das margens dos rios ou lagos, espelhando-se neles. Para os chineses, a característica destas árvores dá, ainda, a impressão de uma pessoa debruçada sobre a água. (Cf. esta informação em BONSAI: the art of growing and keeping miniature trees de Peter Chan).

O atual vaso, Onodera, foi feito exclusivamente para meu pinheiro-negro. Aliás, não é o único Onodera em minha coleção, como devem ter notado, ao lado dos vasos assinados pelo mestre Shugo Izumi. Sergio Onodera – consagrado ceramista e artista de altíssimo prestígio no mundo do bonsai – levou alguns meses trabalhando-o artesanalmente. Sua arte é feita em cerâmica de alta temperatura, algo para durar séculos.



Este kuromatsu, pelo seu tamanho, poderia ser posto em um vaso menor, se eu quisesse ser mais ortodoxo ou se eu fosse levá-lo a uma exposição. Aliás, o vaso anterior, além de redondo era menor, como podem ver nas fotos velhas. Mas eu o encomendei e quis assim. Nele, o pinheirinho permanecerá por alguns anos. Vou estimular seu crescimento, acentuar a queda e aperfeiçoar seu ápice. 



Transplantei-o de um jeito a tornar possível escolher, simultaneamente, duas frentes principais: o vaso posto de quina ou com os dois pés em realce. Dependendo de como se veja, enfatiza-se mais ou menos a força do vaso ou da árvore, elementos constitutivos do bonsai. Mas, em nenhuma das posições, a meu ver, rivalizam-se; antes, complementam-se.

Estimo muitíssimo este bonsai. Com ele faço um humilde tributo à memória de meu pai.





O Brasil, hoje, conta com ótimos bonsaístas em quase todas as regiões; pessoas que vêm desenvolvendo um trabalho sério nesta área, obtendo sucesso em espécies nativas, além de cultivar com impecável maestria as já muito clássicas, aclimatadas. O interesse é realmente crescente, por parte dos compatriotas. Basta ver quantos textos e vídeos há sobre o assunto na internet, feitos por brasileiros, e o número de acessos que têm, além do aparecimento cada vez maior de produtos especializados. Há lojas e viveiros exclusivos de bonsai, bem como pessoas comuns que em suas casas dedicam-se paciente e amorosamente a esta arte. O nosso bom gosto e capacidade têm surpreendido bonsaístas de fora, colocando muitos de nossos artistas em pé de igualdade com os de outras partes do mundo, onde a vivência desta tradição é mais antiga. Claro que ainda não podemos comparar nossos jovens bonsais a certos exemplares do Japão, cujo cultivo atravessou gerações e alguém pode ter em casa uma dessas maravilhosas árvores de séculos. Mas todo magnífico bonsai foi um dia uma semente ou galhinho, e de nada valeria ter uma obra-prima sem entender o caminho. A arvorezinha que repousa em nossa mão, não é menos importante que a mais importante de um famoso bonsaísta. Ambas respiram, bebem água, precisam de cuidados e estão sob o sol que ilumina os seres. É, antes de tudo, um convite à humildade e à gratidão. Pois em qual delas é menor ou maior o milagre da vida?

 Antonio Fabiano
seridoano@gmail.com


* Todas as fotos são de meu bonsai e foram feitas por mim. A foto do mestre Osamu Hidaka foi encontrada na Web sem menção de autoria.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

TRIBUNA DE PETRÓPOLIS - CANCIONEIRO DA TERRA por FERNANDO PY



TRIBUNA DE PETRÓPOLIS
Sexta-feira, 1 de julho de 2016

LITERATURA

FERNANDO PY

CANCIONEIRO DA TERRA

Cancioneiro da terra, de Antonio Fabiano (Mossoró: Sarau das Letras, 2014). Terceiro livro de poesia do autor, celebra, principalmente, a terra em que nasceu (Paraíba) e aquela em que cresceu e vive (Rio Grande do Norte). O livro se divide em sete partes, nas quais o poeta demonstra notável domínio do verso e da arte poética. A parte inicial (em línguas de pedra e fogo ou em línguas de anjos) é toda erguida em sonetos decassílabos, alguns de esplêndida fatura, como “Alma Poti”, “Senhora da manhã” e “Alma do vaqueiro”. Pode parecer ao leitor que o poeta se contente com seus versos metrificados, porém esta impressão é errônea, não só pelos versos livres bem construídos, mas também por um belo exemplo de poema fixo, o canto real, ao fim da sexta parte. A segunda parte (Em línguas de rios) é composta apenas de dois poemas: “Águas do Potengi” e “Acauã”. Potengi e Acauã são rios que pertencem ao Rio Grande do Norte, e o poeta os revive com amor e saudade, em versos basicamente de redondilha menor. Os doze poemas da terceira parte (em línguas de asas ou aves de arribação) são escritos em versos livres. É interessante observar que, em geral, os poemas de Fabiano se reportam ao passado, mas um passado cuja recriação traz ao conjunto do cancioneiro um travo de melancolia, visto que, além de serem cântico de exaltação à terra, marcam fundamente as recordações do poeta, sobretudo em tom saudoso. Nas quatro partes finais do cancioneiro podemos enxergar com clareza esse tom melancólico. Tentando recompor as tradições dos antepassados, o poeta percebe que ele próprio é um desterrado, conforme se vê nos poemas da última parte (Em línguas avoengas), especialmente em “Rito ancestral” e “Talvez os mortos voltem”. E o poeta realiza enfim seu cancioneiro apoiando-se em outra tradição, a tradição poética, por exemplo, quando intertextualiza Drummond no primeiro verso de “Perfeição”: “A lembrança de minha terra dói”. Pelo que podemos avaliar, este Cancioneiro da terra indica um poeta de obra cada vez mais importante, uma obra poética que há de ocupar uma posição de destaque na literatura brasileira contemporânea.
Recebemos e agradecemos: Jornal da ANE Brasília, ano XI, nº 69, abril 2016; ano XI, nº 70, maio 2016.

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FERNANDO PY
Poeta, colunista e crítico literário, redator e tradutor brasileiro. Traduziu, dentre outros títulos importantes, a monumental obra proustiana “Em Busca do Tempo Perdido”.

domingo, 4 de dezembro de 2016