quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

MYRIAM COELI


 
Myriam Coeli (1926-1982)


CANTO DE ESPERA PARA O PRIMOGÊNITO


Artífice, a mãe se completa moldando o filho de sua argila

– em seu invento ela se multiplica, ousada, para outro espaço. 

A suavidade de seu ventre improvisa ninho de rouxinóis 

de inesperados trinos e notas musicais

para o filho – pássaro cego – navegar nos corredores de sangue.

Com impossíveis cristais inventa canções e embalos

e torna alegre o pesado silêncio de suas entranhas.


Onde a semente germina e a seiva cresce, lentamente com a voz

– um lírio, talvez, uma espiga de dourado trigo, desabrochará.


CANTO DE ESPERA PARA O SEGUNDO FILHO


O filho cresce de antiga semente

e se agita em meu ser com libações de pássaro.

A argila que o inventa torna-o semelhante e lúcido dentro do tempo

que o completa e o reclama, integral e ousado.


O Sangue, o Gesto, a Palavra, a Humana Contingência

e essa argamassa de Poesia – minha herança –

espreitam de seus mistérios e se integram à ousada forma.


Bem-aventurada em meu afã de criar

eu me engrandeço de humildade de não merecer a Dádiva

e glorifico e exulto o Homem que há de vir.    

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COELI, Myriam. “Branco & Nanquim: Obra Poética”, org.: Cristiana Coeli Goldie & Elí de Araujo. Natal: Sol Negro Edições, 2018.


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