sexta-feira, 1 de outubro de 2010

GRUTA DO MAQUINÉ: "– Plein!... ritmos do Infinito..."

Gruta do Maquiné
João Guimarães Rosa

A gruta de Ali-Babá ainda existe,
graças a Deus, ainda existia,
quando eu disse:
– “Abre-te, Sésamo!...”,
na fralda da serra,
e fui entrando, deixando cá fora
também o sol, a meio céu, querendo entrar...


Bafio quaternário. O preto
da imensa noite, anterior ao mundo,
com pesadelos agachados
e pavores dormindo pelos cantos,
enrolados nas caudas de gelatina fria,
vem comprimir o peito e os olhos.
E ao acendermos as velas e as lanternas,
a treva se retrai, como um enorme corvo,
das paredes paleozóicas,
salitradas.


Subterrâneos de Poe, salões de Xerazade,
calabouços, algares, subcavernas,
masmorras de Luís XI, respiradouros
do centro da terra,
buracos negros, onde as pedras jogadas
não encontram fundo, como pesadelos
de um metafísico...


Flores de pedra,
cachoeiras de pedra,
cabeleiras de pedra,
moitas e sarças de pedra,
e sonhos d’água, congelados em calcário.
Andares superpostos, hieroglifos, colunas,
estalagmites subindo
para estalactites,
marulhos gotejando das pontas rendilhadas:


– Plein!... ritmos do Infinito...
– Plein!... e séculos medidos por milímetros...


Não falemos, que as nossas vozes, baças,
recuam espavoridas
das galerias ressumantes, das reentrâncias
de um monstruoso caracol...


Rastros de ursos apeleus e trogloditas,
candelabros rochosos,
lustres pendentes de ogivas,
e a visão de Lund, sorrindo, sonhando
com fêmures de homens primitivos,
com megatérios e megalodontes...


Mas é preciso sair. Já é a hora
da noite deslizar para fora da furna,
e subir, desenrolando as voltas
de píton ciclópico,
para encaixar todos os anéis, na altura,
com milhões de escamas fosforescendo
e o enorme olho frio vigiando...

(Poema de João Guimarães Rosa.
In: MAGMA. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997).

Fotografias de Antonio Fabiano


PS: Se você nunca esteve na Gruta do Maquiné, basta sentir este poema do Guimarães Rosa. Não mais precisa ir lá.
Esta postagem é dedicada a Rafael, que sugeriu tais versos às fotografias.

4 comentários:

  1. Jaécia Bezerra de Brito1 de outubro de 2010 22:04

    Uma semana sem Net. Saudades dos seus escritos.

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  2. A escolha do poema assim como a postagem das fotos intercalada com entre as estrofes da poesia ficou muito bom. O Poema ficou mais bonito do que já é. Ainda mais pelo fato de ser de Guimarães Rosa autor, pelo qual tenho uma particular adimiração. Excelente postagem Fabiano ficou muito bom!
    Abraço!
    Rafael de Oliveira Pereira

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  3. Grandes fotos para um grande poema. Parabéns!

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