segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ACARI EM MINHAS MEMÓRIAS

Acari, cidade do Rio Grande do Norte, sempre gozou de boa fama em minhas memórias. Gozava de fama nacional, também, por ser a cidade mais limpa do Brasil, um título que eu não sei se ela ainda ostenta. O que eu sei é que sempre estive muito próximo dos acarienses: nos anos em que concluí o 1.º e cursei todo o 2.º grau – como se dizia antigamente – em Currais Novos (estudei no Colégio Comercial, que fora em tempo áureo dirigido por uma acariense severa, cuja boa fama atravessou gerações); e, depois, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde também os acarienses eram muitos.
Nossas cidades eram pequenas demais, então acorríamos, os que podiam, à cidade maior da cercania, que nem era tão maior assim, para estudar em colégios melhores, fazer faculdade, compras etc. Hoje por certo tudo isso mudou! Mas naquele tempo era assim. Lá nos encontrávamos. E, talvez por sermos meio forasteiros no lugar, nos afinávamos bem.
Os acarienses eram a soma de tudo que eu mais prezava num ser humano: eram disciplinados, simples, muito inteligentes, aplicados nos estudos, bem educados, bem-humorados. Como se não bastasse isso tudo, as meninas eram bonitas, todos eles tinham música no sangue e, ainda por cima, eram poetas até no jeito de falar! Muitos dos meus colegas de lá já eram escritores, naquele tempo da Federal, já tinham livros de poesia publicados e leitores cativos. Acari tinha revistas literárias e uma tradição em verso de fazer inveja ao Seridó.
Os acarienses amavam seu poeta José Gonçalves, que eu também aprendi a amar. Este escrevera, pelos idos de 1945, um famoso poema intitulado “Despedida do pássaro morto”. José Gonçalves veio a falecer, tragicamente, em julho de 1951, num acidente aéreo. Definitivamente isso fez dele, no imaginário das pessoas, o mítico “pássaro de fogo” dos seus mais belos versos...
Eu ainda me ligava à terrinha acariense por outra causa: na sua Igreja do Rosário, a mais antiga do Seridó, estão sepultados alguns dos meus primeiros ancestrais do Brasil. Isso implica alguns séculos de genealogia, coisa que minha parentela antiga cultivou com zelo e ufanismo hoje ultrapassados.
Voltando aos acarienses do meu tempo... Eram criaturas muito especiais. Solidários, destituídos de preconceito, artistas, livres, acolhedores... Tanto eu poderia louvar desta gente! Com alguns deles trabalhei no Centro Acadêmico de Letras. E já ia me esquecendo de dizer, esses acarienses eram também muito politizados! Andamos, sim, metidos na boa política estudantil! Formávamos um grupo relativamente hegemônico e até assumimos lideranças na capital da scheelita, a terra dos curraisnovenses, de cujos artistas estive igualmente muito próximo. Fundamos jornal, promovemos eventos de grande porte e levamos sangue novo ao campus de Currais Novos que, naquela época, funcionava em condições mais ou menos precárias em relação ao que é hoje.
Dos acarienses eu guardo muitas saudades, rostos e nomes que omiti aqui. Tudo isso me faz até lembrar de certo poema que escrevi há tempos e que deveria ter sido publicado no final da década de noventa, em um livro meu que felizmente morreu no prelo, mas do qual ainda posso salvar coisas boas como esta:

ACAUÃ

Acauã
Lanço em tuas asas
Meus anseios
Voo
Vejo-me
Em teus espelhos
De mansas
Alas
Águas
Correntes
Que me prendem
Afim.

Acauã
Doce
Rio sereno
Antigo
Das gerações d’estrelas
Vê-las
Gostava eu
Pintadas
Em teus lençóis
Boiadas
A beber
Passar

Acauã
Nado
Rio de agora
Rio
Do menino
Que dourou
As horas
Nadas
Onde deságuas
Águas
Que adornam
Acari.

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 25 de outubro de 2010.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

7 comentários:

  1. Jaécia Bezerra de Brito26 de outubro de 2010 01:41

    Alguém já disse que poesia é voar fora da asa. Você, meu querido poeta, se lança no espaço com ou sem acauãs para sustentar seu voo; mergulha nos rios e almas dos viventes com a total liberdade de exímio aeronauta. Acariense que sou revisitei meu rio e história na sua inspiração. Um grande abraço.

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  2. Eu queria ver esse poema do José Gonçalves, do qual falou... Será que o senhor poderia publicá-lo aqui em seu blog? Fiquei curioso... Muito obrigado! José

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  3. Ok, José. Vou ver o que posso fazer... Vou entrar em contato com o amigo acariense Wilson Azevedo, maior especialista que há nesse poeta, e vou lhe solicitar o poema na íntegra, com mais alguns dados do seu autor. Abraço.

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  4. Querido amigo Fabiano...
    Ao ler o título de sua postagem, tive certeza que o texto, de alguma forma, faria referência ao nosso caminhar juntos. Sempre digo que tive a honra de conhecer tão linda figura, mas inocente na época de sua grandeza.
    Obrigada pelas lindas palavras aos acarienses e a mim, por conseguinte.
    Meu amor por você, amigo do coração, a cada vez torna-se maior, como se fosse possível.
    Sinto em não poder tê-lo por perto, mas suas palavras nesse espaço, me fazem recordar esse belo cavalheiro com amabilidade própria.
    Abraços navegoanos... Rúbia.

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  5. Olá, pessoal! Já está disponível o poema de José Gonçalves, referido nesta crônica, com mais alguns dados biográficos do seu autor. Vejam isso na postagem do sábado 30 de outubro de 2010. Especial agradecimento ao amigo Wilson Azevedo e à família do poeta...
    Abraços!

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    1. Aceite meu sincero e profundo agradecimento , mesmo que tardio...
      Em nome de nossos parentes ORGULHOSOS pelo nosso INESQUECÍVEL TIO JOSÉ !!!
      TEREZA GONÇALVES DE MEDEIROS PEREIRA.

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