quarta-feira, 16 de maio de 2012

ENTREVISTA A FERNANDO FONSECA

Antonio Fabiano em fotografia de Márcio do Carmo de Paiva


Entrevista concedida a Fernando Fonseca


"A entrevista do mês é com o poeta Antonio Fabiano, que acaba de lançar seu primeiro livro de poesia, o qual já está à venda no Café e Livraria da Praça. Ele é religioso, da Ordem dos Carmelitas Descalços. Gentilmente recebeu o Fantastic e falou sobre muita coisa boa: poesia, vida e religião. Um papo realmente que merece ser lido com atenção, pela  sabedoria que transmite." 
(http://www.fantasticgroup.com.br/daybyday/?pagina=noticias&id=2283&.html)

Abaixo o texto na íntegra (sem cortes de edição):

ENTREVISTA


Antonio, como e quando começou a escrever poesia?
Para começo de conversa, eu não gostava de poesia. Achava poesia uma coisa muito chata! Eu era leitor assíduo de outros gêneros literários, sim, mas de poesia... quase nunca. Excetuando a literatura de cordel do Nordeste, algo bem peculiar, bastante comum desde o berço em nossa terra (sou potiguar), eu não frequentava outros poetas. Li tudo que estava disponível em prosa, nas nossas bibliotecas, incluindo a extensa obra de Monteiro Lobato, o autor que mais me fascinou na infância. Li os grandes clássicos da literatura brasileira e universal... Mas ainda não tinha sido educado, se é que posso falar assim, para a poesia propriamente dita. É verdade que, com oito ou nove anos, eu escrevi dois “poemas” para as aulas de redação, mas sem muita consciência de gênero ou fazer artístico. É preciso aprender a gostar de poesia, o que pode acontecer de muitas maneiras para cada pessoa. Aconteceu para mim, definitivamente, quando eu ingressei na faculdade de Letras e tive contato com outros poetas, estudei exaustivamente a poética nos moldes clássicos etc. Descobri, então, que a poesia era um caminho, a maior paixão. Claro que eu já havia lido, antes, e até mais de uma vez, “Os Lusíadas” de Camões ou a “Divina Comédia” de Dante, por exemplo, mas sem grande noção da complexidade e da fonte inesgotável de beleza dessas obras. Foi no curso de Letras que eu comecei a gostar verdadeiramente de toda poesia e, também, a escrever compulsivamente. Eu tinha mais ou menos vinte anos de idade. Na universidade estudei as literaturas do Brasil e de Portugal, bem como as dos EUA e da Inglaterra. Estudei também a literatura potiguar, que é riquíssima. E, para além da universidade, lia e estudava alguma coisa dos poetas franceses, espanhóis... Aliás, foi aí que esbarrei na monumental obra de São João da Cruz, o grande poeta e místico do século XVI. Ingressei mais tarde em sua Ordem, como sabe. Nessa época ganhei, entre os colegas da universidade, alguma notoriedade e respeito, mas não publicava nada de poesia! Muitos dos meus amigos daquele tempo publicaram seus livros, receberam prêmios, foram adiante na educação e cultura, tornaram-se conhecidos em diversos segmentos das artes. Eu demorei um pouco mais. Fora isso, publiquei, sim, outras coisas... Sempre escrevi muito. Estive metido na política estudantil, era da direção de um jornal acadêmico bastante literário, realizava eventos culturais... Eu fui muito feliz em estar junto e aprender de uma geração nova de intelectuais potiguares, geração que gostava de literatura e felizmente está aí, dando seu contributo às letras, com dignidade. Tive ótimos professores, com os quais mantenho até hoje vínculo de amizade e gratidão. É muito importante dizer isso...


Quais os poetas que o inspiram e que aprecia?
Eu praticamente li tudo do “cânon”. E li igualmente o que não está no “cânon”. Por isso, fica difícil dizer todos os poetas que aprecio e que me inspiram. Também a identificação com este ou aquele poeta se dá em diferentes fases da vida. Houve um tempo em que li com grande entusiasmo os portugueses, desde a Cantiga de Guarvaia [Cantiga de Guarvaia ou Cantiga da Ribeirinha é o primeiro texto literário em língua galaico-portuguesa de que se tem registro, composta talvez em 1198 por Paio Soares de Taveirós], até os poetas contemporâneos. Destacaria, então, Fernando Pessoa e, mais que tudo, Florbela Espanca, uma interessante e controvertida personalidade literária do século passado. Aliás, o Brasil tem uma de suas principais estudiosas, a notável Maria Lúcia Dal Farra, também poeta. Durante muito tempo, os livros de Florbela Espanca foram minha bíblia. Está aí uma poesia que revisito com prazer. Aqui do Brasil, eu li com verdadeiro devotamento Manuel Bandeira, influência que fiz questão que aparecesse no livro [Sazonadas] através de pelo menos dois poemas. Um pouco depois, eu descobri que Minas não precisa mesmo ter mar: vocês têm uma invejável tradição cultural. Eu olho com grandíssimo respeito para o povo que deu ao mundo Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade... Estar aqui há quase dez anos me fez conhecer, com crescente admiração e zelo, os escritores mineiros. E são tantos, meu Deus! E tão bons! Eu já admirava Minas, já conhecia os poetas inconfidentes... Deleitei-me com o Arcadismo etc. Li também Alphonsus de Guimarães... tão musical, simbolista... Mas pode-se dizer que, sobretudo nos últimos tempos, eu fui mais a fundo na poesia de vocês e literatura de modo geral. Eu poderia até citar muitos nomes contemporâneos, porque há uma geração mineira bem promissora... Mas deixe-me ser previsível, com excelência: inspira-me muito, ainda agora, a poesia de Drummond, Adélia Prado... Claro, para além de Minas, o poeta Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Mário Quintana, Maria Lúcia Dal Farra, Zila Mamede (poeta potiguar). Inspira-me sempre a poesia de São João da Cruz, que é muito boa. Gregos e latinos que revisito com renovado gosto... Ainda, Federico García Lorca... E muitos outros. A literatura é uma fonte inesgotável de prazer!


Como você vê a relação entre o sagrado e o profano em sua poética?
Eu lido o tempo todo com o sagrado, pela própria forma de vida que abracei. Sou religioso, como sabem. Alimento-me de textos sagrados todos os dias. Rezo as Horas com a minha comunidade. Gasto um considerável tempo de minha vida em silêncio, oração etc. Mas também me considero uma pessoa igual às demais, a par do que se passa no mundo etc. Leio jornais, participo da vida e dos sofrimentos das pessoas. Se escrevo coisas que são lidas em mosteiros ou publicadas nos meios religiosos, também faço coisas que nada têm a ver com isso – como talvez a minha poesia. Sou parte deste tempo, com angústias e anseios iguais aos de todos deste tempo... Então, em certo sentido, não posso nem quero desvincular uma coisa da outra, isto é, o sagrado e o profano. Até escrevi que, em mim, eles se misturam com a mesma precisão enigmática de um rio em curso, veloz, a devassar o chão molhado da espera... mais ou menos assim, no livro, em algum lugar... Ora, o sagrado e o profano caminham juntos, desde que o mundo é mundo. Você não precisa tornar-se carmelita descalço para fazer experiência do sagrado. Você, como qualquer pessoa, habita esta realidade. E nem eu, nem o Papa, graças a Deus, somos capazes de dizer onde começa uma coisa e termina a outra. É verdade que homens arrogantes das religiões muitas vezes tiveram essa pretensão, e pessoas até foram queimadas por causa disso. Mas devemos ser mais humildes, em face do mistério que nos ultrapassa. A poesia, mais que tudo, nos faz provar estas verdades. Gosto do Quintana, quando ele diz que a poesia, a boa poesia, até quando fala contra Deus, leva para Deus. Bem, estou citando isso de cabeça... Veja como está naquele bonito poema dele: “Se eu fosse um padre”... Finalmente respondendo: em minha poética, a relação entre o sagrado e o profano é latente. Não deixo de ser o que sou quando escrevo. E o que sou afeta a minha poesia. Mas isso é muito bom! O profano não me exaspera. Acho que o sagrado me assusta mais...


Dentro da pergunta anterior: eu gostaria de saber em que medida o fato de você ser religioso influencia sua poesia? Isso te limita ou te censura ao abordar algum tema? Quero dizer, no caso, sua consciência...
Ser um carmelita descalço influencia, sim, a minha poesia. E não apenas a poesia, mas qualquer coisa que eu fizer. Porém, não faço proselitismo quando escrevo poesia. Não quero convencer ninguém de nada. Alguns não entendem nem gostam que eu perca tempo com versos tão “profanos”; para eles, eu deveria escrever castos poemas à Virgem ou me ocupar de rezar e converter pecadores... Eu rezo. Ainda não me converti totalmente... E escrevo o que a poesia manda, quando ela vem a mim, não o que quero escrever. Não gosto de fanáticos religiosos, nem os da minha, nem os de outras religiões. O único “fanatismo” de que gosto é o de Florbela Espanca. Aliás, já ouviram o soneto dela, o poema que tem esse nome, cantado por Fagner? Então, respondendo às outras perguntas que você fez... O fato de ser religioso não me limita nem me censura. A ser assim, não escreveria o que escrevo. Estou convencido de que posso abordar qualquer tema em minha arte. E não tenho problemas com a minha consciência por causa disso. Mas ser religioso, para mim, é maior que ser poeta. Muitas vezes não posso ir aonde quero, devo estar com a minha comunidade, fazendo coisas bem simples do cotidiano. E se eu tiver um compromisso social importante, não hesito em cancelá-lo para atender a uma necessidade da minha comunidade ou do povo. As coisas que eu publico têm licença da Ordem – digo licença, não censura. Eu tenho voto de obediência, então devo abarcar as consequências do que livremente abracei. Mas aqui dentro eu sou um irmão como todos os outros, fazendo exatamente as mesmas humildes coisas... Os superiores me autorizam, certamente, mas muitos dos confrades nem sabem que tenho coisas publicadas. Isto, portanto, não é o principal de minha vida, ainda que muito importante e caro ao meu coração.

 
Queria que falasse um pouco sobre o seu trabalho na Ordem, sua vocação religiosa...

Como carmelita descalço, eu trago o peso de uma tradição de séculos na Igreja. E o Carmelo deu ao mundo alguns de seus maiores místicos. Inclusive São João da Cruz é um grande poeta, não apenas místico, mas poeta de verdade e dos bons, respeitado e admirado por qualquer pessoa séria que tenha estudado ou simplesmente conheça um pouco da literatura espanhola do século XVI. Mas por que digo isso? Porque foi através da leitura das Obras de São João da Cruz que eu conheci o Carmelo e acabei entrando nele. Um carmelita é genuinamente uma pessoa de oração. Acordamos bem cedo todos os dias para rezar em comunidade, isto é, com os irmãos do convento. Rezamos em várias horas do dia, o que chamamos de Liturgia das Horas. Cantamos os salmos e meditamos a Palavra de Deus etc. Mas também trabalhamos e estudamos muito. Temos hoje no Carmelo, mesmo entre as monjas que são de estrita clausura, pessoas capacitadas em diversas áreas. No nosso caso, os homens, saímos também para o que chamamos de pastoral, missão ou ação apostólica. Recentemente estive em missão no Amazonas. Mas quando digo missão, quero que entenda que isso hoje tem outro significado. Não fui catolicizar índio ou recrutar adeptos para as fileiras de minha Igreja. Estes trabalhos me possibilitam estar próximo das pessoas, ouvi-las, aprender delas e também dar um pouco do que recebemos de bom. Estive em diversos lugares deste país, alguns tão miseráveis quanto seja impossível apenas imaginar. A dor e o sofrimento de muitos dos nossos irmãos têm cores chocantes, quando vistos de perto, mais do que aquilo que supomos. Também aqui em Belo Horizonte realizamos trabalhos pastorais, inclusive de assistência social. Quanto à vocação religiosa, em esfera mais pessoal, posso dizer que sou uma pessoa feliz. Eu já era muito feliz antes de vir para o Carmelo. Abri mão de muitas coisas... Mas não sinto falta de nada! Hoje sou mais feliz, porque me sinto existencialmente bem situado. Quero dizer, estou no lugar certo. Sei que é difícil para alguns entenderem isso, muitas vezes eu também não entendo, mas quando você está no lugar certo... não importa o que aconteça, ou quanto você deva perder para ganhar. Eu fiz a melhor escolha de minha vida! Mas não acho que todos tenham de seguir pelo mesmo caminho, ou pensar como eu penso, ou acreditar nas coisas que eu acredito... Muitos não suportam as exigências deste estado de vida. Eu posso entendê-los. Alguns amigos nunca aceitaram a minha vocação... Mas a vida é assim mesmo, não é? O que seria das outras flores do mundo, pobrezinhas, se tudo fosse só girassóis de Van Gogh?


Você tem blog. Quais os motivos para a criação dele? Divulgar sua poesia e seu trabalho na Ordem?
Já faz algum tempo que tenho blog, é verdade. Mas não o criei para divulgar nada. Quando eu comecei com ele, tive de obter licença do provincial, principalmente porque não se tratava de um blog para divulgar coisas da Ordem ou textos de convicção religiosa. Se você reparou bem, lá está o meu nome civil. Na Ordem eu tenho outro nome. Isto se explica lá, não é dupla identidade. É um costume antigo, mantido ainda por algumas famílias religiosas da Igreja. No blog eu nunca abordo assunto de religião, com exceção de uma ou duas vezes em que a circunstância pediu. Mas não são textos piedosos os que escrevi lá. Isso não quer dizer que eu não escreva também coisas religiosas! Claro que sim, escrevo e publico em outros meios. E sou lido por irmãos e irmãs do Carmelo e de outros mosteiros e expressões de vida religiosa. Mas por que eu haveria de só falar de religião, o tempo todo, como se Deus fosse uma coisa a ser metida de goela abaixo nas pessoas? Se eu realmente sou possuído pela experiência de Deus, as pessoas que tiverem contato comigo ou lerem o que eu escrevo sentirão isso, de seu jeito e nas suas medidas, até mesmo quando eu não disser palavra alguma sobre Deus. Eu acredito no poder humanizador da poesia. A boa poesia nos torna melhores, e o mundo precisa de pessoas melhores. Pouco importa se o poeta é cristão, ateu ou agnóstico. A beleza tem o poder de nos redimir. Eu busco respeitar muito a arte alheia, ainda quando não a entendo ou não gosto dela. Eu não sou obrigado a gostar de tudo que é bom, claro. Mas respeito sempre o que é trabalho sério de artista de verdade. E aí me entenda, pelo amor de Deus: eu não acho que tudo seja arte. Há muita coisa ruim que se pretende melhor do que tudo que existiu antes. Eu prefiro não falar dessas coisas. No meu blog, falo mais do que gosto, entram ali apenas meus amigos e as pessoas da minha afinidade literária, isto é, só entrevisto ou publico pessoas e coisas de que gosto. Assim, não é um blog de utilidade pública. Talvez, de inutilidade pública. O que quero mesmo dizer é que é um blog pessoal. Não tem maiores pretensões. Por isso tem meu nome no frontispício, e não um tema literário. O blog surgiu de uma necessidade de manter viva a paixão e o zelo que aprendi a ter pela literatura de um modo geral. É um blog literário, como já disse. Também ali publico alguns poemas meus e as crônicas semanais, mas não se trata de um blog de divulgação de trabalho, como você perguntou, ainda que eu também possa fazer isso lá. É uma página de relação com pessoas que gostam do que eu gosto ou que querem dialogar, até pensando diferente, o que é ótimo! É uma forma que encontrei de estar próximo das pessoas e trocar ideias com quem também aprecia as boas letras. Para minha surpresa, gente muito competente frequenta essas páginas. Recebo mensagens até de “imortais”... Mas escrevo para pessoas comuns, como eu. E me esforço para manter as páginas em nível de excelência, com senso de responsabilidade, porque as pessoas merecem o melhor que cada um de nós pode lhes dar.


Como você definiria seu livro em termos de temática para o leitor e como foi o processo de elaboração  dele, seleção de poemas, edição  e outros aspectos?
Eu preferiria que outros o definissem... Mas creio que é um livro onde predominam poemas mais líricos. Não esperem mais do mesmo no próximo, porque sou capaz de escrever coisas muito diferentes disso, e já escrevi! Eu quis que esse livro fosse mais terno, delicado, sem frescura, claro! (risos). Eu escolhi poemas recentes e alguns mais antigos, para manifestar um pouco da influência literária que recebi ao longo destes anos. Não está tudo lá, mas pretendi mesmo explicitar algumas dessas influências, até como forma de gratidão e continuidade... Foi proposital colocar ali poemas que dialogam com outros poetas, ou que dialogam entre si. Foi proposital deixar vazar nos textos alguns traços autobiográficos. No sentido lícito da palavra, eu quis fazer um livro pessoal, mais íntimo, para os mais chegados. Não é sempre assim que procedo. Mas, livro de poesia é o meu primeiro... então, eu quis começar assim, pouco me importando com o julgamento que fizessem disso. O processo de elaboração foi um pouco demorado... Eu reduzi o livro, isto é, o número de poemas, porque, inclusive, não podia pagar por mais. Nada foi feito com dinheiro da Ordem, diga-se em tempo. A tiragem é pequeníssima... Há poucos exemplares de “Sazonadas” no mundo. Do que você perguntou, não pude acompanhar de perto todo o processo de editoração. Apenas a revisão... Tudo foi feito no Rio, pelo editor da Taba Cultural. Andei bem ocupado, nesse período, com outras coisas, especialmente da Ordem. Então, não exigi tanto, nem deles nem de mim. Mas dei-me por satisfeito ao final do trabalho e... já não me detenho nele. Ao menos como carmelita, devo me lembrar de que não me convém aportar o coração nessas coisas.


Entrevista concedida a Fernando Fonseca
Publicada em 16 de maio de 2012