segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POSSESSÃO

Há três dias o monstro dormidor profundo, o que roncava no meu íntimo, despertou e urra! Destampou-se a lata da respiração...
Já não durmo eu, nem como! Comer como? Só escuto. Urra!...
Dele sai coisas terríveis, versos que nunca escreverei, tais como: ‘bezerros mamam nas vacas, josés não mamam em ninguém’...
Chego a ficar ruborizado!
Porém, é muito esperto o monstro dormidor profundo. Se vê que dele tiro algum proveito... cala-se.
Escrevam seu nome nos cânones da literatura! Ou partam-se os cânones, que para pouco ou nada servem!
O monstro dormidor profundo é uma besteira que inventei, para depois xingar palavras com muitas estrelinhas... Eu, este outro animalzinho besta, homem pelo reticente subterfúgio de calar-se na hora exata e ser “sapiens”.
Mas não seria extravagante demais e pouco humilde render-se a todas as delicadezas?

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 29 de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

domingo, 28 de agosto de 2011

Jacques Brel - Mathilde (live)



Jacques Brel - Mathilde (1964).
Casino de Knokke - première interprétation en publique de cette chanson.

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TRADUÇÃO:

“Mamãe, chegou o tempo
De rezar pela minha salvação.
Matilde voltou!
Bougnat, você pode guardar seu vinho,
Pois esta noite eu beberei meu desgosto.
Matilde voltou!
Você, a empregada, você Maria,
Seria melhor que trocasse os lençóis.
Matilde voltou!
Meus amigos, não me abandonem!
Esta noite eu volto ao combate...
Maldita Matilde, porque estás aqui!

Meu coração, meu coração, não batas tanto!
Faça de conta que não sabe
Que a Matilde voltou!
Meu coração deixe de repetir
Que ela está mais bela que antes do verão!
A Matilde que voltou!
Meu coração pare de festejar,
Lembre-se que ela espedaçou você,
Esta Matilde que está de volta!
Meus amigos não me abandonem!
Digam-me, digam-me pra não fazer isto!
Maldita Matilde, estás aqui!

Minhas mãos, fiquem calmas!
É um cão que volta da cidade.
Matilde voltou!
Minhas mãos não batam,
Isso não é da conta de vocês!
Matilde voltou!
Minhas mãos, não tremam mais!
Lembrem-se de quando eu chorava sobre vocês...
Matilde voltou!
Minhas mãos não se abram!
Braços meus, não se estendam!
Bendita Matilde, estás aqui!

Mamãe, pare com as rezas!
Seu Jacques volta ao inferno!
Matilde voltou pra mim!
Bougnat, traga-nos o vinho!
Aquele de núpcias e festins!
Matilde voltou pra mim!
E você, a empregada, você Maria,
Vá cobrir a minha cama de lençóis,
Matilde voltou pra mim!
Amigos, não contem mais comigo!
Eu cuspo de novo pra cima!
Minha bela Matilde, eis que voltaste... voltaste!!!”

* * *

O CASAMENTO DE BELINHA (fabulinhas)

Um dia a barata disse
Pra filha chamada Bela:
“Belinha, inda és donzela,
Tá na hora de casar!”

Belinha ficou contente,
Pôs-se logo a requebrar.
Mandou fazer um vestido
Para nele se casar.

Espalhou-se a notícia
Do casório a acontecer.
A noiva mandou convites
Pra Deus e o mundo ver.

Chegando a hora da festa,
Presentes os convidados,
Belinha olhou para os lados...
E o noivo? Onde está?

Antonio Fabiano
Direitos reservados

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

ALFARRÁBIO

Enganam-se os que pensam que em bibliotecas de conventos nada mais há que livros de teologia! Aliás, pensar assim seria ignorar a história. O arcabouço intelectual de todo o Ocidente foi resguardado e muitas vezes salvo nas bibliotecas dos mosteiros, na caprichada caligrafia de monges copistas, etc. Houve um tempo em que ser cristão e filósofo era basicamente a mesma coisa. Quase toda descoberta ou revolução no campo das ciências era empreendida por homens da Igreja, ainda quando contrariavam princípios defendidos cegamente pela religião! Mas não era nada disso, o que eu ia dizer... Há pouco me deparei, em uma de nossas bibliotecas conventuais, com a primeira edição de POEMAS de Carlos Drummond de Andrade, uma espécie de toda a sua “poesia reunida” para então, 1959. Vinte anos depois eu nasceria, por isso o achado me pareceu tão velho! Leio muita teologia, certamente, não brinco em serviço. Mas de Deus já se falou tanta bobagem, que Ele mesmo se enfarou e pediu socorro aos poetas! Por isso li com mais fé Drummond, os nove livros ali reunidos – o último era a parte inédita, naquela longínqua ocasião do lançamento de “A vida passada a limpo”. Li tudo, a começar pelo “Poema-Orelha”, que foi posto exclusivamente nas “orelhas” do livro, por onde o poeta diz que escuta se dele falam mal ou se o amam. Ah, velho livro! Coisa da antiga e tão mais célebre “Livraria José Olympio Editôra”. Velha grafia do velho poeta velho!... E foi como reencontrá-lo ressurreto, saindo de cada página do alfarrábio, talvez por mais de cinquenta anos fechado! Depois, em mim, um não poder respirar por três dias, nariz tapado, garganta arranhando, coração disparado!... Eh, coração! Saudades de quê? Talvez mais cinquenta anos e alguém te leia de novo...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 22 de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Greensleeves improvisation by Urbano Medeiros



This is an improvisation based on “Greensleeves”, a traditional English folk song. “Greensleeves” é uma das mais célebres canções folclóricas da Inglaterra. Aqui executada pelo nosso virtuose Urbano Medeiros.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ADEUS AO POETA JOSÉ SALDANHA, MAIOR CORDELISTA DO RIO GRANDE DO NORTE

O poeta Zé Saldanha, cordelista potiguar... (Foto Divulgação)


Com imenso pesar recebi a notícia da morte do poeta José Saldanha, considerado o maior cordelista do Rio Grande do Norte, verdadeiro ícone da poesia popular em minha terra e venerado por mais de uma geração de admiradores e por pessoas de todo o Brasil e exterior. Zé Saldanha, como era mais conhecido, nasceu em 23 de fevereiro de 1918, na fazenda Piató, em Santana do Matos. Partiu para a pátria eterna dos poetas grandes como ele, na terça-feira passada, dia 09 de agosto de 2011. Teve extraordinária atividade artística e mesmo com a idade avançada não parou de escrever. Impressiona o fôlego deste homem e a fecundidade de seu trabalho, uma produção que sem exagero ou débito de favor poria, tal como ele chegou a dizer, em cada fio de cabelo um cordel pendurado!
O poeta morou em minha cidade. Pelo que sei, foi num tempo em que eu não era nascido. Escreveu versos que enaltecem encantos e contam causos de Cerro Corá. Com algum constrangimento confesso que só quando eu não estava mais lá, é que vim a ter contato com sua obra. Esta é uma das razões pela qual seu nome não figurou no esboço de antologia dos poetas cerrocoraenses (não necessariamente nascidos lá) que organizei há quase dez anos, por ocasião da publicação de minha Sinopse da História de Cerro Corá. Esta lacuna, que poderia parecer injustiça ao poeta maior, deveu-se exclusivamente à minha ignorância e ao curto tempo que tive para levar a cabo um trabalho de maiores proporções cuja orientação prioritária não era, evidentemente, a poesia.
Naquela época o horizonte intelectual que me foi legado pela universidade era, sob muitos aspectos, enrijecido pelas tradições dos cursos de Letras. Eu desconhecia muito da poesia popular, estudei na universidade todos os clássicos e, até quando me aprofundei na criação artística regional ou propriamente potiguar, estive totalmente ocupado com a ala predisposta pelos cânones acadêmicos de então, o que era normal. O fenômeno da literatura de cordel só de chispo foi tocado, em linhas muito gerais. Hoje sei que há estudos sérios sobre José Saldanha. Se naquele tempo havia, estavam fora de meu alcance.
Claro que depois me deparei com o tesouro da escrita dele. Cheguei a pensar em fazer-lhe uma entrevista em versos, nos moldes da métrica e rimas próprias. Admirei-lhe de longe, eu tantos anos distante da terra natal. Respeitosa veneração! Não sei se nossos caminhos displicentemente alguma vez se cruzaram no chão potiguar. Provavelmente não, pois como eu não notaria o gigante que passasse pela minha pobre estrada? A vida é mesmo engraçada! E de tão contraditória até nos entristece em horas como esta, de perda e análise de perdas. Porém tenho certeza que lá do céu o poeta não lamenta nada! Ele ri da gente – está feliz e sabe que a sua poesia continua viva, vivíssima! O poeta agora faz rimas com Deus e de lá nos consola... Feliz.

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 15 de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
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Aos familiares de José Saldanha meus sinceros pêsames.
Ao leitor anônimo – que me avisou de seu falecimento pelo blog – dedico com gratidão esta crônica.

domingo, 14 de agosto de 2011

NÚMEROS FRIOS

Imagem disponível na Web. A que achei menos chocante das muitas que aparecem quando buscamo-las pelas palavras "somália" e "fome" na rede mundial.


Estima-se que, desde maio deste ano, 29 mil crianças abaixo de cinco anos morreram de fome na SOMÁLIA. Sobre o campo de refugiados de Badbaabo, o maior de Mogadício, capital do país, reina um grande silêncio – mesmo o instinto infantil mais básico foi derrotado, pois ainda há muitas crianças, mas elas não têm mais forças sequer para chorar. Por causa de grupos armados, a ajuda humanitária encontra dificuldades para chegar lá. Só nos últimos três anos 14 funcionários do Programa Mundial de Alimentação foram assassinados. Fanáticos armados, governo inoperante, desastre natural agravado por duas décadas de guerra civil e o atraso dos órgãos internacionais em intervir, são algumas das causas desta tragédia há muito anunciada. A ONU só declarou estado de emergência no início de julho, uma demora fatal para dezenas de milhares de pessoas, crianças e adultos que morreram. Até o final do mês, mais 10 mil poderão morrer no sul do país. O que dizer disso?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

CEM POR CENTO, SEM SER POR CENTO

Cem por cento poeta, sem ser por cento poeta – visto que a vida não se conta ou se mensura em tais medidas. O que eu sei é que ele tem um jeito estranho, estranho e fascinante, de ver o mundo. Não é um sujeito normal, no mais normal dos sentidos.
Nos laranjais, laranjas amarelas. Mas ele insiste em ver incêndio e cem mil sóis. Só cem por cento louco! Bonito é vê-lo vendo o pessegueiro em flor!...
Abelhas baixaram – enxame em fúria! – sobre um galho de árvore. Eu poderia ter dito “melíferas criaturas” ou “um exército mandado pelo diabo”. Mas, não. Disse apenas e desgraciosamente: abelhas e ferrões.
A luz do sol, gelado nesta terra, cai das nuvens deslizante e feia. Não fosse o poeta, uma tragédia acontecia. Acho que um santo endoideceu. A tarde desceu crua, prematura.
No lago, carpas me insultam. Pedem para ser pescadas. Mas se lhes lanço o anzol, recusam a isca mal postada, abanam o rabo e descem para o fundo da água escura.
Estou prenhe, até o pescoço, de suspeitosa inspiração. O mundo é para além do lago, largo, lago.
Só Deus compreende o estranho medo que há nos homens.
Desponta a luz. Um cão a me chamar diz que já está na hora de voltar pra casa.

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 08 de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
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Para Iara

terça-feira, 2 de agosto de 2011

SEMPRE CLARICE...

...“meu sacrifício é reduzir-me à minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. (...) Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.”
Clarice Lispector

“Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito.”
Clarice Lispector

“a prece profunda não é aquela que pede, a prece mais profunda é a que não pede mais”...
Clarice Lispector

In: LISPECTOR, Clarice. “Felicidade Clandestina” (contos), 2ª ed., Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1975, pp. 51, 98 e 112.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O CIRCO

Óleo sobre tela: "Circo Pinote" (2010) de Assis Costa.

Do cruzeiro vi o circo, ouvi a música, o grito da criançada que descia em bando da escola para o espetáculo. Bandeiras dançavam sapecas, convidando à diversão. Do cruzeiro vi o circo, maior que o mundo, e a cidade que se apequenava àquela hora do dia. Depois mais gritos de euforia da meninada, dos anos que um dia não voltarão.
Suponho que haja um palhaço sobre o palco, roubando a cena de tudo que seja grande ou pequeno. Daqui posso ouvi-los rindo. Eu também rio, rio, rio quase mar. Mas mar não, mar não que mar não tem Minas, onde estou p’ra quase sempre...
O palhaço, ah, este sim, suponho! Lá. Escondido sob tintas, talvez triste ou realmente alegre.
...
Quando eu era pequeno de verdade fui ao circo, certa vez. Não é de hoje esta coisa de amar a arte circense, circos me fascinam desde muito! Era um circo pobrezinho, destes que vão ao interior e um dia voltam. Tinha dançarina que, embora vulgar, era mais bela e princesa que todas as belas e princesas do mundo! Com ela, nós meninos sonhávamos coisas impossíveis...
Tinha também palhaço (olha ele aqui outra vez!). E quem não ria? Uma vez descobriu Raimunda na arquibancada e fez rimas absurdas!...
Tão bom, o circo! Agora olho-o de fora, com relembrança de tudo! De cima e sem soberba encaro-o, mais alto que as bandeiras que me acenam glaciais. Tão alto que até penso que sou trapezista, dependurado das nuvens, da grande cobertura azul do mundo que também é circo!
Mas não, não sou trapezista! Sou palhaço, talvez deslocado e fora de meu circo, mas palhaço!
Lá dentro, no outro circo, descem as cortinas, sobem os aplausos, em meio à agitação da criançada.
Por acaso bolhas de sabão nascem para o chão?
Hoje tem espetáculo! Tem sim, senhor!...

Antonio Fabiano
Belo Horizonte, 1º de agosto de 2011.
Blog: www.antoniofabiano.blogspot.com
E-mail: seridoano@gmail.com
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Para Wescley J. Gama

ESTAMOS DE VOLTA!

Olá, pessoal! Estamos de volta! Obrigado às pessoas que me escreveram! Não fui de férias, como alguns pensaram. Estive no deserto, em silêncio e oração.