segunda-feira, 20 de setembro de 2010

LITURGIA DAS CIGARRAS

Tenho bastantes fantasias
Para provar-me humano
E escandalosamente
Poeta.

Já quis recitar aos berros
Quase histericamente afobado
Um poema de Bandeira
Que diz
Eu quero a Estrela da Manhã!...

Ah, isso foi há muito tempo!
Eu decantei tal paixão
Não dei vexame
(comedido demais que sou)
Nem hei de fazê-lo, agora, depois de frade
Num convento onde silêncio é tudo!

Mas sou um homem de fraquezas.
Por isso à boca da noite
(esta que vai nos engolir)
Quando estou sozinho em minha cela
E as cigarras começam a cantar
Nas árvores lá fora
Eu abro solenemente um livro
Bagagem
E recito com mãos trêmulas
Certo módulo de verão.

Tudo faz sentido depois disso!

Eu, que antes odiava com ódio mortal as cigarras,
Passo a amá-las generosamente
E chego a pensar
Que Deus criou esses insetos tolos
Que cantam até estourar
Só para que se escrevesse um poema
E eu me saciasse em tal mistério
Na crueza de secretos versos
Em dias quentes como este
De propagação de som no espaço
E calor de fogo no espírito!...

Isso mais do que estranho é sublime!
Faz valer à pena toda a vida!...
De tal modo o é
Que culmino assim minhas Vésperas
Dentro de alta noite...

Antonio Fabiano
Direitos reservados

PS: Aproveito para trazer à baila este poema antigo, dedicado a Adélia Prado.

3 comentários:

  1. Jaécia Bezerra de Brito21 de setembro de 2010 22:23

    Lá no meu açude ouvi o canto e não pude guardar segredo do escandaloso estouro poético do homem frade, então publico, que antes sempre agora admiro-te.

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  2. Agradeço a Jaécia que me mandou de presente de aniversário a indicação desse blog.Confesso que foi mesmo o grande mimo.

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  3. Não me canso de ler e degustar esse poema!!!!

    Parabéns!!!

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